Brumadinho: a soma de fatores que pode ter determinado a tragédia

Brumadinho: a soma de fatores que pode ter determinado a tragédia

Lucas Tatibano*

07 Fevereiro 2019 | 05h00

Lucas Tatibano. FOTO: HELOÍSA YAMASHIRO

Há pouco mais de uma semana, assistimos ao crime de Brumadinho (MG), onde um conjunto de decisões mau conduzidas, somadas a inúmeras posições de omissão, pôs abaixo uma estrutura com mais de 11.000.000 de m³ de rejeitos, ceifando a vida de centenas de pessoas e deixando um rastro de destruição no meio ambiental.

Devemos levar em conta quando analisamos o rompimento, que uma barragem não vem abaixo repentinamente e a ruptura acontece, quase sempre, por uma soma de fatores.

O fato da barragem ter sido elevada pelo método a montante, o qual há muito tempo está proibido em países vizinhos, colaborou para a ruptura, pois esse método utiliza como fundação o próprio rejeito já sedimentado, e não uma camada rígida e confiável de filtragem que pertence ao outro método mais seguro, o alteamento a jusante.

O rejeito já sedimentado, mesmo em barragens inativas como essa rompida, pode voltar a se movimentar, através de um processo conhecido como liquefação. Esse processo é acionado por um gatilho, que assim chamamos um impacto ou trepidação que ocorra na região próxima da barragem, podendo ser um conjunto de explosões, comuns para a escavação do minério, trepidações originadas por circulação de máquinas e equipamentos pesados, pequenos abalos sísmicos ou também a execução de obras na barragem, principalmente na realização de novos alteamentos.

Quando ocorre o gatilho, em algum ponto no interior dessa piscina de rejeitos, começa um fluxo de recirculação do material antes sedimentado, o qual novamente é misturado a água. Esse processo torna-se negativo quando encontra uma camada superior com material sedimentado impermeável, formando uma placa de bloqueio que não pode ser transposta pelos materiais em liquefação.

Ao bater continuadamente nessa placa impermeável, o material em liquefação começa a sedimentar novamente, podendo ocasionar vazios. Estudos recentes têm relacionado que a maior parte das barragens de rejeito rompidas estavam em avançado processo de liquefação.

Com os dados que temos até o momento, verificamos que as estruturas de drenagem superficial da barragem e o sistema extravasor poderiam não estar em perfeito estado, gerando assim o galgamento do maciço, que ocorre quando a água excedente escorre por locais fora do fluxo projetado, vazando sobre os diques, causando erosão e principalmente danos potenciais a drenagem de proteção no pé da barragem.

Somando-se a esses fatores, é grande a probabilidade de uma falência do sistema de drenagem interna dos diques, o que provavelmente levou o maciço da barragem ao seu estado mais sensível, no contexto estrutural.

Após recebermos as imagens em câmera frontal do momento da ruptura, temos uma indicação de que a placa impermeável no interior da piscina de lama se moveu para baixo, devido ao excesso de vazios, e isso alterou de forma rápida e significativa a linha freática, pressionando abruptamente a face interna do dique, que já se encontrava frágil.

Como se aplicássemos uma tábua sobre um bolo de chantili, essa massa em liquefação empurrou o dique a partir da sua base, e ao mesmo tempo trouxe abaixo todos os diques superiores, construídos a montante, que utilizavam essa lama como fundação.

Toda essa pressão não ocorreu de imediato, e é bem provável que, se os instrumentos medidores da pressão no interior dos diques, ou mesmo os medidores de umidade estivessem em perfeito estado, o alarme soaria e a região poderia ser evacuada com o tempo mínimo necessário para evitar as mortes. Com tudo isso posto, creio que não estejamos longe de conhecer os verdadeiros responsáveis por esse crime.

* Lucas Tatibano é arquiteto e sócio-diretor da Tequipe Engenharia Inteligente