Calças, calçados, calçadões

Calças, calçados, calçadões

Valter Caldana Jr.*

31 de maio de 2021 | 04h00

Valter Caldana Jr. FOTO: DIVULGAÇÃO

Vira e mexe volta à cena o debate sobre o calçadão de São Paulo. Ou porque é fundamental arrumar o seu piso, que chegou indesculpavelmente a um estado de petição de miséria, ou porque é preciso resgatar seu uso, vítima que é da síndrome do pequeno poder que nos assola e coloca sobre ele de carros fortes a pequenos veículos de sub autoridades.

Volta porque a prefeitura foi capaz de desmanchar inteirinha e refazer, também inteirinha, a praça sobre o Anhangabaú, mas não foi capaz, por vários motivos, de avançar no imprescindível projeto de reformulação do calçamento, mobiliário e sinalização do Centro, aí incluídos seus espaços públicos de estar.

Viaduto do Chá e Vale do Anhangabaú vistos da cúpula do Teatro Municipal. FOTO: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

O debate volta, e então volta assustadoramente anacrônico, baseado em premissas ultrapassadas e equivocadas, acenando com a necessidade de abertura das ruas ao uso de taxis, ubers e, óbvio, veículos particulares.

É um debate que volta, infelizmente, de modo sempre improdutivo e inconclusivo. O que se dá, sobretudo, porque as metodologias de elaboração dos projetos continuam se ressentindo de sua idade avançada.

A dificuldade de atualização destas metodologias de projeto é muito grande. Processos colaborativos, os sucessores dos processos participativos, são raros, praticamente inexistentes. Isso se viu no Arouche, no Anhangabaú, mais recentemente na incapacidade de organizar o uso das calçadas durante a pandemia…

Difícil conseguir, até mesmo, um ente administrativo articulador da ação público-privada, que alguns chamam de agência, outros chamam de autoridade, outros podem chamar apenas de “uma diretoria específica na Emurb”. Ops… acabou a Emurb. Bem, mas ainda resta a Secretaria, existe a SP Urbanismo.

Vista do Vale do Anhangabaú em 1971. FOTO: LUCRÉCIO JR./ESTADÃO

O fato é que se tem enorme dificuldade em fazer seja o simples, seja o complexo. Seja o fácil, seja o difícil. Não se faz a zeladoria, mas também não se promove o retorno do circular avenidas, pelo que clamamos há tantos anos. Incentivos? Em geral não assam de renúncias fiscais inócuas. Os edifícios garagem? Não saíram do papel e agora são remédio vencido.

Aliás, tudo no Centro sempre corre o risco de virar remédio vencido. Isto porque tudo fica na fase inicial, experimental ou das boas intenções. Tudo é lento, disperso, fragmentado. iniciativas importantes como o Centro Aberto, o Triângulo Histórico, o Projeto de Reforma do Calçamento, a recuperação de fachadas e outras, acabam em voos de galinha, apesar dos sinceros esforços de sucessivas administrações, organizações da sociedade civil e outros agentes produtores da cidade.

A perda de Paulo Mendes da Rocha e Jaime Lerner na mesma semana, ambos tão caros ao Centro de São Paulo, que o diga. Já o incêndio do Edifício Wilton Paes de Almeida mais do que dizer, berra. A imagem de seu terreno vazio torna tudo ainda mais agressivo.Todos gostam do Centro, todos dizem que ele é importante, todos fazem juras de amor. Mas, então, por que…?

Porque não há disponível na praça coragem, vontade ou articulação política capaz de enfrentar as questões essenciais. Porque se fica no tópico, superficial, no quase perfunctório.

Uma delas, resolver de uma vez por todas o que fazer com o minhocão e… fazer! Outra, também prioritária, é retirar do Centro os terminais de ônibus que o transformam num entreposto, em local de passagem e não de estar. Aliás, a presença dos terminais é emblemática. Foram para lá provisoriamente durante a construção do Metrô, ficaram, e agora se faz uma privatização para perenizá-los ali, a ocupar espaços indevidos e inadequados.

Além disso, é imprescindível viabilizar na prática projetos que contemplem fortemente comércio, serviços e cultura, atividades econômicas pulverizadas e de pequeno e médio porte que são grandes empregadoras e fortalecem a diversidade, palavra-chave de todo o processo. Diversidade socioeconômica, de raça, de gênero, etária, cultural. Diversidade não apenas de uso e ocupação formal de lotes e edificações, mas diversidade de apropriação e envolvimento. Com habitação, muita habitação, como elemento estruturador da urbanidade que ali existe, inexplorada.

