Bolsonaro disse que precisava de um delegado ‘mais ativo’ no comando da PF, segundo general Heleno

Bolsonaro disse que precisava de um delegado ‘mais ativo’ no comando da PF, segundo general Heleno

Segundo o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, o presidente cobrava mais agilidade da Polícia Federal 'pois tomava conhecimento de informações pela imprensa, e não oficialmente'; general também disse considerar 'natural' escolha de 'nome próximo' para chefia a corporação

Fausto Macedo e Paulo Roberto Netto

12 de maio de 2020 | 21h29

O ministro Augusto Heleno (GSI) afirmou à Polícia Federal que o presidente Jair Bolsonaro lhe teria dito, ‘em uma ou outra oportunidade’, e na presença do ex-ministro Sérgio Moro, que precisava de alguém ‘mais ativo’ no comando da Polícia Federal. O ministro também disse achar ‘natural’ a escolha de uma ‘pessoa próxima’ para exercer a chefia da corporação.

“Mais ativo no sentido de maior produtividade, o que não envolveria maior produção de relatórios de inteligência ainda que isso possa estar incluído no conceito de produtividade”, esclareceu o ministro.

Sobre a indicação de Alexandre Ramagem, Heleno afirmou considerar ‘natural’ que o presidente da República ‘queria optar por uma pessoa próxima’ para comandar a Polícia Federal, mas que a indicação se deveria à ‘eficiente administração de Ramagem’ em frente à Abin, relatada pelo próprio Heleno a Bolsonaro ‘em diversas oportunidades’.

Segundo Heleno, a relação entre Bolsonaro e Ramagem ‘não extrapola os limites de uma vinculação profissional entre chefe e subordinado’, mas que também ‘natural’ que haja ‘uma proximidade’ de Ramagem com o presidente e seus filhos, visto que o delegado foi encarregado da segurança pessoal de Bolsonaro durante a campanha eleitoral.

O ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno. Foto: Dida Sampaio / Estadão Conteúdo

Heleno disse que chegou a conversar tanto com Moro quanto Bolsonaro sobre a troca de Valeixo por Ramagem. O nome do diretor da Abin, na visão do presidente, ‘daria um novo ânimo à Polícia Federal’. O ministro disse ter visto, pelas conversas, que ‘o processo se caracterizava por idas e vindas’.

Segundo Heleno, Moro disse que o presidente não tinha ‘elencado motivos’ que justificassem a troca de comando da PF. O ex-juiz estaria ‘irresignado’ com a mudança na chefia da PF.

“Em uma dessas oportunidades, disse ao ex-ministro Moro que por se tratar de uma atribuição legal do presidente da República, os motivos deste não precisariam ser os mesmos que o ministro Moro acharia relevantes”, afirmou Heleno, que disse que se ‘tentaria falar’ com Bolsonaro sobre o caso como ‘gesto de amizade’, mas sabendo que o presidente já estava determinado em fazer a troca de diretor-geral.

“O depoente nunca teve conhecimento de nenhuma missão específica que o presidente da República quisesse atribuir a Alexandre Ramagem no comando da Polícia Federal, seja no Rio de Janeiro, seja em Minas Gerais ou em qualquer Estado da federação, podendo apenas afirmar que o Presidente tem grande admiração por Ramagem pelo fato de tê-lo visto atuar em sua segurança pessoal e na Direção-Geral da Abin”, apontou o depoimento.

Agilidade e desempenho.O chefe do GSI informou à PF que ‘não tem conhecimento’ dos detalhes discutidos entre Moro e Bolsonaro a respeito de troca de comando da superintendência regional no Rio de Janeiro. Ele sabia, apenas, que ‘o presidente cobrava maior desempenho da Polícia Federal do Rio de Janeiro no combate à corrupção, inclusive envolvendo hospitais federais’.

Bolsonaro também teria se queixado sobre envolvimento de seu nome no depoimento do porteiro do condomínio Vivendas da Barra, segundo Heleno. O presidente teria reclamado da ‘demora da investigação’ sobre o caso. O ministro disse que não sabe informar ‘se essa atribuição seria ou não da Polícia Federal ou da Polícia Civil’.

Em relação à reunião ministerial do dia 22 de abril, Heleno informou que Bolsonaro cobrou ‘de forma generalizada todos os ministros na área de inteligência’. A reclamação seria por ‘escassez de informações de inteligência que lhe eram repassadas para subsidiar suas decisões, fazendo citações específicas à sua segurança pessoal’, mencionando a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), a Polícia Federal e o Ministério da Defesa.

“O presidente, na reunião do dia 22 de abril, menciona o exemplo de sua segurança pessoal, que se estivesse falha, tentaria trocá-la; e que se não conseguisse, trocaria o chefe, podendo chegar ao diretor e até o ministro”, disse.

Questionado se a PF estaria deixando de atender pedidos de inteligência, Heleno respondeu que a corporação estava ‘atendendo pedidos feitos pelos canais adequados’. “Mas que havia uma cobrança do presidente por maior agilidade, pois às vezes, o presidente tomava conhecimento de informações pela imprensa, e não oficialmente”.

 

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