Entenda as diferenças dos casos Marielle e Adélio que Bolsonaro usou para contra-atacar Moro e negar interferência na PF

Entenda as diferenças dos casos Marielle e Adélio que Bolsonaro usou para contra-atacar Moro e negar interferência na PF

Enquanto o esfaqueador do presidente já foi julgado pela Justiça, com inquérito encerrado, investigações sobre morte da ex-vereadora seguem em grande parte sem explicações dois anos depois do atentado

Paulo Roberto Netto

28 de abril de 2020 | 16h19

O presidente Jair Bolsonaro citou os casos Adélio Bispo e Marielle Franco durante pronunciamento na última sexta, 24, quando tentou rebater as acusações de seu ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro. O ex-juiz da Lava Jato afirmou, mais cedo no mesmo dia, que o Planalto estava querendo substituir o comando da Polícia Federal para obter informações privilegiadas sobre investigações em andamento.

Bolsonaro afirmou que Moro teria se preocupado mais com o caso Marielle do que supostos mandantes do atentado que sofreu em setembro de 2018, em Juiz de Fora (MG), durante a campanha eleitoral. “Acho que todas as pessoas de bem no Brasil querem saber. Entendo, me desculpe senhor ex-ministro: entre meu caso e o da Marielle, o meu está muito menos difícil de solucionar. Afinal, o autor foi preso em flagrante de delito”, afirmou o presidente.

No entanto, ao contrário do que alega o Bolsonaro, o caso Adélio Bispo está mais resolvido que o da ex-vereadora carioca. Além do inquérito sobre o atentado estar concluído há dois anos, o réu ter confessado o crime e já ter sido julgado pela Justiça, o único inquérito que ainda tramita ligado à facada está parado aguardando decisão do STF.

O presidente Jair Bolsonaro, acompanhado dos ministros do governo, faz pronunciamento após demissão de Sérgio Moro. Foto: Joédson Alves / EFE

As investigações sobre o assassinato da vereadora, contudo, seguem em grande parte sem explicações. O Ministério Público do Rio ainda não identificou a motivação exata do crime, e tampouco os mandantes. Diversas linhas de investigações foram abertas, algumas já até foram deixadas de lado, mas poucas vieram à público. Os dois suspeitos de matar Marielle estão presos preventivamente, mas ainda não foram julgados.

Confira abaixo três pontos sobre o caso Adélio e o caso Marielle Franco:

Adélio agiu sozinho por ‘inconformismo político; Motivação para assassinato de Marielle continua explicação

Adélio Bispo: O inquérito da Polícia Federal sobre a autoria e o ataque de Adélio Bispo contra o então candidato Jair Bolsonaro foi concluído no dia 28 de setembro de 2018 – 22 dias depois do atentado. O relatório assinado pelo delegado da Polícia Federal Rodrigo Moraes Fernandes concluiu que Adélio Bispo agiu sozinho durante o crime e foi motivado por ‘inconformismo político’.

“No que tange à participação ou coautoria no local do evento, a partir das evidências colhidas, descarta-se o envolvimento de terceiros”, escreveu Fernandes.

Além de depoimentos de testemunhas, a PF recolheu imagens de câmeras de segurança do município de Juiz de Fora (MG), como agências bancárias, estabelecimentos comerciais e até imagens gravadas por participantes do ato pró-Bolsonaro. Ao todo, foram 2 terabytes de arquivos, sendo 150 horas de gravação, 1200 fotos, 250 GB de dados de aparelhos telefônicos e de notebooks, 600 documentos, 6000 mil mensagens instantâneas e 1060 mensagens de e-mails.

Adélio Bispo, após ser detido pela Polícia Militar no atentado contra o então candidato Jair Bolsonaro. Foto: PM-MG / Divulgação

Marielle Franco: As investigações sobre o atentado contra a vida da vereadora Marielle Franco seguem em andamento pela Polícia Civil (e não pela PF), e são sigilosos, com linhas de apurações sendo descartadas sem que outras sejam divulgadas. Atualmente, dois suspeitos (Ronnie Lessa e Élcio Queiroz) foram presos sob acusação de serem os executores do crime. Ambos negam participação no caso. A dupla será levada a júri popular ainda este ano, em data a ser definida na Justiça.

A motivação para o assassinato de Marielle ainda é desconhecida. Pessoas ligadas à ex-vereadora negam que ela estivesse recebendo ameaças. Uma hipótese aponta que o assassinato teria ligações à grilagem de terras na zona oeste do Rio, outra seria que a morte era um ‘recado’ para o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ), de quem era próxima. Uma discussão antiga entre Marielle e Carlos Bolsonaro, vereador do Rio de Janeiro e filho do presidente, levou a Polícia Civil a ouvir pessoas ligadas aos gabinetes.

