Brasil: não há poesia na miséria

Brasil: não há poesia na miséria

Angel Machado*

03 de setembro de 2020 | 07h41

Angel Machado. Foto: Divulgação

Sem os livros o mundo seria incompleto. Não conheceríamos os clássicos e a sagacidade dos escritores com os seus dedos gastos e lânguidos suados pelo tempo da escrita. A vida truculenta tem desumanizado as pessoas que não leem, porque a leitura é uma sensação incorruptível e simples de ser conduzida, mas, quando somos confrontados com a miséria do governo e de algumas instituições, a primeira reação é de indignação, depois conformismo e, por fim, o esquecimento.

Ninguém mais poderá se conformar com a corrupção, vivemos num platô há décadas e isso tira-nos o pão, o livro e a dignidade.

Não é proibido ouvir as músicas que um dia embalou gerações. Chico Buarque e a canção Construção, lançada 1971, é um exemplo de expressão, um hino político-crítico ao regime militar no Brasil.

Já em 2020, um ano aterrador e provavelmente histórico nas áreas como, saúde, política, econômica, ambiental – no mundo e no Brasil -, no cenário em que o homem se limitou a ser de direita ou esquerda, branco ou preto, corruptos ou incorruptíveis — ouvir os versos de Construção, “Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormi / A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir / Por me deixar respirar, por me deixar existir, / Deus lhe pague”; refaz o nó na garganta em pensar que muitos brasileiros nunca ouviram falar de Chico, embora, suas canções falem deles.

Todos nós esquecemos que era quase impossível respirar na ditadura, mesmo os livros de História contarem o que se passou nesse período com os nossos avós e pais. Não havia paz e os ruídos emergentes de fúria era a guerra dos anti-heróis, comandados por distintivos covardes, que freavam e ainda freiam políticas sociais em detrimento da democracia forjada na nova era.

É indecente não ter memória no Brasil e contribuir com as falácias sobre o idealismo e vivermos um embuste, onde parecer bom é cruel. Nem todos saberão o porquê da morte, da luta e da resistência, mas, é curiosa a normatização dos desastres diários, de vidas brasileiras morrerem por dia de bala perdida, de Covid e de intolerância num contexto político letárgico.

A questão é que as armas foram liberadas com o aval de um presidente, e a prerrogativa: salvaguardar a população de bem. Mas, a polícia, o racismo, o tráfico e a pandemia continuam a matar os brasileiros e nesse panorama, os livros deixarão de existir e as coisas banais terão lugar de honra nas prateleiras vazias dos homens perversos.

Entretanto, os que preservaram a sanidade estarão assistindo, com a razoável percepção, ao Brasil a se desfazer, insatisfeitos por serem honestos, pagando impostos e morrendo de fome e de cultura. Em 2020, muitos já partiram e esses não saberão qual será o próximo sucesso de Chico Buarque, e sem a hipótese de conhecer a história de um mito e livros para lerem.

*Angel Machado é jornalista e escritora 

 

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