Brasphobia: escolha ou consequência

Marcos Cerutti e Aloysio Vasconcellos*

02 de novembro de 2021 | 06h30

Apesar de chocante e de certa forma incompreensível para muitos, não é raro vermos entre os brasileiros que vivem no exterior um sentimento de aversão à sua terra mãe. A “Brasphobia”, termo rotulado academicamente desde 2003, que ganhou notoriedade pelo trabalho da escritora Maxime Margolis no capítulo final de seu livro, Becoming Brazuca, publicado por Harvard, é um fenômeno muito mais comum do que imaginamos e que tem consequências profundas não só sociais, mas principalmente econômicas, tanto para os imigrantes mas também e principalmente para o Brasil.

Em um artigo denominado “Modi dá Lição em Bolsonaro” publicado pela revista Piauí, o professor de Relações Internacionais da FGV-SP Oliver Stuenkel chama atenção o quão positivo foi o engajamento da comunidade indiana nos EUA na obtenção de insumos prioritários para produção de Vacinas contra a COVID-19. Apesar de algumas confusões conceituais, a discussão se faz bastante pertinente não em apontar responsáveis, mas sim em buscar os motivos deste distanciamento da diáspora brasileira de sua terra mãe e possíveis soluções para a questão.

Seria o distanciamento observado nos “ex-brasileiros”, como são muitas das vezes conhecidos, uma escolha ou consequência dos motivos e modelo imigratório no qual muitos deles enfrentaram. Para entender melhor essa situação precisamos voltar um pouco e analisar a imigração brasileira no EUA nos últimos 30 anos. Aproximadamente 450.000 imigrantes brasileiros residiam nos Estados Unidos em 2017, apesar das estimativas do Itamaraty que apontam quase 1.2MM, um aumento de um terço em um período de sete anos marcado por condições difíceis no Brasil, incluindo uma recessão acompanhada de alto desemprego e inflação. Os dados são do US Census Bureau 2010 e 2017 American Community Surveys (ACS); Campbell J.Gibson e Emily Lennon, “Estatísticas do Censo Histórico sobre a População Estrangeira dos Estados Unidos: 1850-2000” (Working Paper no. 81, US Census Bureau, Washington, DC, fevereiro de 2006), disponível online.

Quase a totalidade destes imigrantes brasileiros nos Estados Unidos citam razões econômicas para abandonar seus lares e emigrar para os EUA. Os “refugiados econômicos”, como academicamente são conhecidos, passou a descrever essa leva de imigrantes que vieram para os Estados Unidos em busca de salários mais altos, um custo de vida mais baixo e o desejo de escapar da instabilidade econômica que assola o Brasil. Apesar da situação ter melhorado desde 1994, quando a inflação arrefeceu e as condições econômicas se estabilizaram, os brasileiros, principalmente os de classe média experimentaram um início de milênio bastante duro, com uma perda média de um terço do poder de compra de seus salários, resultado de políticas populistas que sobrecarregam o custo de vida da base produtiva nacional.

Como consequência, observamos uma mudança drástica no padrão migratório brasileiro. Derivamos de uma migração de classes mais baixas, fruto da miséria, para uma migração mais qualificada, no qual é alimentada pela esperança de uma classe média, muita das vezes preparada e escolarizada, sem oportunidades em um mercado de trabalho brasileiro enxuto, que se dispõe a ganhar menos, mas que tem em território americano não só o senso de justiça tributária que perdeu na sua terra natal mas a esperança de ser rapidamente absorvido por um mercado de trabalho próspero.

As mudanças na lei de imigração dos Estados Unidos que dificultaram a obtenção de vistos de turista para os brasileiros – um método comum de entrada que frequentemente resultava em estada prolongada para trabalhar ilegalmente nos Estados Unidos – acelerou esta mudança qualitativa no fluxo migratório. A Lei de Reforma da Imigração Ilegal e Responsabilidade do Imigrante de 1996 tornou mais difícil entrar legalmente no EUA se um indivíduo já tenha vivido no país sem autorização. Essas mudanças legislativas resultaram em um aumento de brasileiros entrando ilegalmente nos Estados Unidos através da fronteira EUA-México. As apreensões de brasileiros na fronteira aumentaram de 88 no ano fiscal (ano fiscal) de 1992 para mais de 32.000 no ano fiscal de 2005.

Estas restrições, da mesma forma que experenciou o número de ilegais, gerou por consequência, um imigrante muito mais qualificado quando legal. As barreiras de entrada transcenderam as considerações econômicas para obtenção dos vistos, incorporando as condições sociais deste peticionário, que precisará de níveis mais altos a fim de preencher as qualificações dos parâmetros, cada vez mais restritos, do departamento de imigração americano.

Como consequência, as estratégias migratórias desses novos imigrantes brasileiros se alteraram, que pelas circunstâncias impostas chegam na sua maioria com planos de mais longo prazo, com mínimo de três a cinco anos estudando, trabalhando e acumulando economias significativas para que possam ser usadas na compra de um imóvel e ou um negócio. Essa melhoria na qualificação do imigrante, se confirma não apenas na retórica acadêmica mas em dados que mostram o quão rápido está melhorando a qualificação desta diáspora brasileira em território americano. De acordo com o ACS de 2017, aproximadamente 58% dos imigrantes brasileiros nos Estados Unidos relataram falar inglês muito bem ou falar apenas inglês em casa. Os 425% restantes tinham proficiência limitada em inglês, falando menos do que “muito bem”.

