Brasil: refém da inovação internacional na área de saúde

Brasil: refém da inovação internacional na área de saúde

José Correia*

09 de fevereiro de 2021 | 08h30

José Correia. FOTO: DIVULGAÇÃO

Efeito colateral do ataque do COVID 19, fica totalmente desnudada a pouquíssima importância que as Autoridades – de todos os tempos e níveis – destinaram e destinam ao investimento em Inovação – especialmente na área de saúde – no Brasil.

Atingindo seu ápice na década de 80, com um crescimento de 8% ao ano, a indústria farmacêutica brasileira teve seu parque fabril desativado nos anos 90. Isso se deu a decisões políticas equivocadas e inércia do governo, que não entendeu a importância de manter estratégias de insumos farmacêuticos. Com a chegada dos genéricos em 1999, o Brasil deixa seu posto de produtor e torna-se um mero copiador de medicamentos e importador de inovações tecnológicas do setor, com raríssimas iniciativas de Inovação.

Desdenhando o imenso potencial da Academia Brasileira para descoberta e produção de inovações, o Estado brasileiro vem, simplesmente, investindo na cópia e correndo atrás da inovação de vários países que são, em muitos casos, muito menores e menos capacitados em termos de infraestrutura de pesquisa que o Brasil.

Se países tão pequenos como Israel, Cuba e tantos outros estão à frente do Brasil em uma série de inovações que chegam ao mercado, é evidente que algo está muito errado no sistema brasileiro que deve – a partir da Universidade – trabalhar para a descoberta e viabilização tecnológica de novos medicamentos, terapias, equipamentos, insumos etc. no combate às tantas e tantas endemias que afligem a população brasileira e mundial.

Então, onde reside nossa incapacidade?

Em primeiro plano, temos uma Academia formada por dezenas de boas universidades, centenas de Institutos, várias Instituições de fomento, incubadoras e um sofisticado e bem aparelhado parque de equipamentos dedicados ao ensino e pesquisa.

Formamos milhares de doutores a cada ano em todas as áreas do conhecimento e temos muitos brasileiros, aqui formados, participando de grandes projetos mundiais de pesquisa em instituições publicas e empresas estrangeiras a demonstrar a excelência na formação e na capacitação destes disputados profissionais.

Mas, no Brasil, não conseguimos avançar além da cópia, do envase e da distribuição dos produtos desenvolvidos por terceiros países. A começar pelos tradicionais países ditos desenvolvidos e, mais recentemente, por países em estágio de desenvolvimento inferior ou similar ao Brasil.

Foi o que, afinal, ficou escancarado com a pandemia.

Eis que nos encontramos no desespero para utilização das vacinas de terceiros. Sejam as de inovadoras tecnologias como as do, agora famoso, RNA mensageiro, seja as mais tradicionais- de há muito conhecida tecnologia – de vírus inativados.

E batemos palma e agradecemos aos céus pela oportunidade de envasar vacinas “inovadoras” fabricadas na China, Índia e Rússia.

E a sequencia é a pergunta:

AFINAL, O BRASIL TEM OU NÃO TEM COMPETÊNCIA PARA DESENVOLVER – AINDA QUE COM TECNOLOGIA “TRADICIONAL” – UMA VACINA PARA COVID?

A resposta é bem simples:  SIM. Temos competência em nossa Universidade e em empresas de base tecnológica para desenvolver, com técnicas tradicionais e inovadoras, vacinas para as endemias que afligem os brasileiros, incluindo as causadas por vírus e, notadamente, a COVID 19.

ENTÃO, POR QUE NÃO O FAZEMOS?  O QUE NOS IMPEDE? 

Esta é a grande questão que cabe desnudar.

Em qualquer situação que se apresente, o investimento em Ciência e Tecnologia é SEMPRE uma operação de risco e conta, EM TODOS OS PAÍSES – independente de seus sistema político, financeiro e econômico – com o incentivo, orientação e determinação dos Governos.

