Braga Netto diz que não ouviu Bolsonaro falar em troca de chefe da PF no Rio

Braga Netto diz que não ouviu Bolsonaro falar em troca de chefe da PF no Rio

De acordo com o ministro da Casa Civil, declaração de Bolsonaro sobre 'trocar a segurança no Rio' se referia a mudanças na segurança pessoal do presidente, a cargo do GSI, 'não tendo referência à Polícia Federal'

Fausto Macedo e Paulo Roberto Netto

12 de maio de 2020 | 20h08

O ministro Walter Braga Netto (Casa Civil) afirmou à Polícia Federal, em depoimento prestado nesta terça, 12, no Palácio do Planalto, que não ouviu o presidente Jair Bolsonaro mencionar em sua presença a possível troca de superintendente na Polícia Federal do Rio durante a reunião ministerial do dia 22 de abril.

“Que na reunião do conselho de ministro, ocorrida em 22 de abril de 2020, quando apresentado o Pró-Brasil, o presidente Jair Bolsonaro não chegou a se expressar sobre a substituição do superintendente da Polícia Federal do Rio de Janeiro, reservando-se a expressar a sua inquietude, como já dito, sobre os dados de inteligência do SISBIN, mais precisamente, dos dados que deveriam ser fornecidos pela Defesa Nacional e pela Abin”, aponta o depoimento.

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Segundo Braga Netto, a reclamação ‘se tratava principalmente da demora do fornecimento de dados’.

“Com relação ao conselho de ministros, quando o presidente revelou sua intenção de ‘trocar a segurança do Rio de Janeiro’, (Braga Netto) entende que se tratava de segurança pessoal do presidente a cargo do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), não tendo referência à Polícia Federal”, aponta o depoimento. “Na perspectiva do depoente, ao citar ‘segurança no Rio de Janeiro’, o presidente Jair Bolsonaro apenas fez referência como ilustração de sua insatisfação”.

Ao ser questionado especificamente sobre eventuais investigações da PF Rio que incomodavam o presidente, Braga Netto afirmou que se recorda apenas que Bolsonaro ‘se queixava’ de não terem sido esclarecidos por completo os fatos relacionados ao porteiro do condomínio Vivendas da Barra, “Nem muito por ele, mas por se tratar de fatos relacionados ao cargo de presidente da República”, disse.

O porteiro implicou Bolsonaro no caso Marielle Franco ao dizer, inicialmente, que o presidente teria permitido a entrada de Ronnie Lessa, preso sob suspeita de matar a parlamentar, no prédio. Ele foi ouvido pela Polícia Federal do Rio e retratou sua versão.

O ministro Walter Braga Netto, da Casa Civil. Foto: Dida Sampaio / Estadão

Insatisfação. Segundo Braga Netto, Bolsonaro já tinha demonstrado ‘insatisfação’ com os dados que recebia pelo Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN), mas não com elementos da Polícia Federal e tampouco com o então diretor-geral da corporação, Maurício Valeixo.

Braga Netto, contudo, disse que não sabe informar ‘a razão pela qual o presidente Jair Bolsonaro teve a intenção de nomear Alexandre Ramagem ao cargo’.

O chefe da Casa Civil informou que Moro também não lhe relevou ‘eventual intenção de mudanças’ na chefia da corporação e que somente no dia 23 de abril, um dia antes de pedir exoneração, o ex-ministro da Justiça o informou em conversa com os ministros Augusto Heleno (GSI) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) que o presidente ‘permanecia com a ideia de trocar o comando da PF’.

Após a fala de Moro, os ministros palacianos ‘procuraram acalmar o ex-ministro’, que já havia sinalizado ali que deixaria o governo caso a saída de Valeixo se concretizasse.

“Para ‘acalmar o ex-ministro’, o depoente e os demais ministros disseram ‘vamos conversar’, afirmando a necessidade de manter aberto o canal de comunicação entre todos”, apontou Braga Netto. “Porém, não houve o compromisso de demover o presidente dessa intenção”.

O ministro afirma que não procurou o presidente para falar sobre o caso e nem teve iniciativa de procurar uma solução intermediária.

Sobre a conversa com Moro, Braga Netto recorda-se que o ex-juiz destacou a ‘insistência’ de Bolsonaro em realizar a troca do diretor-geral da Polícia Federal, mas não se lembra se a ‘insistência’ também era sobre eventual substituição do superintendente da PF no Rio.

O presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro. Foto: Dida Sampaio / Estadão

Braga Netto também disse não se lembrar de Moro ter dito, a ele e aos demais ministros palacianos, que a troca de comando da PF seria motivada pelo presidente ‘em razão da necessidade de nomear alguém para interagir diretamente, ligar ou obter informações sobre relatórios de inteligência’.

O ministro afirmou à PF que Bolsonaro não lhe mostrou, em nenhum momento, ‘insatisfação específica’ com os trabalhos realizados pelos delegados Ricardo Saadi, que foi superintendente da PF no Rio até agosto de 2019, e Carlos Henrique, que viria a substituí-lo até este mês, quando foi levado para ocupar a diretoria executiva da PF em Brasília.

Saadi afirmou em depoimento à Polícia Federal na segunda, 11, que sua exoneração da chefia da PF foi antecipada e sem justificativa clara. Ele negou ter recebido solicitações do Planalto por informações de investigações, mas até hoje disse que não foi informado sobre as razões para sua saída.

Braga Netto também disse que ‘não teve ciência de eventual ligação do ministro Ramos ao ex-ministro da Justiça no sentido de buscar uma composição para evitar a saída de Sérgio Moro’. O chefe da Casa Civil também alegou não se recordar do nome do delegado Disney Rossetti, número dois de Valeixo na PF, ter sido ventilado para assumir a direção-geral da corporação.

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