Cabral diz que seus delatores disseram a verdade e que ‘participou da propina, sim’

Cabral diz que seus delatores disseram a verdade e que ‘participou da propina, sim’

Em depoimento nesta terça, 26, ao juiz Marcelo Bretas, da 7.ª Vara Federal, ex-governador do Rio manteve sua surpreendente estratégia de confessar ligação com esquema de corrupção em seus dois mandatos

Constança Rezende / RIO

26 de fevereiro de 2019 | 17h03

Sérgio Cabral deixa a Justiça Federal no centro do Rio, após prestar depoimento, em julho de 2017. FOTO: FABIO MOTTA / ESTADÃO

O ex-governador do Rio Sérgio Cabral (MDB) afirmou que o dinheiro que os doleiros Renato e Marcelo Chebar disseram ter lavado de propina era dele. “Participei da propina, sim. O dinheiro dos irmãos Chebar era meu dinheiro, sim”, declarou o emedebista em depoimento na tarde desta terça-feira, 26, ao juiz Marcelo Bretas, da 7.ª Vara Federal do Rio.

Cabral declarou que também são verdadeiras “99%” das declarações feitas à Justiça por Carlos Miranda, apontado como seu “homem da mala”.

Miranda revelou que fez várias operações de recebimento e distribuição de propina, em dinheiro vivo, por ordem do então governador.

O emedebista afirmou que o ex-governador Luiz Fernando Pezão (MDB), preso em novembro, também recebeu propina quando era seu vice e como seu Secretário de Obras. “Trouxe com ele o Hudson Braga, que era braço direito dele. E sim, também existia a taxa de oxigênio“, confessou, em depoimento à 7.ª Vara Federal Criminal nesta terça.

Segundo Cabral, houve um esquema de propina na primeira fase das obras no Maracanã, para os Jogos Panamericanos, quando o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) era seu secretário de Esportes e Lazer.

Cabral disse que Paes não recebeu propina, mas afirmou que arrecadou dinheiro para a campanha do ex-prefeito do Rio, por meio de caixa 2.

“Se não me falha a memória, Arthur Soares (conhecido como ‘Rei Arthur’, empresário e prestador de serviços para o Estado do Rio) deu, à campanha do Paes, de R$ 3 milhões a R$ 4 milhões e depois reclamou muito porque os serviços não foram dados a ele. Ele colaborou com a campanha e esperava receber contratos. Depois acabou ganhando (a obra) do Centro de Operações do Rio”, disse.

“São raríssimos os empresários que deram dinheiro para campanhas eleitorais e não esperavam contratos (públicos). Todos esperam retorno. No Brasil, isso é uma espécie de toma lá, da cá. Uma ética de compromisso, você me ajudou, eu vou te ajudar. Não tem nada formalizado, mas está implícito”, confessou.

Cabral disse que fez questão que o ex-secretário municipal e atual deputado federal Pedro Paulo (MDB) estivesse junto dele nessas negociações de caixa 2 da campanha de Eduardo Paes.

O ex-governador, porém, isentou de responsabilidade sua mulher, Adriana Ancelmo, por negociações criminosas feitas por meio do escritório de advocacia dela.

“Eu contaminei esse escritório quando pedi o repasse de caixa 2 para o dono da Rica. Ela não sabia de nada”, afirmou. “No meu governo, havia promiscuidade entre dinheiro da propina e de campanha”, acrescentou.

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