Bolsonaro silencia diante de ataque de Aras à Lava Jato? Por quê?

Bolsonaro silencia diante de ataque de Aras à Lava Jato? Por quê?

Professora Dayane Pimentel*

30 de julho de 2020 | 11h30

Professora Dayane Pimentel. FOTO: DIVULGAÇÃO

Quando vencemos as eleições naquele histórico 28 de outubro de 2018, cheios de esperança, imaginávamos que operações como a Lava Jato ganhariam ainda mais fôlego e se desdobrariam em outros braços Brasil a fora, servindo de exemplo e incentivo a membros do Ministério Público e a policiais nos estados para desbaratar mais e mais quadrilhas que assaltam os cofres públicos.

Grande engano e enorme decepção! Estamos há quase dois anos daquele dia de vitória, próximos de outro período eleitoral e vemos se repetir a ascensão das mesmas figuras que foram proeminentes no Mensalão e no Petrolão, integrantes do Centrão que agora une-se ao presidente Jair Bolsonaro. Ele somente assiste aos ataques que o procurador-geral da República, Augusto Aras, escolhido por ele e muito próximo a petistas, faz nesses dias à Operação que tirou do coração dos brasileiros o sentimento de impunidade e retirou do Planalto o grupo que assaltou o Brasil entre 2003 e 2018.

A pergunta que se faz ao presidente que, na época da indicação de Aras, ainda tinha como ministro da Justiça o ex-juiz Sérgio Moro, é: era difícil prever que, mais cedo ou mais tarde, Aras atacaria o legado da Lava Jato? Por que o silêncio de Bolsonaro? As pautas que serviram até 2018 agora não são mais interessantes? São obstáculos a quê ou a quem? Aras diz que há segredos mantidos pelos procuradores da força-tarefa em Curitiba-PR, mas o que havia, antes da Lava Jato, era o obsequioso silêncio das autoridades sobre a corrupção que corroía – e ainda corrói – a nação.

Além do ataque à Lava Jato, aos procuradores da República e ao ex-juiz Sérgio Moro, o país assistiu à ação do presidente e de seus filhos parlamentares lutando contra a CPI da Lava Toga, à conveniente paralisia do mesmo Planalto quando o STF derrubou a prisão em segunda instância (princípio de moralidade que Bolsonaro preferiu deixar de defender).

Sérgio Moro respondeu à acusação de Aras: a Lava Jato foi conduzida com transparência. E qual é o procurador-geral da República ou nos estados que fica sabendo dos detalhes de todas as ações conduzidas por promotores e procuradores? Cabe ao chefe do MP dar condições de trabalho aos membros dos órgãos; não ter controle sobre tudo o que é investigado, inclusive para que não haja interferências.

Na ação constante para minar a Lava Jato e o ex-juiz Moro, nesta quarta-feira (29), foi noticiada uma inusitada sugestão do ministro do STF Dias Toffoli para que juízes cumpram quarentena de oito anos se quiserem concorrer a cargos políticos. É uma ação coordenada contra Moro? Todos aqueles que, ainda no governo, foram vistos como possíveis adversários de Bolsonaro, sofreram a fritura da militância bolsonarista. Tudo isso é muito triste. Em suma, menos de dois anos depois, entendo que quem conta com Augusto Aras para enfraquecer a Lava Jato e quem conta com Dias Toffoli para inviabilizar a candidatura de Moro em 2022 pode ser tanto Lula quanto Bolsonaro. A maior diferença entre esses dois seres em 2018 hoje é a principal semelhança.

Há mais de cem anos, o grande jurista baiano Rui Barbosa (1849 – 1923), em famoso discurso no Senado, salientou que a “a corrupção, senhores, desanima o trabalho, a honestidade, o bem; (…) promove a desonestidade, promove a venalidade, promove a relaxação, insufla a cortesania, a baixeza, sob todas as suas formas”. Embora o discurso do jurista permaneça atualíssimo, não podemos permitir que novos Rui Barbosas percam a esperança. É preciso lutar por justiça.

*Professora Dayane Pimentel é deputada federal pelo PSL/BA

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