Notas sobre economia política

Notas sobre economia política

José Barroso Filho*

27 de junho de 2019 | 08h00

José Barroso Filho. FOTO: DIVULGAÇÃO

Temas como segurança e confiança devem ser considerados …previsibilidade do sistema jurídico e a sua clara implicação nas decisões de investimento e a volatilidade do capital.

Digo-lhes que abandonado o padrão ouro, o que circula é crédito, pois não há lastro para todos os títulos.

A circulação baseia-se na confiança e os investimentos produtivos buscam ambientes previsíveis e mercados interoperáveis em uma lógica de vasos comunicantes onde se consegue um dinâmico equilíbrio ante as pressões do ambiente externo.

Cabe ao Estado aperfeiçoar procedimentos, aprimorar rotinas, criando uma ambiência de desenvolvimento; deve incentivar a inovação temperada, com a assunção supervisionada de riscos (recordo quão dolorosas são as ‘bolhas’ econômicas para o tecido social).

Há de se cuidar do creditismo, sem lastro econômico e do rentismo, sem ética.

Do contrário… ficaremos reféns do risco, potencializado pelo grande mercado do tráfico de drogas financeiras ou as tendências artísticas daqueles que gostam de ‘pintar dinheiro’.

Atentemos…com os novos instrumentos financeiros, nós corremos o risco de garrotear o Futuro não tanto pelos empréstimos realizados pelos bancos mas, pela emissão de títulos.

No mesmo diapasão entrópico: se os governos apenas empregam recursos previamente apropriados do setor privado (via impostos e/ou endividamentos), os investimentos públicos significarão, tão somente, um desinvestimento privado.

E a construção de Futuro envolve aposta e risco.

Afora patologia da autoridade monetária (o esquizofrênico girar da manivela), a guisa de exemplo… vamos estabelecer uma unidade de circulação: cem patacas em um ambiente estável onde circulavam efetivamente cem reais e não um desesperado ‘passar de mãos’ inflacionário.

Permitam contar uma breve estória:

Numa cidade, os habitantes, endividados, estão vivendo à custa de crédito. Por sorte chega um estrangeiro e entra no único hotel.

O estrangeiro saca uma nota de P$100,00 (cem patacas), põe no balcão e pede para ver um quarto.

Enquanto o estrangeiro vê o quarto, o gerente do hotel sai correndo com a nota de P$100,00 e vai até o açougue pagar suas dívidas com o açougueiro.

O açougueiro, pega a nota e vai até um criador de suínos a quem deve e paga tudo.

O criador, por sua vez, pega também a nota e corre ao veterinário para liquidar sua dívida.

O veterinário, com a nota de P$100,00 em mãos, vai até à zona pagar o que devia a uma prostituta (em tempos de crise essa classe também trabalha a crédito).

A prostituta sai com o dinheiro em direção ao hotel, lugar onde levava seus clientes; e como ultimamente não havia pago pelas acomodações, paga a conta de P$100,00.

Nesse momento, o estrangeiro chega novamente ao balcão, pede sua nota de P$100,00 de volta, agradece e diz não ser o que esperava e sai do hotel e da cidade.

Ninguém ganhou um vintém, porém agora todos saldaram suas dívidas e começam a ver o futuro com confiança!

Nega-se, pois, a constatação desesperançada de Thomas Malthus a respeito de um sistema natural e de retornos decrescentes por uma visão de Joseph Schumpeter manifesto na disruptiva inovação, construção e desconstrução criativa que proporciona retornos crescentes.

A comprovada ineficiência das teorias e ideologias que preconizam a ‘soma zero’ – para que um ganhe o outro tem que perder – conduz ao importante cotejamento dos interesses complementadores, que podem ser determinantes para o sucesso ou o fracasso de uma estratégia de desenvolvimento.

Visitemos uma milenar reflexão de Confúcio:

‘Há três métodos para se adquirir sabedoria:

Primeiro, por reflexão, que é o mais nobre;

Segundo, por imitação, que é o mais fácil e

Terceiro, por experiencia, que é mais amargo’

Creio que estamos a descobrir um quarto método

A cooperação, que é o mais efetivo.

Nossas questões, em verdade, não tem solução, mas sim, condução.

É como o andar, uma sequência equilibrada de desequilíbrios…são dinâmicos ajustes de dosagem…são os nossos ‘cinquenta tons de cinza’ do desenvolvimento.

O tom do desenvolvimento será o da sinergia institucional.

Fundamental, mesmo e, sobretudo, na ‘tempestade’, que o navio esteja ‘calafetado’, tenha rumo porque tem comando e tenha comando porque tem rumo.

Saibamos o momento de ajustar as velas.

*José Barroso Filho, ministro do Superior Tribunal Militar, em manifestação à Suprema Corte da República Popular da China no National Judges College

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