Assistimos nesta pandemia os Governos das grandes democracias da Europa e os Estados Unidos destinarem dezenas de bilhões de dólares e se associarem com as empresas que estão pesquisando tanto vacinas como medicamentos, testes de diagnósticos, insumos e tudo o mais que seja relevante para o combate à pandemia.

Também pudemos constatar que os países de Administração estatal orientada como Índia, China e Rússia têm altíssima participação de seus Governos nas empresas que se dedicam ao desenvolvimento da inovação, ESPECIALMENTE NA ÁREA DA SAÚDE.

Nos países ditos desenvolvidos, além da enorme ajuda no risco do desenvolvimento, os Governos, na forma de adiantamentos para futuras compras, destinam ainda mais recursos para as empresas privadas da área da saúde, especialmente quando ocorre uma crise como a que estamos vivendo. Tais empresas que contam com toda sorte de auxilio das instituições publicas ainda dispõem de um enorme mercado privado financeiro que aporta recursos em atividades de risco com possibilidades promissoras de desenvolvimento.

Nos países de administração pública, os Programas de Desenvolvimento destacam a mesma importância para o setor saúde, de armas estratégicas, astronáutica e tudo o que diga respeito à inovação radical que, afinal, redundará na busca do desenvolvimento e da independência destes mesmos países.

Esta é a grande diferença destes países para com o Brasil.

Embora tenhamos uma Academia muito bem posicionada, nos falta todo o resto que sobra nesses países.

Não temos uma priorização determinada pelo Estado, seja para o desenvolvimento na Academia seja para o passo seguinte da criação de empresas privadas ou atração das existentes para os esforços de levar ao consumo os produtos desenvolvidos nas Universidades.

As possibilidades para uma empresa startup brasileira de alta tecnologia acessar fundos públicos para projetos de risco é, na prática, quase nula.

Inexiste, como em tantos países, a possibilidade de que o Governo possa partilhar com o setor privado de um projeto inovador e de risco.  Sequer existem condições fiscais privilegiadas para fundos de investimento em risco em empresas de base tecnológica.

Os fundos públicos dedicados à Ciência e Tecnologia, sejam ou não de caráter obrigatório, são SEMPRE reduzidos, ameaçados e contingenciados pelos Governos que se sucedem num processo absurdo de “economizar” verbas destacadas nos Orçamentos, direcionando-as para outras tantas finalidades.

Agora mesmo, estamos tendo conhecimento pela imprensa que um diminuto – mas atrevido – exército de Branca Leone de pesquisadores brasileiros de várias instituições públicas e – destaque-se – uma empresa privada de base tecnológica – vem se dedicando ao desenvolvimento de uma vacina local com ótimas chances de que possamos, afinal, nos livrarmos da humilhante e perigosa dependência de fornecedores externos.

E, para apreensão geral, novamente, a iniciativa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação está a aguardar a “aprovação” da Economia para que os projetos deslanchem de forma adequada.

Não faltaram recursos para realizar os testes e compromissos que viabilizaram o lançamento das vacinas importadas, apesar dos embates políticos que assistimos. Mas, quando se trata de apoiar as iniciativas oriundas de nossa própria Academia, eis que nossos dirigentes ficam travados a esperar que os problemas se resolvam por si ou que terceiros venham a nos ajudar.

Não podemos mais negligenciar as nossas próprias capacidades disponíveis, tanto no setor público como no privado para encarar e resolver nossos problemas.  Temos condições tecnológicas e capacidade de empreendedorismo suficientes para tomarmos o nosso lugar como protagonistas nesta batalha da Inovação.

Falta-nos a efetiva conscientização do Estado como um todo que sem a mobilização correta das ferramentas disponíveis ao Governo nunca deixaremos de ser dependentes, mesmo com todas as possibilidades de que dispomos.

*José Correia, presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi)

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