Bolsonaro e Lincoln

Bolsonaro e Lincoln

Tarcísio Corrêa Monte*

31 de maio de 2019 | 07h00

Tarcísio Corrêa Monte. FOTO: DIVULGAÇÃO

Folheando os jornais essa semana, recordei de matéria que havia lido em abril deste ano: “Presidente Jair Bolsonaro coloca flores no Hall da Memória do Museu do Holocausto (Yad Vashem), em Jerusalém e afirma: ‘Aquele que esquece o seu passado está condenado a não ter futuro”.

Lembrei então dos ensinamentos do professor de História, Doutor pela Universidade de Yale, James West Davidson, autor de New Narratives in American History e A Little History of the United States, sobre a Guerra Civil Americana.

Também chamada de Guerra de Secessão ou Guerra Civil dos Estados Unidos, esta foi um conflito bélico civil ocorrido entre 1861 e 1865 nos Estados Unidos, depois de vários estados escravagistas do sul proclamarem sua separação e constituírem os Estados Confederados da América, identificados como ‘Confederação’ ou ‘Sul’.

Os Estados que não se insurgiram ficaram conhecidos como ‘União’ ou apenas ‘Norte’.

A conflagração iniciou devido à polêmica situação da escravidão. Os demais países do mundo com poderio político e econômico não se envolveram no período.

Depois de quatro anos de violentas batalhas, que causaram a morte de milhares de estadunidenses e acabaram com a maior parte das estruturas das atividades agroindustriais e de transporte do sul do país, a Confederação entrou em total derrocada, a escravidão foi extinta e um intenso processo de reorganização iniciou.

A integridade nacional foi recuperada e a proteção de direitos civis aos escravos libertos teve sua gênese.

Analisando este contexto histórico, Davidson ensina que, vitorioso no conflito, o presidente Lincoln então se manifestou em sua segunda posse como presidente, em março de 1865, proferindo talvez o mais brilhante pronunciamento já feito por um presidente americano.

A guerra já havia quase terminado, com o Norte se sagrando vencedor. Porém o presidente não declarou que a justiça estava do seu lado nem que Deus havia glorificado a sua conquista. A escravidão estava no núcleo da disputa, ele disse. Era de conhecimento comum. Porém, em suas palavras:

“Nenhuma das partes esperava que a guerra tivesse a magnitude ou a duração que alcançou (…) Cada parte previa uma vitória mais fácil e um resultado menos fundamental e desconcertante. Ambas as partes leem a mesma bíblia e rezam ao mesmo Deus, e cada uma delas evoca Seu auxílio contra a outra. Pode parecer estranho que alguns homens ousem pedir a ajuda de um Deus justo para arrancar seu pão do suor de outros homens; mas não julguemos para não ser julgados. Seria impossível atender às preces de ambas as partes, e nenhuma delas foi plenamente atendida. O Todo-Poderoso tem seus próprios desígnios”.

Quais eram esses desígnios Lincoln não disse nem poderia dizer. Ele se manteve sempre a favor da abolição da escravidão por acreditar que aquilo seria o certo, o mais íntegro e digno a ser feito, e mesmo quando vitorioso, ao final, ele buscou a união do país.

Dias antes de sua morte, em 14 de abril de 1865, assassinado quando assistia a uma peça no Teatro Ford, um general da União perguntou ao presidente Lincoln como o Sul conquistado deveria ser tratado. “Eu os deixaria tranquilos, deixe-os tranquilos”, respondeu. Lincoln tinha muito jeito com as pessoas. Estava sempre prestes a dialogar, tinha noção exata de quando devia ser firme e de quando seria melhor fazer concessões.

Voltando ao Brasil atual, dividido entre tantas tensões, percebe-se que a lição de Lincoln nunca esteve tão atual.

No domingo de 26 de maio passado, militantes pró-Bolsonaro removeram uma faixa em prol da Educação Pública que estava colocada à frente de um dos principais edifícios da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba. O prédio se localiza na praça Santos Andrade, localidade usual de protestos na capital do Paraná.

A fita, na qual se via ‘Em defesa da educação #OrgulhoDeSerUFPR #UniversidadePública #EuDefendo’, foi removida sob aclamação de militantes.

Foram realizados, então, muitos atos em prol do presidente Jair Bolsonaro em várias cidades pelo País. Os mais intensos protestos ocorreram em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. Entre as postulações, o êxito no Congresso do conjunto de leis anticrime do ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro e a realização da reforma da Previdência foram as mais destacadas.

Já no dia 30 de maio recente, alunos e docentes de escolas públicas e privadas voltaram às ruas, estradas e praças em todas as regiões do país para praticar sua segunda manifestação contra os contingenciamentos de recursos para a educação realizados pelo governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL).

No dia 15 deste mês, num primeiro momento, atos contrários a tal restrição orçamentária já haviam sido realizados em todas as capitais e no Distrito Federal, além de outras cerca de 145 cidades.

Verbas para todas as fases de ensino, da educação infantil à pós-graduação, foram diminuídas ou bloqueadas pelo poder público federal. A providência compreende recursos para transporte de alunos, cursos técnicos, edificação de escolas e bolsas para pesquisa e extensão.

O presidente chegou a qualificar quem foi às ruas no primeiro protesto de imbecis e ‘idiotas úteis’ manipulados como ‘massa de manobra’. Todavia, 7 dias após as manifestações, repôs parte da verba contingenciada da área.

Nesse contexto, nota-se que os ensinamentos da História estão aí para ser aprendidos. Toda espécie de decisão é melhor tomada, quando analisados os vários ângulos e pontos de vista. Mesmo que seja para ao final não as seguir, saber ouvir e refletir considerando todas as opiniões em jogo, proporciona sempre uma decisão melhor do governante, tanto de um ponto de vista epistemológico quanto democrático.

Eleição não é guerra. Uma vez terminada, o tecido social deve ser cicatrizado após a disputa, através de condutas que promovam a união do país.

Como já escreveu, pois, J.D. Salinger no clássico O Apanhador no Campo de Centeio: “A característica do homem imaturo é aspirar a morrer nobremente por uma causa, enquanto que a caraterística do homem maduro é viver humildemente por uma causa”.

Que em nosso país possamos, então, viver em busca de união em prol das causas justas e certas.

*Tarcísio Corrêa Monte, juiz federal, mestre e doutorando pela Universidade de Sevilha (Espanha) na Área de Pesquisa Constituição, Estado e Democracia

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