As investigações do caso já citaram o Escritório do Crime, milícia comandada pelo ex-PM Adriano da Nóbrega, morto em março na Bahia e citado no caso Queiroz. Apesar disso, não foi revelado até que ponto a morte do ex-capitão teria ligações com o Caso Marielle nem tampouco ele foi considerado suspeito de ser executor ou mandante do crime.

A vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018. Foto: Renan Olaz / Câmara Municipal do Rio de Janeiro

Adélio Bispo foi julgado e absolvido; suspeitos de matar Marielle ainda vão à júri popular

Adélio Bispo: O juiz federal Bruno Savino, de Juiz de Fora, absolveu Adélio Bispo do crime em 14 de junho de 2019 por considerá-lo inimputável, ou seja, incapaz de responder pelos próprios atos. Apesar de inicialmente declarar que recorreria da decisão, o presidente Jair Bolsonaro não apresentou nenhum recurso. O mesmo fez o Ministério Público Federal, levando o caso a ser transitado em julgado (concluído).

Adélio foi diagnosticado com Transtorno Delirante Persistente e foi internado na Penitenciária Federal de Segurança Máxima de Campo Grande (MS). Recentemente, a Defensoria Pública e o Ministério Público Federal solicitaram e conseguiram a transferência de Adélio Bispo para o Hospital Psiquiátrico de Custódia Jorge Vaz, em Barbacena (MG), a 170 quilômetros de Belo Horizonte.

O motivo foi a falta de estrutura do presídio de Campo Grande para o tratamento psiquiátrico de Adélio.

Marielle Franco: Rossie Lessa e Elcio Queiroz serão julgados em júri popular, em data a ser definida. A decisão partiu do juiz Gustavo Kalil, da 4ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, tomada a quatro dias antes do crime completar dois anos.

A dupla será julgada por duplo homicídio de Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes e também pela tentativa de assassinato de uma ex-assessora de Marielle que estava no carro no momento do ataque e escapou com vida. Lessa e Élcio estão detidos preventivamente desde março do ano passado.

O policial militar reformado Ronnie Lessa, de 48 anos (à esquerda), e o ex-policial militar Elcio Vieira de Queiroz, de 46 (à direita), presos acusados de matar a vereadora Marielle Franco (PSOL) e o motorista Anderson Gomes Foto: Polícia Civil/AFP

Na decisão, o juiz afirmou que os dois ‘agiram por motivo torpe, armaram uma emboscada e dificultaram a defesa das vítimas’. A defesa alega que o Ministério Público e a Polícia Civil não apresentaram ‘indícios suficientes de autoria’ para justificar as acusações.

Investigações de Adélio e Marielle não identificaram, até o momento, mandantes dos crimes – nenhuma delas depende de ações da PF atualmente

Adélio Bispo: Apesar da rigorosa investigação do delegado Fernandes concluir que Adélio agiu sozinho, outro inquérito foi aberto para apurar quem financiou a defesa de Adélio. O caso levou à apreensão do celular do ex-advogado do esfaqueador, Zanone Manuel de Oliveira Júnior. A análise dos dados, contudo, não foi realizada, segundo a PF.

Por ordem do desembargador Néviton Guedes, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), foi suspensa a quebra de sigilo do celular do advogado. A decisão atendeu pedido da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que alegou violação da prerrogativa de sigilo profissional.

O caso não está nas mãos da Polícia Federal no momento. A decisão de Néviton Guedes foi submetida ao plenário do TRF-1, que em outubro de 2019 formou maioria para enviar o processo para decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Os autos foram encaminhados em março deste ano.

Policiais federais escoltam Adélio Bispo durante transferência para presídio de segurança máxima em Campo Grande (MS). Foto: Ricardo Moraes / Reuters

Marielle Franco: As investigações ainda não chegaram a identificar, até o momento, possíveis mandantes para o crime. Uma hipótese levantada por investigadores em Brasília, encabeçada até pela ex-procuradora-geral da República Raquel Dodge, citava o nome do ex-deputado estadual e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio Domingos Brazão.

O ex-parlamentar foi citado como integrante de milícia da zona oeste da capital fluminense. Dodge denunciou Brazão e pediu a federalização do caso após uma ‘investigação da investigação’ da Polícia Federal apurar tentativas de obstrução de Justiça por parte da Polícia Civil. A federalização está nas mãos do Superior Tribunal de Justiça, e a tendência, segundo ministros ouvidos reservadamente pelo Estado é manter o caso no Rio de Janeiro.

Investigadores de Brasília citaram o nome do ex-deputado estadual e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio Domingos Brazão. Ele e sua família são apontados como integrantes de milícias da zona oeste do Rio. No entanto, investigações tocadas por autoridades fluminenses descartam a hipótese de que ele seja o mandante do crime.

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