Brasil 4.0

Marcos de Lacerda Pessoa*

22 Novembro 2018 | 05h00

Entre os anos de 1968 e 1973, o Brasil viveu um expressivo desenvolvimento econômico. Chamado de “milagre econômico”, esse crescimento esteve relacionado ao Programa de Ação Econômica do Governo Castelo Branco e a algumas boas repercussões nos anos seguintes.

Naquela época, o Brasil disputava com as demais nações do planeta nas engenharias, na tecnologia e nas inovações. Passado aquele período, o país se fechou para o mundo, deixando de olhar para o que as outras nações estavam fazendo. Assim, sofremos uma queda nas engenharias, na tecnologia e na inovação; com isso, nossos produtos e serviços passaram a perder competitividade no mercado internacional.

Nos últimos 15 anos, a China avançou muito e passou a disponibilizar produtos e serviços a preços baixos, o que contribuiu para prejudicar nossa economia. Felizmente, o cenário já está mudando, pois a China concedia diversos incentivos governamentais, fazendo com que a competição com aquele país ficasse bastante difícil. Hoje, no entanto, ela possui imensas demandas: sociais, ambientais, de educação e infraestrutura, o que começa a elevar seus preços.

Para o desenvolvimento brasileiro, alguns aspectos parecem hoje cruciais. Antes dos anos 90, havia os chamados “planos decenais”, que proporcionavam um importante norte para o nosso desenvolvimento. É preciso que construamos ‒ na base do consenso democrático ‒ um planejamento plurianual, mas renovado, nacional, regional e setorial, que seja realista e racionalmente formulado, e depois compreendido e efetivamente abraçado por todos os brasileiros.

Fala-se muito da Indústria 4.0 no contexto da inovação que pressupõe automatização, robotização, sistemas integrados de produção, atendimento personalizado e customizado aos consumidores. É necessário criarmos condições para que ela se viabilize.

Para que o Brasil embarque numa nova onda desenvolvimentista são fundamentais vontade e capacidade de inversão por parte do empresariado, disponibilidade de financiamentos de longo prazo a juros razoáveis e investimento em capacitação da força de trabalho. É essencial que o investimento em requalificação seja ampliado, visto que a produtividade no Brasil ainda é baixa: são necessários, em média, quatro brasileiros para ter a mesma produtividade de um americano. A inovação deve ser estendida ao setor público que envolve elementos menos diretos e objetivos do que a promovida no setor privado, em que prevalece a lógica do lucro.

Para a inovação pública, fatores como retorno social e ganhos para a sociedade precisam se fazer presentes. Olhando para o meio externo, o setor público – por meio da inovação – pode vir a oferecer mais e melhores produtos e serviços. Olhando para dentro da administração pública, a inovação pode levar a um necessário e desejado aumento da produtividade, conduzindo ao “fazer mais com menos”.

Já no contexto da educação, não basta o “Programa Ensino Médio de Tempo Integral”. Essa é solução parcial das carências nacionais em educação. Mais que urgente é provocar um tsunami de reformas em todos os níveis da educação, apoiada em recursos humanos comprometidos, treinados e bem remunerados, infraestrutura escolar e participação decidida de governos, sociedade e famílias.

Nessa empreitada desenvolvimentista, nossas universidades e centros de pesquisa — celeiros de conhecimento e bons cérebros — devem se unir aos setores produtivo e educacional, gerando inovações que produzam desenvolvimento.

Reforma trabalhista: Além de necessária, ela precisa proporcionar maior segurança jurídica a empregados e empregadores, reduzindo as demandas trabalhistas na justiça, que hoje infestam as respectivas varas com enorme custo para o estado brasileiro. A lista apresentada está longe de ser exaustiva (saúde, violência, transportes…), porém aponta algumas questões cruciais.

O Brasil possui uma originalidade cultural, decorrente das suas várias etnias. Ao invés de buscarmos nos igualar com os demais países, dentro de métricas que eles utilizam, devemos buscar uma vida mais auspiciosa e feliz, adequada às nossas características, utilizando nossa criatividade: esse seria o Brasil 4.0, próspero e com boas oportunidades para toda sua população. Está na hora de construirmos um futuro de realizações e de esperança para todos os brasileiros!

*Marcos de Lacerda Pessoa, mestre, Ph.D. e pós-doutor em Engenharia, é membro da diretoria do Centro de Letras do Paraná, autor do livro Sementeira de Inovação, organizador e editor do livro Pinceladas de Inovação, proprietário do centro de apoio à inovação futuri9.com e da aceleradora de projetos de energia Octane

Mais conteúdo sobre:

Artigo