Brasil cai pelo terceiro ano seguido e alcança pior posição em índice de percepção da corrupção desde 2012

Brasil cai pelo terceiro ano seguido e alcança pior posição em índice de percepção da corrupção desde 2012

No 105.º lugar entre 180 nações no ranking da Transparência Internacional, País sofreu queda de nove posições em relação ao último ano e ficou empatado com Argélia, Armênia, Costa do Marfim, Egito, El Salvador, Peru, Timor Leste e Zâmbia

Igor Moraes

29 de janeiro de 2019 | 03h01

Reprodução

O olhar sobre a corrupção no Brasil piorou em 2018 e atingiu seu nível mais baixo em sete anos. O País caiu nove posições no Índice de Percepção da Corrupção (IPC), ranking produzido pela Transparência Internacional divulgado em Berlim nesta terça-feira, 29. Esta é a terceira queda brasileira consecutiva na medição.

A avaliação do País é a pior desde 2012, quando o indicador mudou sua metodologia e passou a analisar a série histórica.

O Brasil caiu dois pontos – de 37 para 35, na escala de 0 a 100 – em relação a 2017 e viu sua posição no ranking regredir do 96º para o 105º lugar entre as 180 nações avaliadas. Agora, o País está empatado com Argélia, Armênia, Costa do Marfim, Egito, El Salvador, Peru, Timor Leste e Zâmbia. Para a Transparência Internacional, qualquer pontuação abaixo de 50 significa que o país está falhando no combate à corrupção.

O IPC existe desde 1995 e é um índice composto a partir de diferentes indicadores, pesquisas e avaliações de corrupção no setor público realizadas por várias instituições. O ranking considera, a partir das informações disponíveis em cada nação, de três a 13 fontes de dados.

Américas, Brics e G-20

Dentre os 32 países do continente americano no IPC, o Brasil alcançou a 20ª colocação. O País ficou atrás de Argentina, Cuba, Costa Rica e Jamaica. Em 2012, o Brasil estava atrás apenas de 10 países da região.

Em sete anos, o País foi ultrapassado por nações como Jamaica, Suriname, Trinidad e Tobago, Argentina, Guiana, Colômbia e Panamá.

Nas últimas colocações da região estão Haiti e Venezuela. O Canadá, assim como no último ranking, segue na liderança do continente.

Na comparação com os Brics – que reúne as cinco maiores economias emergentes do planeta – o Brasil ficou no penúltimo lugar, à frente apenas da Rússia. A melhor pontuação do grupo foi alcançada pela África do Sul (43), seguida de Índia (41) e China (39).

Entre os países que integram o G-20, além da Rússia, o Brasil superou somente o México (28) e ficou atrás de países como a Arábia Saudita (49).

Liderança escandinava

Em 2018, a Dinamarca alcançou a nota global mais alta e, com 88 pontos, apareceu na liderança do IPC. O país trocou de posições com a Nova Zelândia, que no último ranking estava em primeiro lugar e agora está em segundo, com 87 pontos.

Além da Dinamarca, a Escandinávia conseguiu emplacar quatro países entre os dez com as melhores percepções sobre corrupção: Finlândia e Suécia, com 85 pontos; e Noruega, com 84. Completam o ‘top 10’: Singapura e Suíça, com 85 pontos; Holanda, com 82; e Canadá e Luxemburgo, com 81.

A nota mais baixa do ranking foi registrada na Somália, seguida de Síria, Sudão do Sul, Iêmen e Coréia do Norte.

Primeira reação é negativa

Para a Transparência Internacional Brasil, o mau desempenho brasileiro não significa que os recentes avanços no combate à corrupção no País, promovidos principalmente pela Operação Lava Jato, não geraram resultados.

A entidade avalia que a sequência de divulgações de escândalos e punições contra corruptos tende a aumentar a percepção de que o problema está piorando no primeiro momento, o que pode ser revertido com a demonstração de comprometimento com a eliminação das causas estruturais dos ilícitos.

“[A Lava Jato] sozinha não será capaz de efetivamente reduzir os níveis de corrupção. Para isso será necessário que o Brasil olhe agora para frente na luta contra a corrupção, atacando as raízes do problema com reformas legais e institucionais”, diz Bruno Brandão, diretor executivo da Transparência Internacional – Brasil.

Apenas no Paraná, desde o início da operação a Lava Jato resultou em 215 condenações  contra 140 pessoas. As penas, somadas, chegam a 2.036 anos, quatro meses e 20 dias de prisão.

Para Brandão, a nova queda brasileira está relacionada ao desempenho da gestão de Michel Temer nesta área. Segundo o executivo, apesar do tema ser a “prioridade máxima” da população, o que se viu no último governo foi um governo sob acusações de corrupção que resistiu no avanço de políticas públicas na área.

“Isto certamente influenciou a percepção no Brasil e no mundo de que os esforços do país na luta contra a corrupção podem não significar ainda uma mudança de patamar e, pior, pode haver retrocessos”, disse o diretor.

‘Unidos contra a corrupção’

Para contribuir com o combate à corrupção, a Transparência Internacional e a Fundação Getúlio Vargas coordenaram a produção de um pacote de medidas com 70 propostas legislativas e regulatórias. Lançada em apoio ao pacote no ano passado, a campanha “Unidos contra a corrupção” conseguiu reunir o compromisso de 54 parlamentares eleitos com as medidas.

Entre as sugestões, estão desde projetos de Lei até a criação de um Instituto Nacional de Acesso à Informação.

“Nosso objetivo é que esta seja a semente de uma frente parlamentar anticorrupção, que fará avançar as reformas propostas pela sociedade”, explica Nicole Verillo, coordenadora da Transparência Internacional Brasil.