Vale do Anhangabaú em 1908 visto do Viaduto do Chá em direção à Rua de São João. No primeiro plano, o vale ainda ocupado pelas plantações de chá da chácara do Barão de Tatuí. FOTO: ACERVO ESTADÃO

Ao contrário, a saída que se encontra, há muito tempo, é fazer projetos que não são projetos, são planos. Planos cada vez maiores, mais complicados, mais complexos. Que por sua extrema complexidade se auto justificam e, assim, explicam a inoperância e realimentam, paradoxalmente, a lenda urbana de que a cidade cresce e se faz sem planejamento.

São planos que, apelidados de projeto, confundem as escalas e misturam os instrumentos de modo a lançar um manto diáfano que torna difusa a definição da ação. Ao confundir as escalas, confundem o cidadão, de quem se mantém distantes. Distantes do cidadão, distantes do chão da cidade.

Este é o ponto. O chão da cidade. Olhemos para baixo. Voltemos ao calçadão, que vira e mexe, volta à baila.

Então, nesta hora, é importante lembrar que o calçadão de São Paulo é de 1976! E que foi um dos primeiros do mundo na nova geração de calçadões. Vale lembrar disso para que se percebam duas coisas.

Boa parte do que se discute hoje com novos nomes como urbanismo tático (dá para não ser estratégico e tático?), urbanismo social (dá para não ser econômico, político e social?), fachada ativa, retrofit, cota parte, cota de solidariedade, são conceitos e instrumentos antigos, bem conhecidos.

São conceitos históricos e fundamentais nos campos da arquitetura e urbanismo e da gestão e formulação de políticas públicas. São discussões permanentes, no mundo todo, no tocante à cidade industrial, pós-industrial, de serviços e a atual, de informações. Por isso, estudar e conhecer a evolução destes conceitos procurando aprender com eles e com o uso e aplicação que deles é feito mundo afora é tão importante.

Vale do Anhangabaú, visto do Viaduto Santa Ifigênia. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Outro destaque necessário é a lembrança de que nosso calçadão tem praticamente meio século, 45 anos, e que São Paulo foi uma cidade que esteve, se não na vanguarda, muito próxima dela no que diz respeito a esta discussão, a agenda urbana. Esteve próxima em especial no período que vai de Faria Lima a Olavo Setúbal. Como estivera, anteriormente, a seu modo, com Prestes Maia e Anhaia Melo e antes ainda com Antônio Prado.

Coisas como fechar ruas para automóveis, pedestrianizar áreas, reurbanizar áreas no entorno de equipamentos de médio e grande porte abrindo espaços públicos com qualidades programáticas, paisagísticas e urbanísticas específicas, além de arquitetônicas, vem de longe, inclusive destas épocas…

A Emurb, um excelente capítulo à parte na história da gestão urbana em São Paulo, fez isso com grande qualidade, demonstrando ser possível. Vejamos o Paraíso, o Centro Cultural São Paulo e a própria rua Vergueiro… O Jabaquara, Conceição, Sé, são inúmeros exemplos.

O fato é que Faria Lima, Figueiredo Ferraz e Olavo Setúbal foram três prefeitos que entenderam a Arquitetura e Urbanismo como um conhecimento necessário e um instrumento de elevação de qualidade de vida e desenvolvimento econômico. Tiveram consciência de que é necessário um projeto articulador para a cidade, mesmo defendendo modelos conceituais e projetos de cidade com os quais, já há algum tempo, se possa discordar e fazer severas restrições teóricas e políticas. O que se destaca aqui é a importância de sua existência. E, sobretudo, a observação de que isso se perdeu.

Se perdeu não apenas pela opção rodoviarista dispersa, que, inclusive, vem de muito antes, desde Prestes Maia. Se perdeu engolido pelo que chamo de ‘apagão urbanístico associado ao histórico extrativismo urbano’, postura empobrecedora que se impôs na produção da cidade a partir do final da década de 1970, com ênfase na de 1980.

O que se tem hoje, como resultado, em toda a cidade e em especial no Centro, no calçadão, é dispersão e fragmentação, enquanto o que se faz necessário é articulação, coesão, participação, colaboração e diversidade. Se faz necessário um projeto. Um projeto.

Que consiga articular calças longas com calçados confortáveis.

*Valter Caldana Jr. é arquiteto e urbanista, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, coordenador do Laboratório de Projetos e Políticas Públicas, integrou a equipe que elaborou o estudo SP2040. É mestre em Planejamento Urbano e Regional e doutor em Projeto de Arquitetura pela USP

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