Bumlai pediu apoio de Gabrielli para Operação Schahin, relata delator

Bumlai pediu apoio de Gabrielli para Operação Schahin, relata delator

Fernando Baiano, operador do PMDB na Petrobrás, disse que amigo do ex-presidente Lula recorreu ao então presidente da Petrobrás para contratação de empreiteira em negócio de R$ 1,6 bi

Julia Affonso, Andreza Matais, Ricardo Brandt, Mateus Coutinho e Fausto Macedo

24 Novembro 2015 | 13h22

José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobrás, alvo das investigações da Lava Jato. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

José Sérgio Gabrielli é ex-presidente da Petrobrás. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Em depoimento à força-tarefa da Operação Lava Jato, o lobista Fernando “Baiano” Soares revelou detalhes da suposta atuação do empresário e pecuarista José Carlos Bumlai para a contratação da Schahin pela Petrobrás, para operação do navio-sonda Vitoria 10.000. Fernando Baiano afirmou que Bumlai ‘intercedeu diretamente’, em 2006, junto ao então presidente da Petrobrás José Sérgio Gabrielli para contratação da Schahin. O pecuarista foi preso preventivamente nesta terça-feira, 24, na Operação Passe Livre, 21ª fase da Lava Jato.

Fernando Baiano é um dos delatores do esquema de corrupção e propinas instalado na Petrobrás entre 2004 e 2014. O lobista declarou em delação que conheceu Bumlai no final de 2006. O pecuarista o teria procurado para saber se poderia ajudá-lo ’em uma pendência que existia entre ele o grupo Schahin’.

De acordo com o lobista, desde o final de 2004, Bumlai tentava emplacar a contratação da Schahin pela Petrobrás, por causa de um empréstimo contraído pelo pecuarista junto ao banco, que teria por destino o pagamento de dívidas do PT. A Schahin seria a escolhida para operar o Vitoria 10.000, e, desta forma, saldar o débito.

Bumlai foi preso na 21ª fase da Lava Jato. Foto: André Dusek/Estadão

Bumlai foi preso na 21ª fase da Lava Jato. Foto: André Dusek/Estadão

Em sua delação premiada, o lobista deu detalhes da atuação de Bumlai para viabilizar o acerto da Schahin com a estatal. Fernando Baiano narrou que a contratação ocorreu com questionamentos da diretoria executiva, sobre a capacidade financeira do grupo, e citou influências políticas que levaram à contratação da Schahin.

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“Diante das dificuldades que enfrentaram para colocar a Schahin no negócio, o depoente sempre comentava com Bumlai que talvez precisasse do apoio político dele e que fosse conversado com Gabrielli, para que conversasse com os demais diretores; que nas duas primeiras vezes o depoente não chegou a cobrar de Bumlai quem seriam os interlocutores; na terceira vez, porém, o depoente pressionou Bumlai para que ele acionasse os contatos dele, em especial Gabrielli e o presidente Lula”, afirmou Fernando Baiano.

Segundo o lobista, Bumlai respondeu que o depoente poderia ficar tranquilo ‘pois iria acionar Gabrielli e o “Barba”, que era como Bumlai se referia ao presidente Lula’. “Bumlai disse ao depoente que, assim que tivessem feitos os contatos, iria avisá-lo para que a questão fosse colocada em pauta; que Bumlai posteriormente avisou o depoente que tudo estava certo e que poderia levar a questão à Diretoria Executiva, pois seria aprovada; que Bumlai não citou nomes, mas afirmou que tinha conversado com as “pessoas”; que nesta conversa, ao, contrário da anterior, Bumlai não mencionou quem seriam tais pessoas”, relatou Baiano.

Vitoria 10.000. A contratação da Schahin foi alvo de relatório de auditoria da Petrobrás, que contestou os fundamentos técnicos utilizados para escolher a empresa operadora do navio-sonda Vitoria 10.000.

“Ao indicar a Schahin para ser a operadora do Vitoria 10000, a INTER-DN mencionou o fato de a empresa ser a “detentora dos melhores índices operacionais nas operações de águas profundas na Bacia de Campos”. À época, a Schahin operava apenas um navio-sonda (NS-09), com bons índices operacionais”, informou o relatório da Petrobrás.

O documento da sindicância da estatal mencionou ainda a incapacidade econômica financeira da Schahin para honrar um contrato de tamanha magnitude. “A análise da estruturação financeira e societária dos navios-sonda Petrobrás 10000 e Vitoria 10000 indicou que inicialmente não era prevista a realização de Capital Lease Contract (CLC), e, ainda, que a escolha da Schahin como parceira foi discricionária. Ao longo do tempo, a Schahin deixou de honrar os pagamentos do leasing, vindo a solicitar e receber bônus por performance antecipadamente no contrato de serviços de perfuração para liquidar suas obrigações perante à Drill Ship Investments BV (DSI BV).”

COM A PALAVRA, JOSÉ SÉRGIO GABRIELLI

“Mais uma vez é o disse que me disse de delatores corruptos confessos. O delator diz que ouviu de outro que falaria (note o condicional !) comigo sobre as sondas. Minha posição já foi expressa em depoimento ao Juiz Sergio Moro, em que afirmei que as contratações eram necessárias para o desenvolvimento dos programas exploratórios no Exterior e que as negociações demoraram longos meses porque precisavam estar de acordo com os procedimentos e parâmetros da Petrobras. Repudio qualquer favorecimento à Schahin em contrato com a Petrobras. Se alguém se aproveitou para se apropriar indevidamente de recursos que pague, frente a Polícia e a Justiça.”

COM A PALAVRA, A DEFESA DE JOSÉ CARLOS BUMLAI

A defesa do pecuarista disse que desconhece a prisão de Bumlai. O criminalista Arnaldo Malheiros Filho, advogado do amigo de Lula, disse que Bumlai está em Brasília para depor na CPI. Malheiros disse que não foi informado sobre os motivos da prisão.