Brasileiros impedidos de sair do Peru relatam ação de Exército no aeroporto e falta de apoio do governo brasileiro

Brasileiros impedidos de sair do Peru relatam ação de Exército no aeroporto e falta de apoio do governo brasileiro

Grupos em Lima, Cuzco e demais cidades do país vizinho informam dificuldades após o presidente Martín Vizcarra determinar quarentena e fechar as fronteiras por conta do coronavírus; Itamaraty diz ter ciência da situação

Paulo Roberto Netto

16 de março de 2020 | 19h50

Dezenas de brasileiros impedidos de deixar o Peru relatam ação do Exército peruano contra cidadãos brasileiros no Aeroporto Internacional Jorge Chávez, em Lima, e falta de suporte do Itamaraty após o governo Martín Viszarra decretar quarentena e o fechamento de fronteiras do país no domingo, 15, após o avanço do novo coronavírus.

O grupo de mais de 60 turistas se encontra, em sua maioria, em Lima e Cuzco, mas há também brasileiros em Chicama, no Norte do Peru.

A falta de apoio foi vista pelo administrador de empresas Éderson Oliveira, 33 anos, de Salvador. Ele afirma que chegou ao aeroporto pela manhã para remarcar para hoje seu retorno ao Brasil. A viagem inicialmente estava programada para o dia 24. Segundo ele, no início da tarde o exército peruano entrou no terminal solicitando a saída de todos os passageiros sem bilhetes marcados para esta segunda, 16.

“O Exército entrou no aeroporto e mandou que todos saíssem, todos que não tivessem passagem para hoje. O pessoal da companhia aérea fechou o guichê, não deu qualquer suporte”, afirma Oliveira, que seguiu para a embaixada brasileira em Lima, no bairro turístico de Miraflores. “Não conseguimos falar com nenhum representante e não houve nenhum tipo de apoio. Não pegaram nosso telefone e nem perguntaram se queríamos uma água, se precisávamos de algum tipo de apoio”.

“Deixaram nós, cidadãos brasileiros, a mercê da situação e a gente não sabe o que fazer”, afirma.

Soldado peruano fiscaliza ruas após decreto presidencial determinar quarentena obrigatória em Lima. Foto: Sebastian Castaneda / Reuters

A quarentena obrigatória e o fechamento das fronteiras no Peru foram decretadas no domingo, 15, após o país registrar 28 novos casos de infecção pelo novo coronavírus em apenas um dia. A determinação é válida até o dia 30 de março. Ao todo, 71 casos confirmados da doença foram registrados no país vizinho.

A medida permite às Forças Armadas e à polícia atuar para manter a ordem pública e impedir a aglomeração de pessoas ruas. Apenas farmácias, bancos e mercados de alimentos permanecerão abertos.

De acordo com o governo peruano, as Forças Armadas e a polícia ajudarão a manter a ordem pública, impedindo aglomeração de pessoas. Apenas farmácias, bancos e mercados de alimentos e produtos essenciais estarão abertos. Empresas áreas afirmam que enfrentam dificuldades em entrar e sair do País desde que o decreto presidencial entrou em vigor.

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Procurado, o Itamaraty respondeu à reportagem que a embaixada brasileira em Lima ‘está ciente da situação’ envolvendo a quarentena e ‘em contato frequente com todos os cidadãos brasileiros’. Segundo a pasta, há 3770 turistas impedidos de deixar o Peru.

“A Embaixada do Brasil em Lima continua fazendo gestões junto ao governo peruano e empresas de transporte para, na medida do possível, tentar apoiar o retorno dos turistas”, afirma o Itamaraty, em nota.

A mensagem, no entanto, é rebatida por outros brasileiros presos no Peru. O bancário Leandro Quintela, 34, do Rio de Janeiro, afirma ter ido pessoalmente ao consulado brasileiro em Lima acompanhado da esposa, mas apesar de ter conseguido falar com funcionários no local, não tiveram resposta sobre a situação dos turistas.

“As informações que foram passadas eram aquelas que já tínhamos: estava fechado, não tinha previsão de reabrir. A funcionária, no entanto, não sabia informar qual a postura do consulado e nem a do governo, apenas que estavam sendo realizadas reuniões e que não poderia dar nenhuma previsão de quando sairia esse posicionamento”, relata Quintela.

“Tem turista que o voo já foi cancelado, muitos estão sem onde ficar. Não sabemos se teremos dinheiro para pagar outro hotel ou não”, afirma o inspetor de elétrica Daniel Mattos, 39, que mora no Rio. “Está complicado”.

A recepcionista Gisele Silveira, 32, também do Rio, relata que planejava ficar no País até a próxima sexta, 20. Transplantada renal há quatro anos, ela alega que realiza tratamento com imunossupressores e tem medo de ter a saúde prejudicada pelo fechamento das fronteiras. “Estou em pânico pois não sei o que vou fazer se meus medicamentos acabarem”, afirma.

COM A PALAVRA, O ITAMARATY
“Informamos que a Embaixada do Brasil em Lima está ciente da situação e em contato frequente com todos os cidadãos brasileiros que a procuraram reportando eventuais dificuldades de deslocamento, buscando repassar-lhes informações relativas a limitação de movimentação. A Embaixada do Brasil em Lima continua fazendo gestões junto ao governo peruano e empresas de transporte para, na medida do possível, tentar apoiar o retorno dos turistas.

De acordo com o serviço de migrações do governo peruano, há hoje 3.770 turistas brasileiros naquele país. Lembramos que, desde ontem, está em vigor no Peru estado de emergência e também uma quarentena determinada pelo governo.

Tendo em vista tratar-se de uma crise global, recomenda-se ao cidadão brasileiro obedecer estritamente as orientações das autoridades do país onde se encontram.

As embaixada e/ou consulados responsáveis seguem à disposição dos cidadãos brasileiros que necessitem e procurarão prestar toda a assistência consular possível”.

COM A PALAVRA, A LATAM
“Em função da impossibilidade de voar para grande parte de nossos destinos devido ao fechamento de fronteiras determinadas pelas autoridades, a LATAM informa que os clientes terão que aguardar a evolução das recomendações das autoridades competentes”.

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