Braço-direito de Dirceu diz que trabalha de graça aos finais de semana

Em depoimento à PF em que confessou ter recebido ajuda financeira de ex-ministro, Roberto Marques, o Bob, detalhou sua relação de amizade

Redação

18 de agosto de 2015 | 16h00

Bob Marques. Foto: Gabriela Bilo/Estadão

Bob Marques. Foto: Gabriela Bilo/Estadão

Por Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Julia Affonso

O braço-direito de José Dirceu – presos pela Operação Lava Jato, desde o dia 3 – Roberto Marques, conhecido como Bob, disse à Polícia Federal que trabalhou como assessor do ex-ministro de graça durante os finais de semana, no período em que ele ocupou cargo no governo Luiz Inácio Lula da Silva, entre 2003 e 2005.

“Em 2003, Dirceu se tornou ministro da Casa Civil e convidou para que o assessora em São Paulo nas sextas-feiras e sábados, quando fosse necessário”, afirmou Bob, ouvido no dia 6 de agosto pelo delegado Márcio Adriano Anselmo, da equipe da Lava Jato.

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Bob contou que não tinha vínculo com o Planalto. “Mas sim diretamente com Dirceu, e que não recebia nada pelo trabalho de assessoramento.”

José Dirceu. Foto: André Dusek/Estadão

José Dirceu. Foto: André Dusek/Estadão

Preso no dia 3 junto com Dirceu e seu irmão Luiz Eduardo Oliveira e Silva e o lobista Fernando de Moura – que seria um dos operadores de propina do ex-ministro da Petrobrás -, o braço direito disse que foi chamado “para o trabalho porque tinha grande proximidade”.

“Antes disso prestou assessoramentos esporádicos a Dirceu durante campanhas eleitorais e em outras ocasiões, mas nunca teve um vínculo formal com Dirceu, nunca tenha sido lotado em nenhum gabinete ocupado por Dirceu.”

Valores mensais. No mesmo depoimento, Bob afirmou que “por cerca de cinco meses”, em 2011, recebeu R$ 30 mil mensais em dinheiro vivo do ex-ministro-chefe da Casa Civil. Alegou que naquele ano “pediu ajuda financeira” a Dirceu, então réu do Mensalão, porque seus pais estavam com “problemas de saúde” e ele em dificuldades financeiras.

Preso na Operação Pixuleco, 17.º capítulo da Lava Jato, cujo alvo maior é o ex-ministro do governo Lula, Bob chegou a ter sua temporária renovada no dia 7 pelo o juiz federal Sérgio Moro, que conduz as ações da Operação Lava Jato, e depois foi liberado no dia 12. Dirceu foi preso preventivamente, quando a custódia é por tempo indeterminado.

Bob disse que retirava os R$ 30 mil mensais na JD Assessoria e Consultoria, criada pelo ex-ministro depois que ele foi cassado e perdeu a cadeira na Casa Civil do governo Lula, no rastro do Mensalão.

Bob é funcionário efetivo da Assembleia Legislativa de São Paulo, lotado no gabinete da 1.ª Secretaria, ocupada pelo deputado Enio Tatto (PT) – cuja empresa de contabilidade, em sociedade com a mulher, recebeu pagamentos da JD Assessoria que somaram R$ 1,1 milhão, entre 2009 e 2014.

O braço direito afirmou que há 29 anos, desde que trabalhou com Dirceu na bancada do PT na Assembleia Legislativa de São Paulo, acabou se tornando bastante próximo do ex-ministro.

Em relato da PF, Bob admitiu. “Por cerca de cinco meses, o declarante retirou R$ 30 mil mensais no escritório da JD Consultoria na (Avenida) República do Líbano (zona Sul de São Paulo), conforme disponibilizado por Dirceu e por seu irmão Luiz Eduardo”, transcreveu a PF. “Que não se recorda se era apenas Luiz Eduardo quem lhe alcançava o dinheiro, mas que sempre que ia ao escritório perguntava se havia ‘algo’ para o declarante e, então, recebia o dinheiro.”

Bob disse que o dinheiro ‘era acondicionado em um envelope’. “A totalidade do dinheiro foi utilizada para custear os cuidados com seus pais, e que acredita possuir documentação comprobatória dos gastos”, declarou.

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