Brasil, a pátria de jaleco

Brasil, a pátria de jaleco

Antoine Abed*

26 de abril de 2020 | 05h30

Antoine Abed. FOTO: DIVULGAÇÃO

O futebol está morto! Esqueçam os antigos slogans que nos induziam a acreditar que somos uma nação que entendia e vivia o futebol: “Brasil, o país do futebol” ou “Brasil, a pátria de chuteiras”. Agora somos o país da medicina e precisamos criar um novo slogan que atenda as preocupações da sociedade brasileira. Uma nova espécie de vírus transformou 200 milhões de técnicos de futebol em infectologistas. De maneira repentina, nos dividimos em dois grandes grupos de especialistas, os que já sabem tudo sobre o vírus e os que já sabem o suficiente para desenvolver uma opinião sobre o fato. Mas, como será que nos tornamos experts tão rápido? Será que o estresse sobre o desconhecido está fazendo com que indivíduos percam a noção de que não podem ou devem falar, com propriedade, sobre tudo?

Avanços tecnológicos levaram a comunicação para um patamar elevado em que as redes sociais e aplicativos de troca de mensagens instantâneas dão a impressão que a genuína fonte de saber está ao alcance de todos. Consideraremos os dois tipos de indivíduos citados acima: o primeiro está relacionado às pessoas que, mesmo sem preparo ou formação para tal, criam e explicam um conteúdo que não dominam. Já o segundo tipo, aqueles que recebem essas informações, e, de maneira automática – sem submeter o pensamento a nenhuma forma de crítica, assumem essa opinião como verdade e, pior que isso, distribuem para seus contatos. Esse compartilhamento possibilita que criadores de conteúdos irrelevantes, em que antes não tinham voz, consigam agora entrar em contato com milhares de outras pessoas. Parece que perdemos o poder da crítica, acreditamos em tudo que chega em nosso gadget sem mesmo ter a prudência de verificar a veracidade. No mundo, bilhões de nós dificilmente checaremos as informações que nos invadem diariamente pois temos coisas mais urgentes a fazer, como trabalhar, ir ao supermercado ou não faltar à aula de spinning.

“Num mundo inundado de informações irrelevantes, clareza é poder”, já dizia o historiador israelense Harari. São vastos os exemplos de indivíduos que se comportam como verdadeiros médicos após lerem dois textos no WhattsApp, ou assistirem a um vídeo de dez minutos no YouTube de um suposto PHD que ninguém sabe quem realmente é. Deveríamos ter mais prudência ao lidar com tantas informações disponíveis ao nosso redor. O problema que vejo é a marcante desinformação compartilhada por indivíduos que não têm autoridade para tratar sobre determinado assunto.

Por outro lado, parece que ganhamos uma espécie de carimbo virtual quando falamos que não temos opinião definitiva sobre um objeto. Somos uma sociedade tão perturbada que desenvolvemos uma maneira coercitiva de julgar aquele que diz que não ter conhecimento suficiente sobre algo para emitir opinião. Podemos ir além, nossa sociedade conseguiu o inacreditável: tornamos a máxima socrática do “só sei que nada sei” em símbolo de pobreza intelectual. Se Sócrates vivesse hoje no Brasil, seria tachado de “mureta”.

Mas, por que devemos ter uma opinião sobre tudo? Se ainda estivesse vivo, Nelson Rodrigues responderia que é uma “obviedade ululante” o fato de termos tantos especialistas em medicina hoje em decorrência de estarmos constantemente bombardeados com informações. Na verdade, é uma questão de lógica simples, já que para os indivíduos que vivem de forma automática, considerando que a informação está em toda parte (metaforicamente exposta numa prateleira de supermercado em que o único trabalho que o indivíduo tem é escolher qual opinião faz mais sentido e, a partir daí, tomá-la para si) é imperativo possuir uma opinião. Sendo assim, na cabeça da maioria, é inadmissível não ter certeza das coisas, mesmo que ela seja cópia de outrem.

Citando novamente Harari: parece que o homem moderno desenvolveu um mundo tão complicado que agora não sabemos mais lidar com ele.

Então, quando você estiver na dúvida entre ganhar o selo moral de tosco, por ainda não ter opinião formada, ou em copiar uma opinião apresentada por meios digitais baseada em alguém que nunca ouviu falar, lembre-se que poucos são os que desenvolvem a prudência para, em momentos de crise, agir de forma racional. Pense, também, que ser crítico sempre ajuda na tomada de decisões importantes para definir o melhor caminho a seguir. Porém, se vive de maneira automática e não tiver tempo para pensar e desenvolver suas virtudes, melhor começar a fazer jus ao diploma conquistado por assistir vídeos do YouTube. Compre o mais rápido possível seu estetoscópio e sinta-se incluído nessa nova onda de certezas. Ajude a popularizar esse novo sentimento popular brasileiro na criação de uma nova frase de efeito. Aproveitando, já deixo aqui minha sugestão para o novo slogan: Brasil, a Pátria de jalecos.

*Antoine Abed é filósofo e autor da obra Ensaio Sobre a Crise da Felicidade

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