Brasil, País do presente

Brasil, País do presente

Ivete Maria Ribeiro*

18 de novembro de 2016 | 04h10

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Há poucos anos cruzamos a data de troca de Século e de Milênio. Estamos em pleno Século XXI e, novamente, terminando um ano e começando outro. No sentido prático da Natureza, o próximo ano e os subsequentes poderão ser iguais, todos com 12 meses de duração, percorrendo ao longo do ano as quatro Estações. Mas, independentemente do aspecto físico temporal, nós brasileiros, deveríamos rejeitar a ideia de nos comportarmos como no passado. Ao contrário, deveríamos procurar inovar e fazê-los diferentes. E há muitas razões para isso.

Se olharmos para o Brasil, sob qualquer perspectiva, temos muito a reclamar. Embora o nosso país seja historicamente apenas 8 anos mais novo do que os Estados Unidos, do ponto de vista geral ficamos para trás, a despeito do porvir incerto que aguarda os americanos do norte com a recente eleição presidencial, os contrastes sociais que tanto nos ferem todos os dias mostram isso de forma dramática. Sempre encontramos explicações, dizendo que a colonização foi diferente; aí assumindo uma postura de absoluta inferioridade racial que parece nos satisfazer. Para corrigir, temos trabalhado mais nos efeitos do que nas causas.

O desenvolvimento das nações não depende da idade dos países, da região geográfica onde se situa, dos seus recursos naturais, do seu clima, da raça dos seus povos, nem da habilidade negocial ou empresarial dos empreendedores. Os exemplos são muitos, Estados Unidos, Canadá, países da Europa, Japão, Austrália, Nova Zelândia e, mais recentemente, Coréia e China. Povos diferentes, regiões diferentes, raças diferentes.

Então, quais seriam realmente os propulsores do progresso e do desenvolvimento das sociedades humanas? Queremos crer que seja a atitude (Dicionário Aurélio: “modo de proceder ou agir; comportamento, procedimento”) dos povos moldados por sistemas educacionais e culturais baseados em princípios como:

– a ética como fundamento

– a integridade permanente

– a responsabilidade em todos os atos

– o respeito às leis e aos hábitos culturais da sociedade

– respeito aos direitos dos cidadãos

– amor ao trabalho construtivo

– esforço pela poupança e pelos investimentos

– desejo de superação e consagração dos êxitos

– pontualidade

– eficiência e produtividade

Todos esses princípios e atributos deveriam permear nosso governo e nossas instituições, cujo fundamento básico seria o de servir às populações, proporcionando-lhes, como acontece no dia-a- dia da própria natureza, ambientes de legalidade e aspectos regulatórios claros, o que permitiria planos de vida a longo prazo para todos os cidadãos.

Olhando sob estes ângulos não seria demais pensar agora e postular uma revolução cultural, como tantas que mudaram o mundo no passado e que ainda hoje são postulados de desenvolvimento para países que se desenvolvem em ritmo acelerado. A única condição é que seja pacífica, enérgica e norteada por princípios de bem comum.

Muitas perguntas e respostas simples poderiam ser feitas. Como reagimos em relação aos estímulos externos? O que fizemos, ou deixamos de fazer? O nosso querido Brasil, nosso berço e berço dos nossos filhos, vai bem? Por que não? Onde estão a esperança e a auto-estima do povo brasileiro? Como as desenvolveríamos? Podemos acreditar que o país tem jeito? Como poderemos, individualmente considerados, contribuir para isto?

As nações desenvolvidas mostram alguns aspectos das suas condições de vida, que são, no mínimo, paradoxais, quando olhadas sob nossas perspectivas.

Os sistemas produtivos e de serviços são consistentemente competentes. Fabricam e vendem produtos modernos, avançados, inovadores, eficientes, atrativos, mostram uma grande habilidade para os lançar no mercado consumidor, de forma rápida, flexível e a preços muito menores do que aqueles que podemos produzir no Brasil. Tudo isto é permanentemente sustentado por sociedades participativas e dinâmicas as quais apresentam importantes denominadores comuns.

Um deles é o permanente estímulo aos inovadores e investidores que, incentivados por atitudes da sociedade e por leis favoráveis, habilita a geração e produção de produtos complexos, intensivos em componentes e sistemas, sem prejuízo da criatividade, dos preços e da qualidade final. O resultado geral é direto. Empregos são gerados, a maioria de nível salarial relativamente alto. A estes estímulos a economia responde aceleradamente, com expressiva elevação dos padrões sociais atingindo resultados dificilmente conseguidos pelos países periféricos. Fica claro que bons empregos, com bons salários são a melhor alavanca de desenvolvimento social que se conhece.

Em que pese a importância do tema, nós brasileiros não temos tido vocação para encarar nossas limitações e identificarmos soluções, diretamente e com eficácia. Desde o descobrimento temos vivido com base numa cultura de dirigismo governamental – de subordinação do indivíduo aos interesses partidários ou do próprio Estado, confundido com a Sociedade. E tudo ocorre sem planejamentos, sem estratégias de longo prazo. Isto tem nos impedido a enfocar seriamente a questão do desenvolvimento sustentado.

Sem esta base tem sido impossível encontrar soluções para todos os problemas fundamentais da comunidade em que vivemos.

Se tentarmos olhar para o futuro, embora difícil, não seria uma extrapolação visionária dizer-se que o

Mundo está vivendo uma fase de prosperidade, claramente sem precedentes no passado. A humanidade conseguiu entrar num período de crescimento sustentado que poderá dobrar a economia mundial a cada doze anos, ou menos, e abre perspectivas para trazer prosperidade para bilhões de pessoas em todo o planeta, desde que se alterem padrões culturais básicos. A partir de recentes décadas tem sido possível identificar transformações realmente espetaculares e que já estão moldando o futuro. Nos países mais desenvolvidos novas tecnologias trouxeram grande aumento da produtividade e determinaram altos valores de crescimento absoluto.

Tudo indica que a evolução do conhecimento humano vai continuar a dar dramáticas contribuições ao crescimento e ao progresso econômico de regiões extensas e de suas populações. Países, como o nosso, populoso e de grandes dimensões geográficas, não pode ficar à margem desse processo que pode ser considerado de alucinantes mudanças.Temos de confiar que podemos enfrentar o desafio e participar deste cenário estimulante e provocante.

Finalmente, voltando ao básico – que muitos poderão considerar acadêmico – temos de considerar que não temos muito tempo para a revolução necessária. Erramos muito no passado e o preço pago tem sido brutal para grande parte de nossa população. A idéia-força deveria ser: VAMOS MUDAR, e rapidamente, para sobreviver, decentemente, como nação e como povo. O novo está batendo fortemente nas nossas portas.

Precisamos, urgentemente reconhecer que, não estamos vivendo uma crise normativa, pelo contrario, temos leis demais, vivemos sim uma crise ética e institucional, mas, para superá-la basta que os agentes públicos reconheçam que todo poder emana do povo, e que em seu nome e sob seu estrito interesse deve ser exercido, e que toda glória, quando há, pertence única e exclusivamente ao Brasil, país do presente.

* Ivete Maria Ribeiro, advogada. professora universitária, ex-diretora executiva da Fundação PROCON de São Paulo (Email:ivetteribeiro@gmail.com

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