Os imigrantes brasileiros eram, em média, menos propensos a ter proficiência limitada em inglês (LEP) do que a população estrangeira em geral (48 por cento). Além da melhoria da qualificação técnica, percebemos uma melhoria na qualificação etária deste imigrante. Os brasileiros são, em média, mais jovens do que a população imigrante geral dos Estados Unidos e um pouco mais velha do que a população nascida nos Estados Unidos. A idade média dos brasileiros em 2017 era de 39 anos, em comparação com 45 para todos os estrangeiros e 36 para os nativos. Oitenta e sete por cento dos brasileiros eram adultos em idade produtiva (18 a 64 anos) em 2017, refletindo a motivação econômica de muitos em vir para os Estados Unidos.

Em média, os imigrantes brasileiros são mais educados do que os imigrantes em geral e a população nativa. Em 2017, 42% dos imigrantes brasileiros (com 25 anos ou mais) tinham pelo menos um diploma universitário de quatro anos, em comparação com 31% de todos os imigrantes e 32% dos adultos nascidos nos Estados Unidos. Apenas 11% dos imigrantes brasileiros tinham menos de diploma do ensino médio, em comparação com 28% de todos os adultos nascidos no exterior e 9% dos adultos nativos.

Em 2017, os imigrantes do Brasil participaram da força de trabalho com taxas mais altas do que a população total de imigrantes e nativos. Setenta e três por cento dos brasileiros estavam na força de trabalho civil, e a maioria trabalhava em administração, negócios, ciência e ocupações relacionadas às artes, em taxas mais altas do que a população imigrante em geral. Os imigrantes brasileiros também são empregados em ocupações de serviço a taxas mais altas do que tanto os imigrantes em geral quanto os trabalhadores nativos, e são menos propensos a serem empregados na produção, transporte e ocupações de movimentação de materiais. Não é raro, entretanto, vários deles formatarem seu plano com intuito de voltar ao seu país, mas dessa vez com capital para investir no Brasil se qualificando para uma classe diferente da que saíram.

Cientistas sociais que estudam os padrões de migração, no entanto, notaram que muitos brasileiros viajam frequentemente de um lado para o outro entre os dois países, seja por questões imigratórias seja por questões econômicas. Este fenômeno é conhecido como “migração ioiô”. Descreve o fato de que os brasileiros encontram oportunidades econômicas nos Estados Unidos, mas têm dificuldade para romper seus laços com o Brasil. Um estudo de 1999 descobriu que apenas um terço dos brasileiros que moravam em Nova York pretendia permanecer nos Estados Unidos, um quinto estava indeciso sobre seu futuro e o restante planejava voltar para casa. Apesar da forte ligação emocional com os cheiros da terra, a maioria deles carrega uma mágoa extrema quando questionados sobre seu país natal, fruto do motivo que os obrigou a deixarem seus lares, marcados principalmente pela falta de oportunidades e a sobrecarga que foram obrigados a carregar para suportar as políticas sociais mais agressivas impostas no país desde a redemocratização.

Esse contexto formata e justifica a condição deste brasileiro no seu engajamento social com as questões brasileiras, não sendo assim causa e efeito imediato as políticas públicas atuais como motivadoras diretas de apoio ou não da diáspora às questões nacionais. Muitos destes imigrantes estão focados em construir uma nova vida, deixando o Brasil e suas mágoas para trás. Para a maioria, se preocupar com as questões internas brasileiras é um luxo que hoje não possuem, pois estão focados na construção de seu plano de vida.

Acrescenta-se a este cenário o fato no qual muitos destes brasileiros já estão na segunda ou terceira geração das primeiras ondas migratórias oriundas dos anos 1980. Os jovens de segunda geração (nascidos nos Estados Unidos) podem compartilhar a língua e os costumes da origem de seus pais, entretanto, sua referência não se baseia na experiência pessoal do Brasil, trazendo natural distanciamento à cultura particular brasileira.

Concluo afirmando que as questões que giram em torno da diáspora brasileira no exterior são extremamente complexas para conclusões rasas e ou precipitadas, apontando culpados e ou responsáveis sobre o quanto de capital monetário e intelectual pode estar se dissipando nesta falta de engajamento comunitário. Fica claro, entretanto que existe um enorme potencial a ser explorado e que sem dúvida, pode e deve beneficiar direta e indiretamente não só a diáspora brasileira, mas e principalmente o país que os recolheu assim como seu país de origem, que terá em seus filhos expatriados ponto de apoio para integrações e interações políticas, econômicas e sociais. Faz-se portanto das comunidades brasileiras no exterior, especialmente do sul da Flórida e New England, plataformas naturais de integração brasileiras no exterior, potencialmente aptas a desenvolver negócios, atrair investimentos e prover mão de obra qualificada, bilíngue, aos dois lados da equação. Tudo baseado, principalmente, na alta concentração de conhecimentos e visão internacional tanto dos brasileiros nascidos no exterior quanto dos imigrantes de alta qualificação. Um ‘need fit’ natural, de grandes possibilidades.

*Marcos Cerutti, economista com especialização em Neuroeconomics pela High School of Economics e Choice Architecture pela Wharton School

*Aloysio Vasconcellos, presidente da Brazil International Foundation. É Membro da Ordem dos Advogados Latino Americanos, Washington, D.C., USA e da Ordem dos Advogados do Brasil

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