BNDES diz que ‘não identificou fato relevante’

BNDES diz que ‘não identificou fato relevante’

Em nota, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, cujo ex-presidente Luciano Coutinho foi indiciado pela PF por crime contra o sistema financeiro, quadrilha, lavagem de dinheiro e patrocínio de interesses privados, destaca que instaurou apuração interna e que as conclusões foram publicadas em suas demonstrações em 30 de junho

Fausto Macedo e Julia Affonso

24 de agosto de 2018 | 14h06

Foto: Fábio Motta/Estadão

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) afirmou nesta sexta-feira, 24, que ‘não identificou nenhum fato relevante’ em investigação interna sobre supostas operações financeiras ilícitas para favorecer a JBS. Em nota, o BNDES destacou que instaurou uma Comissão de Apuração Interna sobre o caso e que ‘não identificou nenhum fato relevante, conforme consta de suas demonstrações financeiras publicadas em 30 de junho deste ano’.

Nesta quinta, 23, a Polícia Federal concluiu o inquérito da Operação Bullish e indiciou o ex-presidente do banco Luciano Coutinho por supostamente participar de esquema que teria provocado um rombo de R$ 1 bilhão.

A PF indiciou Coutinho por crime contra o sistema financeiro, quadrilha, lavagem de dinheiro e patrocínio de interesses privados perante a administração pública, valendo-se da qualidade de funcionário.

Além de Coutinho, a PF enquadrou criminalmente o empresário da JBS Joesley Batista e os ex-ministros da Fazenda nos Governos Lula e Dilma, Antônio Palocci e Guido Mantega.

Joesley foi indiciado por crime contra o sistema financeiro, corrupção ativa e lavagem de dinheiro. Palocci por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Mantega, que a PF afirma ter feito o papel de ‘agente duplo, por crimes contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro, quadrilha e corrupção passiva.

Sobre o ex-presidente do BNDES, a PF pontuou no relatório final. “Desse modo, e por todo o conjunto de provas materiais e testemunhais, conclui-se que o ex-presidente Luciano Galvão Coutinho aceitou e assumiu a tarefa de encabeçar a instituição com o intuito de garantir a continuidade de um ciclo de retroalimentação de propinas, inaugurado na gestão de Guido Mantega à frente do BNDES. Reitere-se que as doações apenas foram possíveis com investimentos muito maiores do que o necessário para atingimento das finalidades de internacionalização da JBS S/A.”

O banco, na nota divulgada nesta sexta, afirmou que ‘tomou conhecimento pela imprensa dos recentes desdobramentos da Operação Bullish’.

“O banco ainda não teve acesso ao relatório da Polícia Federal. A instituição sempre colaborou com as autoridades e continuará prestando todas as informações solicitadas nas demais etapas do processo, que agora será avaliado pelo Ministério Público Federal”, diz o texto.

O BNDES informou, ainda, que também contratou uma auditoria internacional independente, conduzida pelos escritórios Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP, dos EUA, e o brasileiro Levy & Salomão, ‘com largas experiências em temas financeiros complexos, para aprofundar as investigações internas e dar maior segurança às suas informações financeiras, auditadas pela KPMG e Grant Thornton’.

“O Banco acompanha o trabalho da Polícia Federal, do Ministério Público, do Poder Judiciário e das instituições de controle do Estado brasileiro, na crença de que, ao final, os fatos serão adequadamente esclarecidos à sociedade”, afirma a instituição.

O BNDES destacou que ‘reitera a confiança na impessoalidade de seus processos colegiados e na integridade de seu corpo técnico’.

Sobre Mantega, a PF cravou. “O papel do ex-ministro Guido Mantega foi o de um verdadeiro agente duplo, pois, ao mesmo tempo em que era o ‘gerente de projeto’ da internacionalização da empresa Friboi – JBS S/A., desde a concepção inicial do projeto, era também o responsável pela edição de atos e políticas governamentais que garantiram a execução desse projeto.”

Em outro trecho do relatório da Operação Bullish, a PF ainda diz sobre Mantega. “Por, na condição de ministro da Fazenda, ter favorecido em decisões macroeconômicaas do Governo a empresa Friboi- JBS S/A ao mesmo tempo em que atuava como uma espécie de lobista do empresário Joesley Mendonça Batista no Governo Federal (agora sem a atuação de intermediários), promovendo reuniões junto ao ex-presidente do BNDES, Luciano Galvão Coutinho, e gestores de Fundos de Investimento, acelerando tramitações, destravando eventuais embargos que surgissem nos projetos de investimento, conforme narrativa de Joesley Mendonça Batista, corroborada pelas provas colhidas nos autos e também na Operação Sépsis, compartilhadas com essa investigação.”

A PF destaca o que a levou a indiciar Palocci. “Em razão de ter recebido da JBS S/A o valor de quase R$ 2,5 milhões, enquanto exercia o mandato de deputado federal da base do Governo, a título de ‘consultoria’, em contratos firmados com a Projeto Consultoria, representada por sua secretária, Rita de Cássia dos Santos.”

COM A PALAVRA, BNDES

“O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tomou conhecimento pela imprensa dos recentes desdobramentos da Operação Bullish. O banco ainda não teve acesso ao relatório da Polícia Federal. A instituição sempre colaborou com as autoridades e continuará prestando todas as informações solicitadas nas demais etapas do processo, que agora será avaliado pelo Ministério Público Federal.

O BNDES instaurou uma Comissão de Apuração Interna sobre o caso, que não identificou nenhum fato relevante, conforme consta de suas demonstrações financeiras publicadas em 30 de junho deste ano. O Banco também contratou uma auditoria internacional independente, que está sendo conduzida pelos escritórios Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP, dos EUA, e o brasileiro Levy & Salomão, com largas experiências em temas financeiros complexos, para aprofundar as investigações internas e dar maior segurança às suas informações financeiras, auditadas pela KPMG e Grant Thornton.

O Banco acompanha o trabalho da Polícia Federal, do Ministério Público, do Poder Judiciário e das instituições de controle do Estado brasileiro, na crença de que, ao final, os fatos serão adequadamente esclarecidos à sociedade. Por fim, o BNDES reitera a confiança na impessoalidade de seus processos colegiados e na integridade de seu corpo técnico.”

Assessoria de Imprensa

COM A PALAVRA, LUCIANO COUTINHO

“O ex-presidente do BNDES, Luciano Coutinho, manifestou total surpresa em relação à decisão da Polícia Federal e reitera que todos seus atos e procedimentos frente à administração pública sempre foram pautados pelo rigor de conduta, integridade, impessoalidade e respeito à lei. Ele não teve acesso ao relatório da PF e aguarda o desenrolar das investigações com tranquilidade”.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE GUIDO MANTEGA

A reportagem fez contato com a defesa do ex-ministro Guido Mantega. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE ANTONIO PALOCCI

A reportagem está tentando localizar a defesa do ex-ministro Antonio Palocci. Espaço aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO ANDRÉ CALLEGARI, DEFENSOR DE JOESLEY

“A investigação contou com a colaboração de Joesley Batista para a elucidação dos fatos. Além do conteúdo trazido no acordo firmado com o Ministério Público, o colaborador apresentou neste inquérito detalhes de todos os fatos ilícitos dos quais tinha conhecimento. Mais de 10 horas de depoimentos foram prestadas por Joesley Batista à PF e todas as provas requisitadas foram apresentadas, cumprindo integralmente sua parte no acordo de colaboração. Espera-se que, passada a fase policial, o Ministério Público igualmente cumpra com as obrigações assumidas”.

Tudo o que sabemos sobre:

BNDES

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.