Boni e a Educação

Boni e a Educação

José Renato Nalini*

19 de dezembro de 2020 | 08h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Na última sessão virtual da Academia Paulista de Letras deste insólito ano de 2020, tivemos a visita do José Bonifácio Oliveira Sobrinho, o legendário Boni, CEO da Rede Globo durante trinta anos.

O homem que revolucionou a TV brasileira e que a elevou a padrões internacionais, é reverenciado pelo tino, talento e audácia, mas nem sempre é reconhecido o seu mérito quanto à clarividência em relação ao maior problema brasileiro: a educação.

Ele não produziu apenas uma televisão que levou o noticiário a sério, alcançando patamares até superiores ao pináculo norte-americano. Deve-se a ele haver oferecido ao planeta a novela brasileira como valor de exportação até então inimaginável. O “padrão Globo” é sua grife e os trinta anos que permaneceu à frente do conglomerado representaram uma epopeia digna de ser eternizada. Conforme já tem sido enfatizado, inclusive em documentário e livro elaborado por ocasião de seus oitenta e cinco anos.

Todavia, para um Brasil que está na rabeira do mundo, ao menos se dermos crédito à avaliação PISA, elaborada trienalmente pela OCDE, cumpre ressaltar a visão pioneira de Boni quanto aos rumos a serem conferidos à educação.

Ele introduziu o Telecurso, que foi essencial para levar conteúdo consistente para este continente de tamanha complexidade. A despeito de resistências de toda ordem, algo comum àqueles que querem construir uma obra revolucionária, o Telecurso modificou o Brasil.

Agora, depois da pandemia, a receita de Boni para a educação híbrida precisaria merecer atenção dos homens de bem. Ele acredita que o ensino à distância veio para ficar. Nunca mais existirá uma escola exclusivamente presencial. A urgência da crise fez com que surgissem respostas de nível variado. Existem boas experiências, mas também sobram críticas. Estas são compreensíveis. Não são todos os lares os que são adequadamente providos de conectividade e de banda larga. E o amadorismo de grande parte do produto oferecido ao educando privado de conviver no ambiente escolar não seduziu seu destinatário.

Há profissionais talentosos que conseguem atender à demanda de excelente conteúdo. O problema é a escala. Assim como existem professores capazes de se servir com desenvoltura da internet e de fazer com que uma aula remota seja tão ou mais interessante do que a presencial.

Como acelerar o desenvolvimento dessas estratégias, para fazer com que o ensino híbrido – conjugar conteúdo à distância e discussão presencial – possa reduzir o gap educacional de que o Brasil padece?

Há três eixos a serem considerados: a formação de professores especializados. Eles já existem, mas não são devidamente aproveitados. Um excelente mestre de uma disciplina pode multiplicar o alcance de suas aulas mediante o uso do universo web. Os outros professores serão treinados para o acompanhamento junto ao alunado, seja de forma remota, mas como verdadeira aula particular, seja no recinto da sala de aula.

Distribuído e disponibilizado o conteúdo, a cargo desses comunicadores de alcance exponencial, os demais docentes seriam qualificados tutores dos discípulos. Prontos a resolver dúvidas, a orientar o aprendizado e a suprir eventuais deficiências ou superar distintos ritmos de apreensão da matéria.

O segundo eixo é a produção de conteúdo diferenciado. Missão de comunicadores, junto a especialistas, pedagogos e psicólogos, além de outros profissionais. O aluno tem de ficar extasiado com o material exibido. Tem de despertar sua curiosidade e manter sua atenção integral, o que não é difícil para expertos na área comunicacional.

O terceiro eixo é a aferição. De nada adianta ofertar material excelente, manter uma docência presente e atenta, se não houver aproveitamento por parte dos destinatários.

Tudo isso é perfeitamente possível. Seria utópico sugerir ao Governo que Boni fosse o Ministro da Educação. Mas não é impossível recrutá-lo para comandar um grupo de pessoas realmente empenhadas em alterar as estruturas carcomidas da escola pública. Livrá-la da burocracia fatal, do excesso de normatividade, da exauriente centralização, do desalento da maior parte dos envolvidos nesse processo essencial à retomada do desenvolvimento.

A sociedade civil, também responsável pela educação, conforme o artigo 205 da Constituição Cidadã, bem poderia articular um consistente movimento de reação à mesmice e de gerar o milagre da transformação da escola. Sem isso, de pouco adiantará escrever diagnósticos ou sugerir novas leis. A urgência é de ação. Não faltam boas cabeças e Boni é uma das melhores.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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