Bruno Covas e o desafio de ir ao médico sem sentir dor

Bruno Covas e o desafio de ir ao médico sem sentir dor

Luiz Antonio do Nascimento*

17 de maio de 2021 | 15h20

Luiz Antonio do Nascimento. FOTO: DIVULGAÇÃO

Bruno Covas faleceu no domingo, após lutar contra um câncer por dois anos. Sua partida causa grande comoção, até em razão de sua pouca idade – 41 anos. Ao mesmo tempo, pelo olhar da Medicina, a morte precoce e dolorida do político faz um alerta: a importância das consultas de rotina, dos exames preventivos e do check-up, seja na rede pública, seja na seara privada.

O prefeito de São Paulo descobriu que estava com câncer quando foi ao médico tratar de uma erisipela (infecção na pele). Na época, exames identificaram também a presença de uma trombose venosa – coágulo formado por força de congestionamento no tráfego de sangue nas veias e que causa dores nas pernas e até embolia pulmonar. A investigação clínica infelizmente chegou mais tarde ao câncer.

Aos 39 anos e no auge de sua carreira, Bruno Covas foi diagnosticado com um tumor na região da cárdia, entre o estômago e o esôfago, já em metástase (formação de novas lesões cancerígenas em outras regiões do organismo). Ou seja, quando o prefeito da maior metrópole da América Latina descobriu a doença – “sem querer”, por causa de um problema em sua pele -, ela já estava em estágio bem avançado.

O câncer, assim como a aterosclerose (acúmulo de placas de gorduras, de colesterol e de outras substâncias nas paredes das artérias), que pode, inclusive, causar infarto e derrame, é silencioso. Por isso, a necessidade de se passar sempre no médico e de se submeter a exames periódicos. Por vezes, num check-up é possível identificar enfermidades em tempo de se adotar tratamento adequado e eficiente. A pergunta: será que os sistemas público e privado estão em condições de acolher essa demanda, sobretudo em tempos de pandemia, já que os esforços, há mais de um ano, seguem concentrados em tratar pacientes de Covid-19?

Aliás, é bem possível que a trombose e a erisipela de Bruno Covas não fossem só uma coincidência. O câncer, via de regra, libera substâncias inflamatórias, que, na circulação, favorecem o aparecimento de coágulos. E, em determinadas situações, a trombose venosa gera acúmulo de líquidos embaixo da pele – edema que dificulta o controle de bactérias e que pode causar infeções, como a erisipela, por exemplo.

No momento em que o político procurou por ajuda médica, é possível, então, que o câncer já estivesse se manifestando. No último mês, o tumor alcançou o fígado e os ossos da bacia. O desfecho, vimos neste domingo, com direito a um agravamento irreversível na última 6ª feira.

O câncer, o Acidente Vascular Cerebral (AVC), o infarto, o diabetes, a insuficiência cardíaca, entre outras doenças, abreviam histórias. Portanto, não devemos somente temer a Covid-19. Que nos sirva de reflexão, para a sociedade, para a classe médica, para os gestores públicos. A prevenção salva vidas.

*Luiz Antonio do Nascimento, graduado em Medicina, pela Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia (Emescam) de Vitória-ES; especialista em Geriatria, pelo Hospital Municipal do Servidor Público de São Paulo; especialista em Clínica Médica, pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica; especialista em Nutrologia, pela Ganep, maior instituição especializada em Terapia Médico-Nutricional do Brasil; e membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoBruno Covas

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.