Bolsonaro faz maratona de eventos em Alagoas com adversários de Renan Calheiros

Bolsonaro faz maratona de eventos em Alagoas com adversários de Renan Calheiros

Viagem acontece após um bate-boca entre o senador Flávio Bolsonaro e o relator da CPI da Covid. Presidente deve participar de inauguração de viaduto em Maceió que já foi inaugurado pelo governo estadual no ano passado

Lauriberto Pompeu/ BRASÍLIA

13 de maio de 2021 | 11h25

Presidente da República Jair Bolsonaro durante sua chegada a Maceió. Foto: Alan Santos/PR

O presidente Jair Bolsonaro participa nesta quinta-feira, 13, de três eventos em Alagoas, terra do senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI da Covid e que tem se transformado em um rival do Palácio do Planalto. O presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), faz parte da comitiva presidencial que se deslocou de Brasília para Maceió (AL) na manhã de hoje. Lira e Renan são adversários históricos na política alagoana. Uma tentativa de armistício entre os dois foi tentada em jantar promovido pela senadora Kátia Abreu (Progressistas-TO), mas, como o Estadão mostrou, a aproximação é difícil.

A agenda em Alagoas ocorre um dia após uma pesquisa do instituto Datafolha mostrar que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera a disputa pelo Palácio do Planalto com 41% das intenções de voto, contra 23% de Bolsonaro. O levantamento também apontou que o Nordeste é a região com maior rejeição a Bolsonaro – 62% dos consultados pela pesquisa afirmam que não votariam no primeiro turno no presidente.

Diante de uma placa que substituiu seu nome na mesa pelo número 428.7256, em alusão às mortes da pandemia no Brasil, Renan Calheiros respondeu os ataques que vem recebendo Bolsonaro na sessão da CPI que ouve Carlos Murillo, presidente da Pfizer na América Latina e ex-presidente da farmacêutica no Brasil.

“Eu quero dizer a esses pregadores que a minha resposta a todos esses ataques é esse número aqui, esse número aqui de vítimas da pandemias. Tirei meu nome e coloquei para que não haja dúvidas sobre o motivo pelo qual nós estamos aqui investigando. Se houve genocídio, se houve, quem é o responsável? Ou quem são os responsáveis?”

O convite a Bolsonaro partiu do prefeito de Maceió, João Henrique Caldas (PSB), adversário local de Renan Calheiros. O ex-presidente da República e atual senador Fernando Collor (Pros-AL), também adversário de Renan, acompanha o presidente.

Um dos eventos que Bolsonaro vai participar é a inauguração de um viaduto em Maceió. Acontece que a estrutura já havia sido inaugurada pelo governador de Alagoas, Renan Filho (MDB), no final de 2020. O governador, que é filho do senador Renan Calheiros, não acompanha a visita do chefe do Executivo.

“A obra é estadual. Isso é um ataque ao federalismo e ao Estado”, reclamou o relator da CPI da Covid.

Renan Calheiros afirmou que Bolsonaro não se defende das apurações da comissão e que o modo do governo agir é atacar. “Não tem linha de defesa, a linha de defesa do governo é atacar, querer levar a investigação para os estados. Ele não se defende, é por isso que está dando no que está dando. Ele reincide todo dia, hoje mesmo está em Alagoas, é uma resposta à CPI. Na história da República nunca houve uma invasão de competência como essa, presidente ir sem o governador inaugurar obra estadual. Não tem dimensão do papel dele”, disse o emedebista ao Estadão.

Ao chegar em Maceió, Bolsonaro publicou no Twitter um vídeo no qual é recebido por apoiadores. Sem máscara, o presidente é rodeado por uma multidão. O incentivo a aglomerações agrava a crise da covid e ajuda a propagar o vírus.

“Maceió/AL, agora. Um abraço meu Nordeste”, escreveu o presidente no Twitter, ao publicar vídeo sendo recepcionado por apoiadores na chegada ao aeroporto.

Ao ser questionado pelo Estadão sobre os eventos em que Bolsonaro participa com adversários de Renan Calheiros, o ministro da Cidadania, João Roma, se limitou a dizer: “os atos falam por si só”.

Desentendimento.

A visita de Bolsonaro a Alagoas motivou um desentendimento entre o senador Renan Calheiros e o senador governista Ciro Nogueira (Progressistas-PI). O emedebista reclamou da viagem presidencial durante a sessão da CPI e logo foi alvo de críticas de Ciro.

“Vejo na imprensa que o presidente da República embarcou em avião presidencial para Alagoas para inaugurar obra já inaugurada e para me atacar pessoalmente, como fez seu filho ontem aqui, e para atacar essa Comissão Parlamentar de Inquérito”, afirmou o relator da CPI.

Ao que Ciro Nogueira respondeu: “Qual a pertinência desse tipo de comentário? Relator entregue a relatoria que é melhor. Essa sua comunicação não tem pertinência nenhuma.Isso comprova a natureza política dessa CPI, infelizmente”.

Renan e Ciro são tradicionais aliados no Senado, mas a defesa do governo por parte do senador do Progressistas e a oposição por parte do emedebista, tem afastado os dois. “Não é o Ciro que conheço”, se queixou Renan.

Ao participar de entrega de conjuntos habitacionais na capital alagoana, Bolsonaro disse: “Sempre tem algum picareta, vagabundo, querendo atrapalhar. Se Jesus teve um traidor, temos um vagabundo inquerindo pessoas de bem no nosso país. É um crime o que vem acontecendo com essa nessa CPI”.

Wajngarten

A viagem do presidente para o Estado nordestino acontece um dia depois de a imagem do governo governo se desgastar ainda mais na CPI da Covid.  Em uma sessão marcada por bate-boca, xingamentos e até ameaça de prisão, o ex-secretário de Comunicação Social da Presidência Fábio Wajngarten admitiu à CPI da Covid que a carta na qual a empresa Pfizer se dispunha a negociar vacinas contra o coronavírus foi enviada ao governo em setembro de 2020 e ficou dois meses sem resposta. No depoimento, que durou mais de oito horas, Wajngarten caiu em contradição, negou ter chamado o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello de “incompetente” e irritou senadores.

Ontem, o relator da CPI, Renan Calheiros, disse mais de uma vez que pediria a prisão de Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação da Presidência, por falso testemunho. A posição de Renan provocou contrariedade do presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), até então seu aliado, e os dois acabaram discutindo. “Eu não sou carcereiro de ninguém”, reagiu Aziz. O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) entrou na sala e chamou Renan de “vagabundo”.

“Imagina a situação: um cidadão honesto ser preso por um vagabundo como Renan Calheiros”, afirmou Flávio, filho “01” de Bolsonaro, ao dizer que o relator queria transformar a CPI em palanque eleitoral. “Vagabundo é você, que roubou dinheiro do pessoal do seu gabinete”, retrucou Renan. “Vá se f…!”, devolveu Flávio, que foi denunciado por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa no processo das “rachadinhas”. Mais tarde, nas redes sociais, o presidente Jair Bolsonaro escreveu: “Com mais de 10 inquéritos no STF, Renan tem moral para querer prender alguém?”

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