Brasil: o mais antiambiental do planeta

Brasil: o mais antiambiental do planeta

José Renato Nalini*

29 de abril de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

O Jornal da USP de 23.04.2021 traz instigante artigo de Herton Escobar, qualificando o Brasil de ser o país mais antiambiental do mundo. Apesar da pressão norte-americana, com a ênfase que o democrata Joe Biden confere ao tema, no território tupiniquim tudo continua como dantes.

“Essa precisa ser a década da decisão”, declarou John Kerry ao encerrar a conferência. O entusiasmo do presidente, ao encarar os esforços para a redução das emissões causadoras do efeito estufa como alavanca para uma nova revolução industrial não contamina o governo brasileiro.

Em todos os setores, não existe apenas retrocesso, mas um atentado que elimina toda uma estrutura gradual e lentamente edificada por ambientalistas patriotas durante décadas. Um exemplo: 82 normas foram editadas entre 2019 e 2020, impactando negativamente a natureza. Em sua maioria, afastam órgãos ambientais, como o IBAMA, da gestão pesqueira. Os dados estão disponíveis no Monitor de Política Ambiental e, por mera coincidência, a Secretaria da Aquicultura e Pesca foi entregue a Jorge Seif Júnior, da família proprietária da JS Pescados de Itajaí. Em lugar de valer-se das potencialidades nacionais para se tornar campeão no processo neutralizador de carbono, líder da bioeconomia, o Brasil insiste na mesma política exterminadora do amanhã. Será que o presidente Biden acredita na resposta brasileira quando encerrou o encontro e pronunciou: “Vamos fazer isso juntos. Os compromissos que assumimos aqui precisam se tornar realidade”.

O Brasil mudou o tom, pois a ignorância tem limites. O incansável cientista Carlos Nobre tem sido uma voz a clamar no deserto contra o desmanche dos equipamentos administrativos, o estímulo ao desmatamento e à grilagem de terras indígenas e de reservas florestais, exploração do garimpo ilegal, que polui rios e envenena os remanescentes das etnias indígenas.

Persevera Carlos Nobre a reiterar que “a posição que o país ocupa como pária ambiental é prejudicial a todas as atividades econômicas, inclusive à maioria do agronegócio conservador que apoia o presidente”. Na sua avaliação, o discurso do presidente do Brasil “não retirou o país da incômoda posição de um dos países mais antiambientais do mundo”.

Impossível acreditar-se em qualquer promessa vinda de um governo que tem a intenção – e a concretiza – de “soltar a boiada” – contra qualquer óbice à exploração exauriente dos recursos naturais. Por sinal, logo após o discurso na conferência, houve corte de milhões do tísico orçamento do Ministério contra o Meio Ambiente. De corte em corte, seus recursos são inferiores ao das menos dotadas dentre as Secretarias de Estado ou até do Município de São Paulo. Isso, para pretensamente cuidar de toda a natureza deste gigante continental.

Entre o discurso e a realidade há uma evidente e escandalosa desconexão. “O discurso foi claramente preparado para sugerir uma mudança de rumo na política ambiental brasileira. Mas foi o discurso de um vendilhão sem credibilidade”, na fala de Ricardo Galvão, professor do Instituto de Física da USP e ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, uma das primeiras vítimas do descalabro vigente. A outra foi a do delegado federal Alexandre Saraiva, que teve a coragem de denunciar o Ministro ambiente zero que interferiu no trabalho investigativo tendente a apurar a ilicitude do maior corte de madeira já constatado em décadas. Galvão não se contém: “O discurso é totalmente ortogonal à política ambiental adotada desde a posse deste governo”. O desmatamento cresceu quase 50% neste desgoverno.

Também o pesquisador Marcos Buckeridge, diretor do Instituto de Biociências da USP depõe: “O discurso é falso, principalmente porque, sem o sistema que nosso próprio governo teima em destruir, não há como atingirmos as metas que foram propostas para a diminuição das emissões. Não tem lógica, nem consistência. Por isto, nada do que foi dito será cumprido”.

A Amazônia está no corredor da morte. A própria meta estipulada pelo governo – Plano Amazônia 2021-2022 – prevê desmatamento muito acima daquele ocorrido nos anos anteriores. “Certamente houve ardilosa mudança de retórica, fruto da percepção de que, caso isso não ocorresse, o Brasil ficaria totalmente isolado no cenário internacional, com sérias consequências para investimentos externos e crescimento econômico”, assinala Galvão.

Esperança única é o empresariado e as instituições financeiras. Atentas à mão mais do que visível do mercado, aperceberam-se de que prosseguir na atrocidade ignorante de desmatar geraria prejuízos e não lucros. Têm certeza de que é possível conciliar desenvolvimento econômico e sustentabilidade ambiental, com geração de empregos, de renda e de verdadeiro progresso para a região amazônica.

O ridículo de se pedir dinheiro para cumprir a lei que o próprio Estado brasileiro editou, em nome do povo, o único titular da soberania, não seduzirá o pragmático governo ianque. Ele quer resultado, não palavrório. Sabe o que acontece na Amazônia e em outros biomas. A onisciência da grande democracia ocidental sabe exatamente com quem está tratando. Dinheiro existe e virá. Mas isso se houver resposta imediata. Não apenas acabar com o desmatamento. Mas adotar práticas de reflorestamento. Será que um dia vamos assistir a isso? Então, até os mais céticos acreditarão em milagres.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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