Cabral diz que repassou R$ 1,5 mi em propina para campanha de Aécio em 2014 e US$ 1,5 mi para Crivella apoiar Paes

Cabral diz que repassou R$ 1,5 mi em propina para campanha de Aécio em 2014 e US$ 1,5 mi para Crivella apoiar Paes

"Ele (Aécio) estava meio deprimido, para baixo, a Marina (Silva) tinha ultrapassado ele", afirmou ex-governador do Rio em depoimento ao juiz Marcelo Bretas nesta sexta, 5

Roberta Jansen e Fabio Grellet / RIO

05 de abril de 2019 | 18h40

O ex-governador do Rio Sérgio Cabral Filho (MDB) afirmou nesta sexta, 5, em depoimento que o prefeito Marcelo Crivella (PRB) recebeu US$ 1,5 milhão para apoiar a candidatura de Eduardo Paes (DEM) na eleição municipal de 2008. Naquele ano, Paes e Fernando Gabeira (PV) disputaram o segundo turno, vencido pelo candidato do DEM, então no PMDB. Ele também afirmou que a Fetranspor, entidade que representa empresas de transporte urbano, pagou propina à Assembleia Legislativa do Rio desde 1987, no governo Moreira Franco (MDB). Também disse ser sido ‘achacado’ por deputados e feito negociações com ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Tribunal de Contas da União (TCU). No caso dessas Cortes e no dos parlamentares, porém, não citou nomes.

Em depoimento ao juiz Marcelo Bretas, da 7.ª Vara Federal Criminal, o ex-governador disse que Paes sabia de toda a negociação e até participou de uma reunião realizada antes do pagamento. Segundo Cabral, o empresário Eike Batista desembolsou a quantia. Atualmente, Crivella é alvo de um pedido de impeachment, por suposta irregularidade na renovação de um contrato.

Sérgio Cabral está preso desde novembro de 2016. Atualmente, está no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, na zona oeste. É acusado de comandar um esquema de corrupção no Estado e já soma quase 200 anos de prisão em nove condenações. Ele foi interrogado a pedido da própria defesa como parte da ação penal da Operação Ponto Final, que investiga a propina paga por empresários do setor de transportes – na primeira oitiva da ação ele ficou em silêncio. Cabral admitiu que aproximadamente R$ 144 milhões foram pagos pela Fetranspor em propinas entre julho de 2010 e outubro de 2016.

Depois da eleição de Eduardo Paes à Prefeitura, o então senador Marcelo Crivella teria ido se queixar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva de, apesar de ter dado seu apoio, não ter sido aproveitado no governo.

“O senhor me desculpe, mas eu comprei o apoio do Crivella”, contou Cabral a Bretas sobre seu diálogo com o então presidente, no Palácio do Planalto.

Marcelo Crivella disputou a eleição de 2008 para a Prefeitura, mas terminou em terceiro lugar. No início da campanha para o segundo turno, entre Paes e Gabeira, segundo essa versão, Crivella procurou Cabral, no Palácio Laranjeiras, e contou ao então governador que o empresário Armínio Fraga havia lhe oferecido USS 1 milhão para apoiar a candidatura do Partido Verde.

Cabral decidiu então procurar o empresário Eike Batista. O acerto foi fechado durante um café da manhã na casa do empresário.

Crivella não foi o único político citado no depoimento de Cabral. O ex-governador contou também ao juiz Bretas como um valor de R$ 1,5 milhão oriundo do pagamento de propina pela Fetranspor teria ido parar na campanha presidencial de Aécio Neves, na eleição de 2014.

“Eu tenho uma relação muito afetiva com o senador Aécio Neves, que naquela época disputava a Presidência da República e passava por fase de muita dificuldade com Marina (Silva) em segundo lugar nas pesquisas. Ele estava muito deprimido, muito pra baixo”, disse Cabral, explicando por que resolveu ajuda-lo com o envio do dinheiro. “O Aécio não participou da reunião (em que o pagamento foi acertado), mas ele me ligou depois para agradecer.”

Cabral detalhou o esquema de corrupção na Assembleia Legislativa do Rio desde 1987. Essa ação atravessou o período em que o emedebista foi o presidente da Casa e, depois, chegou ao período em que já era governador do Estado.

Segundo Cabral, enquanto esteve à frente da presidência da Alerj, de 1995 a 2002, ele administrava a “caixinha” da Fetranspor na assembleia e recebia, mensalmente, R$ 300 mil. Outros R$ 400 mil eram usados para distribuir entre os deputados, de acordo com a ajuda dada por cada um para aprovar pautas de interesse da Fetranspor.

Em ocasiões especiais, como por exemplo, em 1997, durante concessão de linhas de ônibus, esse valor podia aumentar consideravelmente. Depois, como governador do Estado, ele recebia mensalmente dos empresários de ônibus R$ 400 mil. Apenas para a campanha de Luiz Fernando Pezão ao governo do estado foram R$ 30 milhões. Ele também admitiu pagamento para conselheiros do Tribunal de Contas do Estado.

O QUE DIZEM OS CITADOS POR SÉRGIO CABRAL

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), classificou a acusação feita por Sérgio Cabral (MDB) como “mais uma grande mentira plantada para tentar desestruturar a minha gestão e minhas convicções como homem público”. E completou: “Jamais conseguirão manchar a minha honra”. Crivella se manifestou por meio de um vídeo que postou no Facebook. “Isso é mentira. Eu não conheço o senhor Arminio Fraga, nunca estive com ele nem tampouco ele me ofereceu qualquer recurso, e a minha opção por Eduardo Paes se deu porque era o candidato que tinha afinidade com os evangélicos. Todos os evangélicos apoiaram Eduardo Paes em sua primeira candidatura (a prefeito do Rio)”.

O advogado de Eike Batista, Fernando Martins, afirmou em nota que o empresário “não é parte no processo e sempre desenvolveu suas atividades empresariais dentro do marco da legalidade”.

Por e-mail, o economista Arminio Fraga afirmou que se trata de “mentira”.

O Estado procurou o ex-prefeito Eduardo Paes, mas não obteve resposta até a conclusão desta edição.

O advogado Alberto Zacharias Toron, que representa o deputado Aécio Neves (PSDB-MG), afirmou que o parlamentar ‘desconhece qualquer pedido de apoio feito pelo ex-governador para a campanha presidencial do PSDB em 2014’. Afirmou ainda que ‘todas as doações realizadas àquela campanha estão devidamente declaradas e foram aprovadas pela Justiça Eleitoral’.

O ex-deputado estadual Jorge Picciani (MDB) afirmou, por meio do seu advogado, que só vai se manifestar depois de ter acesso formal à íntegra do depoimento de Cabral.

Em nota, a Fetranspor afirmou que “desde setembro de 2017 é presidida por um novo executivo, sem qualquer ligação com a gestão passada e com os fatos relacionados às investigações em andamento”, que “adotou uma política rígida de compliance e de governança” e que “vem cumprindo todas as determinações judiciais”.