Bolsonaro: da retórica à prática

Bolsonaro: da retórica à prática

Rodrigo Augusto Prando*

22 Novembro 2018 | 12h00

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

O exercício da crítica aos poderosos, aqui e alhures, quase sempre foi fruto da análise fundamentada e da ironia ácida dos jornalistas, acadêmicos e intelectuais públicos. Mas, também, do homem simples que, em sua consciência ingênua, capta as fragilidades e incoerências da fala e da prática dos políticos.

A última eleição foi, como sabemos, ambiente polarizado e de divulgação de ideias e propaganda pelas redes sociais. E, nas redes, uma linguagem superficial em conteúdo e forma tomou vulto na construção de memes e momentos de “lacração”. Especialmente, aqui, que Bolsonaro pairou olimpicamente em relação aos seus adversários, sendo o mais beneficiado pela força das redes sociais e WhatsApp. Claro que houve, por parte dos adversários, contra-ataque via memes tentando desconstruir Bolsonaro, contudo, era tarde e o território já havia sido tomado pelo ex-capitão.

Presidente eleito, Bolsonaro tem, aos poucos, se esforçado para dar forma a seu governo vindouro. Tem percebido a diferença, substancial, diga-se, da retórica e da prática; da fala de candidato e da fala de presidente, cujas consequências já podem ser, concretamente, mensuradas. Ainda candidato, afirmava que um presidente não precisa saber de tudo, pois teria assessores e ministros especialistas em suas áreas. Tinha razão. Nenhum presidente domina o vasto saber atinente à administração do Estado. Um presidente deve, acima de tudo, saber liderar. O exercício da liderança exige qualidades intelectuais, técnicas, morais e políticas. Um chefe, por exemplo, manda e os subordinados obedecem; o líder coordena, constrói consensos e guia pelo exemplo. O chefe precisa de cargo para mandar; a liderança é exercida independente de cargos e funções formais, pois ela inspira, motiva. Na política abundam os chefes e rareiam os líderes. Assim, o novo presidente, mesmo não sabendo de tudo, deve aprender a liderar e que essa ação reclama bom senso, ponderação e capacidade de compreender a dimensão final – a consequência – de cada fala, de cada declaração, das brincadeiras, das piadas, etc.

Um dos maiores acertos políticos de Bolsonaro foi o convite e o aceite de Sérgio Moro para o Ministério da Justiça. A política vive de símbolos e, por isso, a simbologia de Moro no combate à corrupção e como maior algoz de Lula é forte, robusta. Firma-se o discurso proferido por Bolsonaro durante a campanha. Os outros ministros já anunciados não trouxeram grandes ruídos. O maior ruído e críticas, entretanto, deu-se na indicação do futuro Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, bem como nas intervenções em que Bolsonaro trata de temas afeitos à diplomacia.

No ambiente do Itamaraty, Araújo é tido como inexperiente para tal empreitada. E, como não poderia deixar de ser, suas publicações, palestras e entrevistas foram trazidas à tona pela imprensa, cujas ideias podem ser entendidas como pouco ortodoxas e, em alguns casos, desconexas com a realidade do século 21 e, até, em conflito com o poderoso ministro Paulo Guedes. Ainda na seara internacional, a fala do presidente eleito de que tinha intenção transferir a embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, trouxe mais do que mal-estar, mas sim as primeiras retaliações diplomáticas e problemas de ordem geopolítica que extravasam uma simples mudança de endereço.

E, não nos esqueçamos, ainda na campanha, quando Bolsonaro afirmou que a “China não estava comprando no Brasil, mas comprando o Brasil”. Imediatamente, os chineses responderam de forma mais dura e deixaram claro sua posição como a principal parceira comercial do Brasil e que conflitos não interessariam a nenhum dos países. Em síntese, a cada verbalização não ponderada de Bolsonaro e daqueles que lhe são próximos no que tange às relações internacionais, não se tem, apenas, problemas na imagem do país, mas, também, problemas internos com seus apoiadores – como o agronegócio, gigantesco exportador – que acabam perdendo comercialmente com as retaliações dos países que se sentem atingidos no presente ou futuro.

Juscelino Kubitschek, certa feita, afirmou que costumava voltar atrás, sim, pois não tinha compromisso com o erro. Bolsonaro, muitas vezes, tem percebido o erro em suas ideias e falas e tem voltado, reconsiderado. Ponto para ele. Dilma Rousseff – escrevi num artigo – não apenas tinha compromisso com os erros, como era bastante fiel a eles, já que nunca os reconhecia ou voltava atrás. A presidência da República exige muito conhecimento político e, nisso, a personalidade do presidente também está presente. Uma personalidade plástica, moldável às várias situações, é preferível do que a dureza inquebrantável das certezas que se creem absolutas.

Paulatinamente, Bolsonaro está se dando conta de que há uma distância oceânica entre a retórica política e prática administrativa. Tem percebido que as consequências das ideias e falas afetam – na imagem e economicamente – o País. O exemplo do fim do Programa Mais Médicos é significativo. A saída dos médicos cubanos e o impacto na vida do brasileiro mais pobre não será revertida nas redes sociais, com memes afirmando que os médicos aqui estavam em condição de “escravidão”. A popularidade do presidente eleito será, imediatamente, testada na resolução de um problema por ele criado por conta de suas posições ideológicas. O doente não se importa com ideologia, de esquerda ou de direita, preocupa-se com a dor, com o remédio e com a presença de um médico, seja brasileiro, cubano ou finlandês.

Saber voltar atrás é uma virtude. Agora, avançar e recuar constantemente indica, no meio militar, falta de estratégia e tática. O novo governo – ainda que não empossado – acaba por receber críticas, como uma que acabou se tornando meme, com os seguintes dizeres, de uma jovem, que me chegou na rede social: “Me identifico muito com o governo Bolsonaro. Não tenho noção do que estou fazendo na vida, tomo decisões e depois volto atrás, finjo ter controle das coisas, mas estou mais perdida que cega em tiroteio”. Essa não é uma crítica de intelectuais ou jornalistas, mas captura espetacularmente o momento em tela.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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