Caixa 2 de R$ 12 mi foi acertado e entregue no escritório de Garotinho ‘Pescador’, dizem delatores

Caixa 2 de R$ 12 mi foi acertado e entregue no escritório de Garotinho ‘Pescador’, dizem delatores

Os executivos da Odebrecht Benedicto Júnior e Leandro Andrade Azevedo entregaram à força-tarefa da Lava Jato planilhas e e-mails sobre reuniões e repasses ao ex-governador do Rio

Luiz Vassallo

17 de abril de 2017 | 17h16

Garotinho deixa o Hospital Souza Aguiar, no centro do Rio, para Bangu. Foto: Alexandre Cassiano/Agência O Globo

Garotinho deixa o Hospital Souza Aguiar, no centro do Rio, para Bangu. Foto: Alexandre Cassiano/Agência O Globo

O ex-governador do Rio Anthony Garotinho recebeu R$ 12 milhões em caixa dois em seu escritório pessoal, sede da produtora ‘Palavra de Paz’, destinados ao financiamento das campanhas eleitorais dele e da mulher Rosinha, entre 2008 e 2012, segundo relataram dois executivos da Odebrecht. De acordo com os depoimentos, os repasses foram acertados e os valores entregues, em espécie, às secretárias de Anthony Garotinho, em imóvel no centro do Rio. Os delatores entregaram trocas de e-mails sobre os encontros e planilhas do ‘departamento de propinas’ da construtora que acusam os pagamentos.

Leandro Azevedo, um dos 77 delatores da Odebecht, diz ter sido chamado, em 2008 – quando era diretor de contratos da empreiteira no interior do Rio – ao escritório de Benedicto Júnior, o ‘BJ’, então superintendente responsável pela região Sudeste, onde alega ter sido informado de que havia um acerto com Garotinho ‘para que a companhia apoiasse a campanha de Rosinha Garotinho para a prefeitura de Campos de Goytacazes naquele ano’. Operacionalizar os pagamentos ficaria a cargo de Leandro Azevedo.

Segundo o delator, no dia 25 de maio de 2008, ele, ‘BJ’ e Garotinho se reuniram no escritório do ex-governador na Rua Conde de Lages, no centro do Rio. Leandro Azevedo, da Odebrecht, entregou, como prova do encontro, uma troca de e-mails dos dias anteriores entre ele e Benedicto Junior, cujo assunto era ‘Ligar Garotinho Marcar’.

EMAIL 1

O executivo da Odebrecht Benedicto Junior relatou ter instruído Leandro Azevedo a operacionalizar os pagamentos a Garotinho, que, à época, estava à frente da arrecadação da campanha da esposa, Rosinha. “O Leandro combinou com alguém dele para que o setor de operações estruturadas fizesse um planejamento e um pagamento via doleiros no Rio de Janeiro”.

Na semana seguinte ao acordo, mais uma vez, o então diretor da Odebrecht diz ter comparecido ao escritório pessoal de Garotinho para entregar um ‘planejamento’ de como seriam operacionalizados os repasses.

ENDEREÇO

‘Nessa reunião, além de combinar com Anthony Garotinho a forma de pagamento já negociado por Benedicto Junior, este me passou informações a respeito do local para efetuar os pagamentos’, relata o delator.

Ficou acertado, dentro da empreiteira, que a secretária do departamento de propinas da Odebrecht, Maria Lúcia Tavares ‘encaminhava um e-mail solicitando endereço para entrega e informando data e horário’. O delator ainda detalha: “As entregas eram feitas nas terças, quartas e quintas-feiras e o codinome para identifica-los era ‘bolinha’”. Em 2008, Rosinha Garotinho (PR-RJ) foi eleita à Prefeitura de Campos de Goytacazes. De acordo com planilhas entregues pelos colaboradores, a empreiteira pagou R$ 1 milhão em caixa dois.

REPASSES

Nas eleições seguintes, o ritual foi repetido, segundo os delatores. Os valores teriam sido acertados por Benedicto Júnior e operacionalizados pelo diretor Leandro Azevedo. Todos os repasses foram entregues, em espécie, de forma fracionada, no escritório pessoal do ex-governador, por meio de doleiros, segundo as delações da Odebrecht. Parte também foi enviada ao escritório de campanha de Garotinho. Os codinomes de Garotinho e a esposa foram registrados no sistema Drousys, do departamento de propinas da Odebrecht. “’bolinho’, ‘bolinha’ e ‘pescador’. Bolinho em relação a um apelido que ele tem em casa, bolinha em relação a ela e pescador por algum erro de sistema. Alguém atribuiu os pagamentos com esse nome”, relata Benedicto Junior.

Documento

Documento

Além do repasse de R$ 1 milhão para a campanha de Rosinha em Campos de Goytacazes, outros pagamentos, de R$ 1,2 milhão, foram feitos em 2010, para o próprio Garotinho, quando foi eleito ao cargo de deputado federal. O valor de R$ 2,3 milhões foi solicitado novamente para a campanha de Rosinha Garotinho à reeleição em Goytacazes, em 2012. O último repasse, por meio de caixa dois, foi feito pela empreiteira em 2014: R$ 7,5 milhões para a campanha de Garotinho ao cargo de governador.

COM A PALAVRA, ANTHONY GAROTINHO

“Os ex-governadores Anthony Garotinho e Rosinha Garotinho negam que tenham recebido qualquer contribuição irregular da Odebrecht. Como os próprios delatores afirmaram, não houve benefício pessoal para eles ou favorecimento à empresa em nenhuma obra. Afirmam ainda que, se a petição virar inquérito, ficará claro que os delatores estão mentindo, já que não apresentaram nenhuma prova do que falaram”.

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