Bumlai diz à Justiça que delação de Delcídio ‘é uma farsa’

Bumlai diz à Justiça que delação de Delcídio ‘é uma farsa’

Em resposta à acusação no processo em que é réu com Lula, por obstrução da Justiça, pecuarista pede absolvição sumária e afirma que não tramou contra a Lava Jato

Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Julia Affonso

09 de setembro de 2016 | 05h15

Bumlai foi interrogado por Moro em maio deste ano. Foto: Reprodução

Bumlai foi interrogado por Moro em maio deste ano. Foto: Reprodução

Réu por crime de obstrução à Justiça ao lado de seu amigo, o ex-presidente Lula, em ação penal na 10.ª Vara Federal em Brasília, o pecuarista José Carlos Bumlai apresentou resposta à acusação, na qual pede absolvição sumária e afirma que não tramou contra a Operação Lava Jato.

São 39 páginas, por meio das quais seus defensores buscam fulminar a denúncia da Procuradoria da República e a delação do ex-senador petista Delcídio Amaral, que também é réu no processo.

“A delação premiada que deu origem à ação penal contra José Carlos Bumlai é uma farsa a olhos vistos”, afirmam os advogados do pecuarista. “Afinal, não são necessários grandes esforços para compreender os bastidores e os motivos da perniciosa armação articulada contra Bumlai e seu filho Maurício visando, em verdade, à derrocada de ‘uma das mais expressivas figuras políticas da História do Brasi’.”

Bumlai foi preso na Operação Passe Livre – desdobramento da Lava Jato – em 24 de novembro de 2015, por ordem do juiz federal Sérgio Moro. Neste caso, o amigo de Lula é acusado no emblemático empréstimo de R$ 12 milhões tomado junto ao Banco Schahin, em 2004, dinheiro destinado ao PT.

Delcídio foi preso em flagrante um dia depois, por ordem do Supremo Tribunal Federal, sob acusação de tramar contra a Lava Jato. Ele estaria disposto a comprar o silêncio do ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró. Este caso resultou em denúncia contra Delcídio, Bumlai e Lula, por suposta obstrução da Justiça – o ex-presidente também teria participado do plano para emperrar a maior investigação já realizada no País contra a corrupção, o que é negado enfaticamente pelo petista.

Para se livrar da prisão, Delcídio fez delação premiada. Seu relato é a peça crucial na denúncia contra Bumlai e Lula perante a 10.ª Vara Federal em Brasília.

Para os advogados de Bumlai, no entanto, a delação do ex-senador não tem consistência. “Preso, desmoralizado e abandonado pelo próprio partido5, o senador então iniciou as tratativas para sua delação premiada.”

A defesa do pecuarista é subscrita pelos advogados Daniella Meggiolaro, Arthur Sodré Prado, Conrado de Almeida Prado e Fernando Bertolino Storto.

Eles alegam que Delcídio ‘tinha ciúme’ da amizade entre Lula e Bumlai, que mantinha ‘uma relação conflituosa’ com o então senador.

“É absolutamente inconcebível que um senador da República conspire contra a Justiça a fim de esconder seu envolvimento em fatos criminosos. Mais grave ainda é que, depois de preso, esse mesmo congressista convenientemente invente uma nova versão para os fatos dos quais participou, oferecendo-a ao Ministério Público Federal em troca de sua liberdade”, atacam os advogados de Bumlai.

“Pior, porém, é o Ministério Público Federal, a quem a Constituição incumbe o dever de promover a Justiça, comprar a fantasiosa narrativa, reproduzida na inicial acusatória como se verdadeira fosse, desamparada de mínimo suporte probatório e munida de diversas contradições e inconsistências”, segue a resposta à acusação.

Os defensores de Bumlai cravam que o objetivo da Lava Jato é incriminar Lula. “Com o claro intuito de responsabilizar criminalmente aquele que acreditam ser o chefe do esquema criminoso instalado na maior estatal brasileira, o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, foi oferecida uma denúncia sem nenhum propósito contra Bumlai e seu filho, num vale tudo sem precedentes! Afinal, vale colocar em liberdade um senador preso em flagrante
delito; vale comprar uma nova versão proposta por ele; vale até oferecer denúncia sem nenhuma prova de suas imputações.”

A defesa pede absolvição sumária de Bumlai, mas se a Justiça mandar prosseguir o processo seus defensores pedem o depoimento de cinco testemunhas, entre elas o ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró.

No capítulo final da resposta à acusação, os advogados transcrevem frase do ministro Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal Federal.

“O ajuizamento da ação penal supõe a existência de justa causa, que se tem por inocorrente quando o comportamento atribuído ao réu ‘nem mesmo em tese constitui crime, ou quando, configurando uma infração penal, resulta de pura criação mental da acusação'”

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