Brasil das canções

Brasil das canções

Angel Machado*

25 de janeiro de 2021 | 07h25

Angel Machado. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

A amargura como cenário é desfavorável à utopia. O medo tem sido a condição para manter o Brasil vivo. Os golpistas venderam a esperança num país castigado por influências perigosas. Agora, nenhuma consciência libertará as pessoas da realidade assombrosa que é ser contemporâneo de quem chegou à presidência do Brasil com um golpe de sorte.

A estrutura sociopolítica brasileira está em ruptura com o cidadão, porque a Constituição política está em mãos ortodoxas. Se imaginássemos outro cenário, onde as questões fundamentais fossem o combate à miséria e o desmatamento, talvez, o direito à saúde não estivesse em causa, e muitas pessoas poderiam, ainda, estar vivas.

Estamos atravessando a ponte de um rio sem margens, e o que está à volta do universo político reage, e essa é uma exigência: compreender a realidade e transformá-la. Para alguns políticos não é confortável ultrapassar o limite, ou nos acomodamos, ou mudamos a situação de urgência em que vivemos – em ambas as situações, não desejamos mais a utopia, apenas a nossa sobrevivência.

Não estamos preocupados com a ideia de impeachment, mas sim com o jogo de xadrez de peões e reis que violam sistematicamente as regras da democracia. Talvez, por isso, estejamos sem argumentos para classificar a catástrofe que já fora anunciada nas eleições de 2018, e que tememos que se repita. A ambivalência brasileira está na esquerda e na direita. Se alguém discordar, quer da oposição ou do poder vigente, será aconselhado a dirigir-se para o final da fila.

Aprendemos com o nosso passado que a questão essencial não é colocar ou tirar um presidente – tendo ele cometido crime de responsabilidade -, é simplesmente, o afastamento das posturas partidárias que desfavorecem o cidadão, que precisa de mais e melhores políticas públicas e garantias da tríade – Educação, Saúde e Segurança.

Quem é o político capaz de ouvir o povo depois de estar no poder? Quem é o trabalhador sem nome, mas, confiante de que o seu voto foi dado a alguém que faria algo por ele? Isso é a utopia e ela não está destinada às pessoas com as mãos calejadas e os pés descalços. Nem o célebre compositor de destinos se curva à utopia, o tempo passou, e aprendemos pouco sobre a liberdade que nos foi conquistada em 1989.

Aos muitos que sabem que a cultura e a educação são capazes de tirar o povo da miséria, dar-lhe dignidade e sanidade, para que num dado momento não duvidem da ciência e da integridade humana para além das conspirações corporativas, lutem!

Não deixemos que a nossa diversidade de opinião seja o dilema entre a razão e o fanatismo, para que Deus não seja o escudo de marginais que fomentam a desinformação. O fato de estarmos no abismo, não muda a direção das coisas, mas é um sinal de que não conhecemos o outro lado: exige-se uma geração que seja capaz de reconstruir a utopia das canções.

O filósofo inglês Thomas More (1478-1535), autor da obra Utopia, defende uma sociedade ideal onde “a prosperidade ou a ruína de um estado depende da moralidade de seus governantes.” O Brasil utópico sempre existiu nas canções, mas, poucos são os que as conhecem.

*Angel Machado é jornalista e escritora

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