Brumadinho e a revelação dos ‘verdadeiros’ culpados

Brumadinho e a revelação dos ‘verdadeiros’ culpados

Lucas Tatibano*

10 de março de 2019 | 09h00

Lucas Tatibano. FOTO: HELOÍSA YAMASHIRO

Como sempre diz o velho sábio, o tempo cura todas as feridas, e somente o tempo, por mais longo que seja, nos faz esquecer os momentos difíceis que passamos em nossas vidas, possibilitando que sigamos em frente, rotineiramente. Esse ensinamento é válido para todo o planeta terra, porém ocorre no Brasil o seu ápice, principalmente quando tratamos de crimes ambientais e de tragédias causadas por omissão de “gente graúda”, nos quais o tempo, paulatinamente, apaga a nossa memória e permita que a impunidade infelizmente prevaleça.

O recente crime cometido em Brumadinho – MG, onde o rompimento da barragem da Vale derramou um mar de lama tóxica sobre tudo o que existia a sua frente, se apresenta como o mais novo exemplo desse grupo da impunidade nacional, quando é realizada uma extensa investigação que permite conhecer todos os reais culpados, todavia ao final do processo, as punições são brandas, ou mesmo inexistentes.

Os eventos que ocorreram após o rompimento da barragem de Brumadinho – MG facilitam a compreensão dos fatores determinantes à consumação dessa tragédia, destacando-se primeiramente as diversas evacuações de vilarejos e povoados assentados na área de influência de algumas barragens de rejeitos tidas como críticas, quase todas na região envoltória da cidade de Belo Horizonte.

Essas barragens condenadas possuem similaridades quanto ao método construtivo (à montante), bem como são análogas com relação ao período da desativação, uma vez que já se encontravam no limite da capacidade operacional, ocorrido entre os anos de 2013 a 2016. Com a desativação da operação das barragens, ao longo do tempo, evidentemente transcorreu um afrouxamento da fiscalização, seja das empresas responsáveis como também dos órgãos e entidades reguladoras.

O afrouxamento da fiscalização foi substancial para possibilitar que parte dos piezômetros instalados na barragem de Brumadinho – MG, os quais responsáveis pela leitura da pressão interna do maciço (diques da barragem) e essenciais para o sobreaviso da ocorrência da ruptura, se apresentassem com mau funcionamento, segundo dados dos laudos técnicos conhecidos até o momento.

As evacuações recentes das áreas afetadas pelas barragens similares, outrossim, nos permitem perceber que se a instrumentação e o controle da barragem de Brumadinho – MG estivessem em perfeito estado, e se não houvesse a omissão dos responsáveis, a área afetada poderia ter sido esvaziada em tempo para resguardar, no mínimo, as vidas humanas perdidas.

Contextualmente aos eventos divulgados, torna-se de extrema importância destacar que a primeira empresa contratada para a emissão dos laudos indicou a insegurança da barragem, sendo essa empresa imediatamente substituída por uma segunda, claramente submissa, a qual rapidamente atestou a segurança da estrutura existente, por evidente pressão dos diretores e gerentes envolvidos.

Apesar do recente afastamento, sobretudo por pressão política, do diretor-presidente e de alguns dos principais diretores executivos da VALE, não podemos aceitar passivamente a simples aplicação de multas e pequenas sanções operacionais à empresa. Temos a missão de evitar que o tempo apague da nossa memória esse terrível crime, sendo de suma importância a pressão da sociedade e da imprensa para que, dessa vez, os culpados sejam efetivamente penalizados, independentemente da posição social.

*Lucas Tatibano é arquiteto e sócio-diretor da Tequipe Engenharia Inteligente

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