Bons exemplos não faltam

Bons exemplos não faltam

José Renato Nalini*

25 de julho de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Para mostrar que houve adesão integral a uma causa, os discursos são fátuos e inconsistentes. O Brasil é uma nação em que muito se fala e pouco se faz. Assim não fora e as consequências extraíveis de uma Constituição que cuida de todos os assuntos e tem solução para todos os problemas seria a edificação daquela promessa do constituinte: edificar uma Pátria justa, fraterna e solidária.

Nada mais injusto, fratricida e anti-solidário do que o comportamento de muitas figuras “gradas” na economia, na sociedade e na política. Houvera compromisso efetivo com os valores inscritos no pacto fundamental e o Brasil não seria esse pária internacional, acusado de não só permitir a destruição da Amazônia e de outros biomas, porém de incentivar as práticas antiecológicas e até criminosas. Como extração de madeira de lei de reservas florestais e a exploração de minérios em áreas indígenas.

O conceito ESG seria uma resposta plausível e saudável para essa tendência de se fazer do Brasil um território arrasado. Mas a urgência está na adoção de práticas consequentes com a opção, não adesão superficial e destinada a cooptar preferência da clientela.

Algumas boas práticas podem inspirar o que pode ser feito para uma postura consequencialista. Uma delas é a da Nespresso. Acusada sobre o impacto ambiental de suas cápsulas, resolveu adotar uma política de sustentabilidade. Fez com que seus executivos passassem por um curso. Mediante parceria com a NYU Stern School of Business, desenvolveu formação para ensinar seus quadros quanto à sustentabilidade na indústria do café. Chegou a levar seus funcionários para visitar o programa de abastecimento sustentável nos cafezais da Costa Rica. Uma pena que não tenha sido o Brasil, que já fora o principal produtor de café, antes do grande episódio da quebra da Bolsa de Nova York em 1929.

Simultaneamente, patrocinou campanhas para reduzir o consumo energético em suas próprias sedes, assim como combater qualquer forma de desperdício.

A sofisticada Casa Santa Luzia faz uma coleta de pilhas, numa parceria com a Veggie. Na Ecobike, pode o cliente depositar pilhas alcalinas, pilhas comuns de ginco-manganês baterias portáteis e pilhas recarregáveis. As baterias de lítio não podem ser descartadas. Aquelas utilizadas em celulares e notebooks. As pilhas recolhidas são transportadas para uma destinação ambientalmente adequada.

A marca Ypê era uma tradicional aliada do meio ambiente. A Metra, grande empresa que explora transporte intermunicipal mantém áreas plantadas com manacá da serra, árvore nativa da Mata Atlântica, e conta com a orientação do cientista Paulo Sawaya.

Todos precisariam pensar em algo que devolvesse à natureza aquilo que dela extraímos de forma irresponsável, como se ela fora um supermercado gratuito. Tudo se retira, nada se repõe.

Alguns predestinados arrostam sozinhos as dificuldades e fazem aquilo que seria mais fácil para uma empresa, para uma entidade, para um grupo organizado, clube, ou até Igreja. São cidadãos preocupados com o desgaste do ambiente, que fazem de terrenos baldios um pequeno bosque, ou que já conseguiram prover de árvores toda a margem de um córrego destinado a desaparecer, como as centenas de outros que deram lugar ao asfalto para servir a quem? Prioritariamente, ao mais egoísta dentre os veículos, o automóvel.

Também há quem recupere sementes, procure devolver árvores que dão nome a bairros e hoje quase nada oferecem para lembrar sua origem. Como o Cambuci e Pinheiros, por exemplo.

Cidadãos prestantes e generosos, como o notável advogado Jayme Vita Roso mantêm, por sua própria conta e risco, áreas degradadas que foram recompostas com carinho e com vegetação nativa da Mata Atlântica, o bioma que mais sofreu nos últimos anos e que é, paradoxalmente, aquele que mais nos afeta.

O Brasil da desunião, da polarização, do ódio, do radicalismo, tem urgência em disseminar essa cultura de cidadania ecológica, para recuperar o conceito de que já fruiu há algumas décadas. Éramos a esperança do Globo, com nossos Paulo Nogueira Neto, Marina Silva, Chico Mendes, Fábio Feldman, idealistas que têm o seu nome na História do Ambientalismo tupiniquim.

Trabalhar com a natureza faz com que a sensibilidade e o humanismo tornem a habitar a consciência dos brasileiros, que sonham com dias melhores e que têm compromisso explícito em relação às futuras gerações. Basta a leitura atenta do artigo 225 da Constituição da República, o dispositivo considerado pelo mundo o mais belo já produzido para um pacto fundante no século XX e que, lamentavelmente, não merece observância por parte do governo federal.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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