Cada 1 dólar investido em privacidade pode render 3,30 às empresas

Cada 1 dólar investido em privacidade pode render 3,30 às empresas

Luiza Sato*

10 de abril de 2020 | 14h00

Luiza Sato. FOTO: DIVULGAÇÃO

Atualmente, as pessoas têm cada vez mais consciência e preocupação quanto à forma de uso de seus dados pessoais, sendo um importante componente do intangível das empresas a sua postura quanto à privacidade.

A quarentena causada pelo coronavírus obrigou-nos a utilizar uma série de ferramentas para continuar nos comunicando com nossos amigos, colegas de trabalho e clientes, e ficou evidente como a privacidade foi um elemento levado em consideração quando da escolha dos sistemas utilizados.

A plataforma de videoconferência Zoom, utilizada em abundância no começo do confinamento, acabou por ter seu uso drasticamente reduzido e ter a imagem da empresa que o comercializa fragilizada, tudo por conta da exposição de seus graves problemas relacionados à segurança da informação. A própria Anvisa recentemente enviou a seus funcionários um comunicado solicitando a desinstalação do aplicativo, uma vez que alegadamente permitiria “o acesso não autorizado à câmera e ao microfone, o roubo de usuário e da senha de acesso, bem como a coleta e envio de informações das ligações”.

Resta claro que a preocupação com a privacidade vai além do cumprimento com os requisitos legais, sendo necessária em diversos graus para os negócios e os indivíduos.

Em estudo conduzido pela Cisco (Cisco Annual Cybersecurity Benchmark Study 2020) (veja abaixo), concluiu-se que a maior parte das empresas verificaram retorno muito positivo dos investimentos feitos em privacidade. Tal estudo duplo-cego (método mais seguro de pesquisa em que tanto examinado como examinador desconhecem as varáveis em determinado dado momento) foi conduzido com 2.800 profissionais de segurança em 13 países, incluindo o Brasil.

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Por algum tempo, a legislação sobre privacidade e proteção de dados foi de extrema relevância para tirar as empresas da inércia e fazê-las investir no tema. A motivação única seria evitar a aplicação das penalidades. Entretanto, hoje as organizações entendem que existem maiores benefícios além da adequação legal. O estudo da Cisco indicou os seguintes benefícios: redução de atrasos nas vendas, mitigação de perdas advindas de incidentes de segurança da informação, incremento na agilidade e inovação, melhoria na eficiência operacional de controle de dados, maior atratividade da empresa a investidores e construção de lealdade e confiança em clientes.

Considerando que, muito possivelmente, teremos a entrada da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) postergada para janeiro de 2021, com a eficácia posterior da aplicação de suas penalidades (agosto de 2021), os benefícios acima devem ser considerados pelas empresas como motivadores para que não haja qualquer hesitação quanto à urgência de seus projetos de adequação.

Segundo o estudo da Cisco, para cada dólar de investimento, a média das empresas gerou benefícios na ordem de USD 2,70. Tal montante variou de acordo com cada país, sendo que, no Brasil, os benefícios apontados pela média das empresas foram de USD 3,30 para cada USD 1,00 investido. Interessante indicar que o retorno dos investimentos não variou de forma significativa de acordo com o tamanho da empresa. Companhias maiores investem mais e recebem mais benefícios, mas a razão de custo-benefício é similar para pequenas, médias e grandes empresas.

Assim sendo, como concluiu o Chief Privacy Officer da Cisco, Harvey Jang, o estudo conduzido fornece provas empíricas de que o investimento em privacidade cria valor ao negócio.

A prorrogação da LGPD, o trabalho remoto e os gastos com as consequências do coronavírus não podem servir de justificativas para que uma empresa deixe de olhar com atenção para a privacidade e proteção de dados. A lei entrará em vigor, a quarentena acabará e clientes e investidores terão ainda mais discernimento sobre os cuidados de sua empresa com a privacidade. Não atrase ou muito menos cancele seu projeto de adequação; o retorno desse investimento sem dúvida valerá a pena.

Determinadas ações previstas no projeto de conformidade, como workshops e treinamentos, apesar da possibilidade da execução online (desde que usando ferramentas seguras!), podem perder um pouco da qualidade com a distância. De qualquer forma, muitos dos outros trabalhos já podem ser conduzidos sem qualquer prejuízo e com bastante eficiência. Por exemplo, que tal aproveitar este momento e verificar a segurança dos sistemas de teletrabalho e fazer uma minuciosa revisão de sua política de segurança da informação?

*Luiza Sato é sócia conselheira do ASBZ Advogados, responsável pela área de Proteção de Dados, Direito Digital e Propriedade Intelectual

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