Bolsonaro e a seletiva de imprensa

Bolsonaro e a seletiva de imprensa

Rodrigo Augusto Prando*

07 Novembro 2018 | 12h00

Rodrigo Augusto Prando. Foto: Arquivo Pessoal

Reverbera, nas redes sociais, o comentário que Bolsonaro não concede as chamadas entrevistas coletivas de imprensa, mas sim as “seletivas de imprensa”, escolhendo quais os veículos de mídia e os jornalistas que poderão lhe ouvir e questionar. Tal fato, por si só, reclama uma reflexão pautada num dos alicerces da democracia: a livre manifestação do pensamento e a liberdade de imprensa. Vejamos.

No domingo, dia da votação do segundo turno, logo após a confirmação matemática da eleição de Jair Bolsonaro, a imprensa aguardou as declarações do Presidente eleito. Na ocasião, participava, junto a dois renomados jornalistas, da cobertura do pleito e ambos, tão logo Bolsonaro fez suas declarações, enfatizaram que estas vieram pelas redes sociais e não, tradicionalmente, pelas emissoras de televisão. Ali, já pressentiam, teria continuidade uma prática já apresentada na campanha: Bolsonaro, muitas vezes, recusou-se a conceder entrevistas ou, até mesmo, escolhia os jornalistas para os quais gostaria de falar. Ruim, certamente, mas era campanha política. O problema, creio eu, é manter essa dinâmica na condição de presidente eleito e, mais grave, depois de empossado. A imprensa passou – e assim deveria ser – anos fazendo críticas a Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma.

Claro que alguns jornais “batiam” mais em um do que em outro, todavia, sempre estavam a desnudar os poderosos da vez, suas contradições, idiossincrasias e fragilidades, sejam as discursivas ou as de gestão e política. Fernando Henrique Cardoso em seus “Diários da Presidência”, por exemplo, passa tempo considerável reclamando da imprensa, de sua, segundo ele, incompreensão do processo político e de implicância com ele. Lula, por sua vez, teve, até, um dicionário publicado com análise de conteúdo de suas falas. E, por fim, Dilma teve seus discursos compilados numa obra ironizando uma nova língua: o “dilmês” – o idioma da mulher sapiens. Ou seja, ninguém, nenhum presidente, escapou do escrutínio da mídia e de seus profissionais. Não será diferente com Bolsonaro.

Assim, na condição de presidente eleito ou empossado, Bolsonaro deverá fazer, para ele, um hercúleo esforço de compreender que, numa democracia, as ideias, sejam favoráveis ou contrárias, circularão, quer queira ou não. No bojo dos “Princípios da Administração Pública” há os seguintes elementos: princípio da legalidade, princípio da impessoalidade, princípio da moralidade e princípio da publicidade. São, portanto, estes princípios conjugados que deverão balizar as condutas do futuro presidente, especialmente, no que tange à relação com imprensa e da alocação das verbas federais de publicidade aos veículos de comunicação. Ao querer punir um jornal, o presidente eleito acaba, essencialmente, punindo os leitores daquele veículo, sejam ou não os seus eleitores. Em suas falas, já amainadas, Bolsonaro afirmou que governaria para todos os brasileiros, então, por isso, respeitar todos os veículos de comunicação é respeitar a todos, inclusive seus críticos.

Cercear a imprensa não será uma boa escolha. Há jornais e jornalistas que não gostam de Bolsonaro e seu estilo, como, também, há jornais e jornalistas, aqui e fora do Brasil, que gostam dele. Não convém, aqui, nestas plagas, imitar a postura de Donald Trump. Bolsonaro não é o “Trump tropical”. Embora existam semelhanças, os presidentes dos EUA e do Brasil são de trajetórias distintas e não podem ser entendidos sem a compreensão da singularidade histórica e sociológica das sociedades que lhes dão sustentação real. Trump – e Bolsonaro parece seguir a tendência – usa demasiadamente as redes sociais. Não há grandes problemas nisso, entretanto, não se pode, ao usar as redes sociais, iniciar um “populismo digital” ou um “plebiscitarismo virtual” em detrimento das outras instâncias do poder político e nem atacar adversários ou opositores numa eterna campanha.

Agora, em relação à mídia convencional – jornais escritos, televisão e rádio – os impactos da sociedade conectada em rede já são sentidos há tempos. Antes, havia equipes de reportagens, hoje, um único profissional, com seu celular, faz tudo e ao vivo. Antes, as redações dos jornais contavam com centenas de jornalistas e revisores de textos, hoje, alguns poucos dão conta daquele volume de trabalho. Há os profissionais que têm ótimas fontes, sempre trazem furos de reportagem excepcionais. Talvez, no novo Governo Bolsonaro, esses profissionais sejam mais raros e os furos escassos. Bolsonaro já afirmou que em relação ao seu novo Ministério, as informações serão postadas em suas redes e todo o resto são meras especulações. Novos tempos, por certo.

Afirmei, em escritos passados, que Bolsonaro deve, aos poucos, despir-se dos trajes de candidato e de seu discurso e incorporar, com a faixa presidencial, a liturgia que o cargo exige. Salvo melhor juízo, há uma afirmação, em entrevista, de Fernando Gabeira, que Bolsonaro deve ser compreendido distanciando-se de preconcepções, como por exemplo, rotula-lo de “nazista” ou “fascista”. E, ainda segundo Gabeira, que Bolsonaro não é o mais preparado para governar o Brasil, mas que será preparado no exercício do mandato. Cronista da cena política, espero que Gabeira tenha razão. A convivência – na Câmara dos Deputados – e o diálogo entre Gabeira e Bolsonaro traz, no meu modesto entendimento, esperanças.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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