Cabral usou operador ligado à rede de propinas da Odebrecht

Cabral usou operador ligado à rede de propinas da Odebrecht

O doleiro Álvaro Novis, que teve prisão decretada na Operação Eficiência, é identificado como "Paulistinha" e "Carioquinha" nas planilhas do Setor de Operações Estruturadas da empreiteira; segundo delatores, alvo era o "Enrolado", na contabilidade da corrupção do ex-governador, e disponibilizou pelo menos R$ 12 milhões em dinheiro vivo, entre 2014 e 2015

Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Mateus Coutinho

28 de janeiro de 2017 | 05h00

novis enrolado

Um dos principais operadores financeiros da rede de “prestadores de serviços” montada pela Odebrecht, para fazer entregas de dinheiro vivo do Setor de Operações Estruturas – o chamado, departamento da propina -, foi preso preventivamente nesta quinta-feira, 26, acusado de ter lavado pelo menos R$ 12,2 milhões para o ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB).

Alvo da Operação Eficiência – desdobramento da Lava Jato -, Álvaro José Galliez Novis é apontado como responsável por entregar dinheiro em espécie para Cabral, no Rio. Entre setembro de 2014 e maio de 2015 ele teria disponibilizado R$ 12,25 milhões em moeda.

A Lava Jato acusa o ex-governador do Rio de cobrar propina de 5% do valor dos contratos do governo do Estado, durante sua gestão (2007-2010 e 2011-2014). O peemedebista está preso em Bangu, desde novembro.

Em depoimento anexado ao pedido de prisão da Operação Eficiência, o delator Marcos Chebar afirmou que nas planilhas de propina do ex-governador, Novis é identificado como “Enrolado”.

Dono da Hoya Corretora de Valores e Câmbio, Novis é doleiro e era acionado para fornecer dinheiro vivo para o esquema de Cabral e da Odebrecht.

Além de um codinome para identificá-lo, as planilhas da propina do ex-governador têm senhas, como “carneiro”, margarida”, “azul” – mesma sistemática usada nas entregas de valores do Setor de Operações Estruturas da Odebrecht.

preventiva novis

Eficiência. Conhecido criador de cavalos do Jockey Club do Brasil, Novis “fez da lavagem de ativos seu ‘ganha pão’ sendo contumaz na sua prática”, diz o pedido de prisão da Operação Eficiência.

O doleiro é sobrinho de Álvaro Pereira Novis, ex-alto executivo da Odebrecht.

“A custódia cautelar de Álvaro Novis emerge cristalina da dimensão de seus crimes de lavagem e da sua recalcitrância nessa prática”, informam os procuradores da Lava Jato, no Rio.

No pedido de prisão entregue ao juiz federal Marcelo Breta, os procuradores da força-tarefa da Lava Jato, no Rio, destacam que Novis “já foi condenado à pena de 13 anos, 9 meses e 10 dias de reclusão, em regime fechado” por crimes financeiros.

 

ALVARO NOVIS

Reincidente. Novis havia sido preso temporariamente, em fevereiro de 2016, na 26ª fase do escândalo Petrobrás (Operação Xepa), por ordem do juiz federal Sérgio Moro, da 13ª Vara em Curitiba.

O operador foi apontado pelas duas primeiras delatoras da Odebrecht – que eliminaram as chances do ex-presidente Marcelo Odebrecht, se livrar da confissão -, as secretárias do Setor de Operações Estruturas Maria Lucia Tavares e Ângela Lacerda como principal fornecedor de dinheiro vivo no Rio e em São Paulo.

Novis é identificado nas planilhas do “departamento da propina” da Odebrecht como a conta “Paulistina” e “Carioquinha”. Anotações da secretária Maria Lúcia as contas à Hoya Corretora. Segundo os registros, a conta “Paulistinha” chegou a ter um saldo de R$ 65 milhões.

planilhaoperacaokibe

PLANILHA CARIOQUINHA

Os operadores estão entre os nomes citados no acordo de delação premiada da Odebrecht. Os executivos confessaram que esses “prestadores de serviços” eram responsáveis por gerar dinheiro vivo ou para dissimular a origem de transferências em contas secretas (em nome de offshores) fora do Brasil.

Investigadores da Lava Jato no Rio, aguardam homologação das 77 delações de executivos e ex-executivos da Odebrecht, em análise no Supremo Tribunal Federal (STF), para requerer os termos para uso no processo contra Cabral. Neles, haverá um capítulo para a corrupção nos contratos do Rio.

O codinome usado pela empreiteira para identificar o ex-governador seria “Próximus”. A ele há registros de propinas relacionados a obras de metro, entre outras.

Contatos. O principal contato de Novis com o esquema de Cabral era Carlos Miranda. Quebra de sigilo telefônico revelou que o assessor do ex-governador e principal responsável pela movimentação da propina a ser oculta falou 33 vezes por telefone com o doleiro.

Documentos da Lava Jato indicam que o doleiro também foi usado por Miranda para fornecer dólares e valores para seu filho, fora do Brasil.

telefones novis miranda

Juca. Principal alvo da Operação Eficiência, a operação de lavagem de US$ 16,5 milhões de Eike para Cabral, envolve outro operador de propinas da rede de lavagem montada pela Odebrecht. “Juca”, um operador de propina que moraria no Uruguai, foi apontada pelos irmãos Chaber – delatores de Cabral – como responsável pelo esquema de ocultação financeira.

Trata-se de outro operador usado pela Odebrecht, identificado como “Vinicius” e “Juca” pelas secretárias do Setor de Operações Estruturadas. Brasileiro residente em Montevidéu, no Uruguai, ele seria um dos que recebia repasses de Rodrigo Tacla Duran – preso na 36ª fase da Lava Jato, em novembro – com o objetivo de “fazer dinheiro” no Brasil.

juca chebar

Juca utilizarias as contas Meriwther Trading, Westside Consulting e Chama Leon no banco Mainl Bank, em Antigua Barbuda – que a Odebrecht comprou, em 2010, via executivos e ex-executivos.

Delatores. Toda essa rede de operadores de propinas ligada à Odebrecht é candidata à delatora da Lava Jato. Como o “departamento de propinas” guarda todo registro das operações financeiras, a força-tarefa espera que eles busquem um acordo de colaboração premiada.

Em três anos de Lava Jato, as delações de doleiros e operadores financeiros foram as mais produtivas para expandir as investigações. Elas levaram a outros esquemas de lavagem, por envolverem profissionais que atuam no mercado de câmbio negro, sem exclusividade de serviços.

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