Boas novas ecológicas

Boas novas ecológicas

José Renato Nalini*

04 de novembro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Para quem considera pessimista o meu discurso ecológico, trago algumas boas novas. Poucas, no contexto geral de extermínio da natureza. Mas, pelo menos, não podem ser catalogadas no rol catastrofista.

A mais importante é a criação do “Brasil Verde”, um consórcio formado por Governadores que assumem sua responsabilidade e compensam a antipolítica ambiental federal. O pequeno entrave é a questão da contribuição, que – em lugar da cota fixa a cada Estado – deverá ser fixada em proporção à receita corrente líquida, estratégia já adotada no Consórcio Nordeste.

Que gratificante saber que vinte e um dos vinte e sete governadores vão participar dessa iniciativa redentora, cujo primeiro Presidente deverá ser Renato Casagrande, governador do Espírito Santo. Também é relevante saber que cada bioma terá um coordenador, encarregado de priorizar a realidade ambiental regional. Amazônia, Caatinga, Cerrado, Pantanal, Mata Atlântica e Pampa, todos terão tratamento diferenciado.

O Consórcio Brasil Verde vai se apresentar em Glasgow, tentando mostrar que nem tudo nesta terra é extermínio da cobertura vegetal, incêndio provocado, invasão de reservas indígenas e desfaçatez. Não será fácil eliminar o rótulo de “Pária ambiental”, que o Brasil conquistou nestes dois fatídicos anos.

A outra boa nova é a criação da Gallery Climate Coalition, a GCC, que é uma organização internacional que criou manuais e metas para ajudar seus membros a reduzir o impacto ambiental na área das artes plásticas. Estas, na verdade, pouco se preocupavam com a “pegada ecológica”, pois continuaram a comparecer a inúmeras feiras, com viagens de avião, gasto de energia e transporte de obras embaladas com toneladas de plástico e madeira.

A ideia é reduzir, até 2030, ao menos 50% de suas taxas de emissão de carbono atuais e se aproximem do desperdício zero de materiais. Isso passa pela mudança de combustíveis de geradores, usar navios em lugar de aviões, preferir deslocamentos terrestres, inclusive de trem, quando possível.

Uma galeria de arte não deve ser exclusivamente um ponto de vendas de obras criadas por gênios, por transformadores da realidade, mas deve ser uma usina de orientação comportamental. Os artistas são sensíveis e sabem interpretar, de maneira muito eloquente, o que ocorre no mundo, e que nem sempre é apercebido pelo comum dos mortais. Uma obra de arte penetra fundo n’alma das pessoas sensíveis.

Essa preocupação também habita a consciência de outros setores que despertaram para a urgência da questão ecológica. Dentre eles, as delegações extrajudiciais dão o exemplo. Há vários anos a ARISP – Associação dos Registradores Imobiliários de São Paulo realiza uma campanha de sustentabilidade que é bem prestigiada pelas centenas de serviços registrais paulistas que, por si mesmos, são repositórios de valiosas informações ecológicas.

Uma terceira boa nova é o protagonismo das cidades na COP-26. Os governos subnacionais têm vez e sua importância é muito maior quando a União Federal se afasta dos ditames explicitados na Constituição da República. Temas como frota elétrica de ônibus para redução de gases causadores do efeito-estufa e proteção de mananciais estão na pauta. No caso de São Paulo, mais do que proteger, é preciso ressuscitá-los, eis que centenas de cursos d’água foram sepultados para ceder espaço para veículos. Será que um dia teremos uma cidade como Cingapura, com riachos límpidos correndo entre os passeios?

Uma conurbação insensata quanto São Paulo, tem problemas graves de mobilidade. Quase toda a frota de ônibus é ainda movida a combustível fóssil. A proposta de eletrificação poderia ser mais expedita, pois os ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU são bem antigos. A meta é para 2030 e, mesmo assim, só metade da frota.

Um dos projetos interessantes é contar com mais de setecentas escolas providas por energia solar, que também será levada às UBS- Unidades Básicas de Saúde. Todavia, o mais importante de tudo é investir em educação ambiental para todos – algo que a Constituição já determina, desde 1988 e que nunca foi levado a sério. A infância é a fase mais sensível, mais própria à absorção dessa consciência ecológica. É comum constatar que filhos menores advertem os pais e outros adultos, quando têm comportamento inadequado em relação ao ambiente.

Estados-membros e municípios têm o que mostrar na COP-26. Mas que não seja apenas durante a Conferência da ONU. Essa política ESG, com preocupação conjunta e simultânea pelo ambiente, pela redução das desigualdades e por uma governança corporativa que, para o poder público, deve ser traduzida por gestão inteligente, é algo que precisa entrar na consciência coletiva e perdurar enquanto o mundo precisar de zelo e cuidado, para continuar a nos servir de único habitat disponível.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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