Câmaras de animação econômica

Câmaras de animação econômica

Luzia Monteiro*

21 de março de 2021 | 06h00

Luzia Monteiro. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

O empreendedorismo como fenômeno social é um assunto bastante complexo, está relacionado à economia e ao mundo do trabalho, e tem uma longa caminhada. Deriva da palavra empreender, cujos primeiros registros datam de 1.563. Inicialmente, trazia como conceito a capacidade de conseguir ou tentar algo muito difícil e arriscado. Tal concepção passa a ser objeto de estudo por economistas dos séculos XVIII e XIX na Europa, ali no nascedouro do capitalismo, sistema econômico e social que prevalece até os dias atuais.

Richard Cantillon (1680-1734), economista franco-irlandês apontado como o “pai da economia” por alguns estudiosos, analisou a atividade de empreender e suas implicações nas relações de troca de mercadorias na Inglaterra. Outra lei bastante conhecida no capitalismo é a da “oferta e procura”, e foi Jean Baptiste Say (1767-1832), economista francês, que observou em sua terra natal o comportamento dos mercados, revelando como o poder de compra influenciava a relação entre vendedores e compradores.

Desse período para cá, o pensamento sobre o que é empreender e o que configura o empreendedorismo evoluiu e se espraiou nos diversos campos do conhecimento: na economia, ciências sociais, administração, gestão, comunicação e segue ganhando novas dimensões. É importante relembrarmos as origens do conceito para não ficarmos prisioneiros aos raciocínios rasos ou em vertentes únicas de pensamento.

Há, sim, regras na economia que caminham juntas e ainda incidem sobre a realidade, como as citadas acima. No entanto, é preciso saber que a cada mudança ou crise no capitalismo novos fenômenos se manifestam, como a mortalidade de atividades e a abertura de oportunidades. Na história da humanidade, o trabalho compreendido na dimensão da sobrevivência sempre existiu. Desde as comunidades dos antigos caçadores-coletores, os territórios e a cultura são elementos primordiais na luta pela vida.

Dando um salto para o presente, já no Brasil de 2008, encontramos uma forma jurídica chamada de “Marco Legal da MEI” (Micro Empreendedor Individual), criada com o objetivo de acolher os milhões de “empreendedores” espalhados por esse país afora. O capitalismo como bem sabemos, nunca teve pleno emprego. Infelizmente, nessas breves linhas não poderemos discorrer mais profundamente sobre isso. Contudo, as populações, de diferentes formas e a partir de seus próprios repertórios, buscaram e ainda buscam mecanismos de sobrevivência. O Marco Legal da MEI, naquele momento, representou um importante passo no processo de validação de parte desses mecanismos.

A saída de milhões de trabalhadores da categoria informal, muitas vezes criminalizada, para a formalidade jurídica permitiu que se analisasse com mais clareza o impacto dos recursos financeiros movimentados por essa parcela da população e sua enorme contribuição para a economia do país. Se pensarmos apenas pelo prisma do consumo, principalmente pelos impostos pagos diretamente na fonte quando da compra de qualquer produto, já podemos ter uma pequena dimensão.

Já mais adiante, a desburocratização pela administração pública para abrir a MEI foi um grande passo. Contudo, ainda é preciso avançar muito mais. É necessário criar políticas públicas no campo da educação para o empreendedorismo, espaços compartilhados para comunidades de práticas, ampliar o alcance à tecnologia digital e tornar a comunicação ainda mais acessível. Além disso, é de extrema importância o desenvolvimento de estudos sobre as cadeias de consumo, a abertura de novos sistemas de crédito destravados e que avancem na mobilidade de gênero e raça, um reforço de ideias de valorização da cultura intergeracional para revelar conhecimentos não explicitados e assim por diante. Tudo isso reunido num espaço de escuta, diálogo, trocas de informações e novas aprendizagens, o qual chamamos de animação da economia.

Conhecimento, organização social horizontal e fluída podem alavancar a vida dos empreendedores. Deixo aqui este breve convite à reflexão sobre a ideia de animação econômica, que será abordada com mais profundidade em um painel na qual eu vou participar, durante o Festival Oikonomia, projeto de imersão em economia criativa, educomunicação e cultura. Acontece entre os dias 28 e 30 de abril, de forma totalmente online e gratuita, e já está com inscrições abertas no endereço https://forms.gle/kkcBazqDi6wEX6fm6.

*Luzia Monteiro, economista, historiadora e palestrante no Festival Oikonomia

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