‘Cabia a mim informar que havia um crédito’, diz publicitário sobre repasses a ex-vice-líder do PT

‘Cabia a mim informar que havia um crédito’, diz publicitário sobre repasses a ex-vice-líder do PT

Ricardo Hoffmann, ex-executivo da Borghi Lowe, admitiu repasses de R$ 1,1 milhão em bonificação de volumes para empresas fantasmas de André Vargas

Redação

12 de agosto de 2015 | 22h43

Ricardo Hoffmann. Foto: Reprodução

Ricardo Hoffmann. Foto: Reprodução

Por Ricardo Brandt, Julia Affonso e Mateus Coutinho

O publicitário Ricardo Hoffmann, ex-diretor da agência Borghi Lowe, confessou nesta quarta-feira, 12, à Justiça Federal no Paraná, base da Operação Lava Jato, que repassava créditos denominados bonificação de volume para duas empresas de fachada do ex-deputado André Vargas – ex-vice-líder do PT na Câmara -, a Limiar Assessoria e Consultoria em Comunicação e a LSI Solução.

Hoffmann e o ex-deputado petista são alvos da Operação ‘A Origem’, 11.ª fase da Lava Jato que mira contratos de publicidade com órgãos públicos. Os dois estão presos há quatro meses em Curitiba.

VEJA A ÍNTEGRA DO DEPOIMENTO DE RICARDO HOFFMAN À JUSTIÇA FEDERAL:

Os investigadores rastrearam 20 repasses de valores para a Limiar, entre 23 de junho de 2010 a 12 de setembro de 2011, que somaram R$ 403,14 mil, e 44 transferências para a LSI, entre fevereiro de 2011 e abril de 2014, somando R$ 700 mil.

Os depósitos foram feitos oficialmente a título de “doação eleitoral”, mas a Lava Jato descobriu que Vargas recebeu propinas no âmbito de contratos celebrados pela Borghi com órgãos públicos – Caixa Econômica Federal e Ministério da Saúde. A ação não aponta para o envolvimento de servidores dessas instituições.

André Vargas foi preso em abril. Foto: AlbariI Rosa/AGP

André Vargas foi preso em abril. Foto: AlbariI Rosa/AGP

Produtoras contratadas pela Borghi para a execução dos trabalhos apontaram Ricerdo Hoffmann como a pessoa que “indicava” os pagamentos do bônus de volume que lhes cabia contratualmente para a Limiar e a LSI, de André Vargas.

Na audiência desta quarta, 12, diante do juiz federal Sérgio Moro, que mandou prende-lo, Ricardo Hoffmann chorou.

Ele atribuiu a seus superiores na agência Borghi Lowe a determinação para repassar a bonificação de volume para as empresas do ex-deputado do PT. “Eu não tenho dúvida que fiz alguma coisa errada, mas a prática do BV é uma prática nesse mercado.”

O juiz Moro perguntou. “Mas pagar deputado federal também?”

“Eu acho que é prática errada agências fazerem. Eu não tinha ideia que estava cometendo um crime assim. Não obtive vantagem pessoal, eu não recebi dinheiro indevido, eu não lesei a agência, eu não lesei o cliente, eu executava função. Eu não tomei essas decisões (de transferir o bônus de volume para as empresas de André Vargas). Nenhuma dessas decisões foi minha e fui premiado com a minha demissão dia 6 de fevereiro (de 2015).”

Ele disse que “o início da conversa” com Vargas é que o dinheiro seria repassado em forma de doação eleitoral. “Levei (o pedido de Vargas) ao presidente e ao diretor executivo da Borghi. Eles decidiram fazer esses pagamentos a partir do BV. Não foi decisão minha, eu era subordinado. Estou estupefato com as afirmações dos meus superiores de que a decisão era minha.”

De quem foi a decisão?, indagou o juiz Moro

“José Borghi e Valdir Barbosa”, disse Hoffmann. “Tudo o que cabia a mim era tratar de informar, por mensagem ou por e-mail, que havia um crédito em tal lugar”, disse o publicitário, referindo-se a León Vargas, irmão do ex-deputado petista, que controlava o caixa da Limiar e da LSI.

Hoffmann afirmou ao juiz Moro que “pediu várias vezes” a seus superiores na agência para não cuidar mais daquela missão. “Eu pedi várias vezes, primeiro porque eu ficava sozinho nessa condução, segundo porque eu temia. Hoje eu vejo claramente. Com todo o respeito que eu tenho e eu devo à Justiça, é difícil me ver sozinho aqui, ver os acionistas, os empresários soltos, nem acusados foram. E eu aqui.” Ricardo Hoffmann chorou.

O juiz da Lava Jato sugeriu a ele que interrompesse o relato.

O réu serviu-se da água à mesa. “Várias vezes manifestei minha preocupação, meu desconforto de executar essa tarefa.”

A assessoria de imprensa da defesa de Ricardo Hoffmann afirmou que os advogados farão por escrito o pedido de sua liberdade ao juiz Sergio Moro. “A tentativa de acordo de colaboração está descartada.”

O criminalista Pierpaolo Bottini, que defende a Borghi Lowe, disse que a “a empresa vai apresentar sua versão dos fatos no momento oportuno”.

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