Bergson e a liberdade: ser consciente é ser virtualmente livre?

Bergson e a liberdade: ser consciente é ser virtualmente livre?

Débora Morato Pinto*

08 de setembro de 2020 | 03h00

Débora Morato Pinto. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

O Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, a estreia filosófica de Henri Bergson, está situado num momento de virada na filosofia francesa, em que o espiritualismo se vê às voltas com as exigências do concreto e de diálogo com a ciência e com a história. Esse embate, por assim dizer, atravessa o livro e condiciona o tratamento inédito, no campo da metafísica do espírito, que ele confere à consciência e à liberdade. A despeito de não constar no título do livro, a liberdade é o problema a ser resolvido. Porém, já como inovação teórica, Bergson defende que um problema filosófico é sobretudo mal colocado pela racionalidade discursiva.

A linguagem é originariamente uma ferramenta pragmática, inadequada em princípio aos objetivos da pura teoria. Eis o pano de fundo do título do livro: a nova posição do problema que cria os termos em que ele é colocado. No caso, os termos devem expressar a apreensão de si por si sem a mediação intelectual-pragmática. O retorno a si como vivência profunda alcança então os dados imediatos da consciência, uma das expressões que abre o caminho da solução. Falso e verdadeiro não dizem respeito apenas às respostas oferecidas desde sempre às questões vitais que nós, humanos, nos colocamos, mas devem ser critérios de prova aplicados aos próprios problemas. Vejamos como se dá a reconciliação no caso do problema clássico que implica psicologia e metafísica.

Liberdade e consciência são correlativas. Mas não foi quase isso que uma série de filósofos do passado também afirmaram, entre os quais o ícone da história da filosofia francesa, Rene Descartes? Se trocarmos “consciência” por “alma”, seria o caso de dizer que Bergson aparentemente limitou-se a retomar o passado com alguns retoques. A liberdade, assim como o tempo, é um fato que a reflexão filosófica, prisioneira dos hábitos da linguagem e dos conceitos que os prolongam, escondeu. Bergson abre uma via de reflexão dirigida ao concreto que exige remover o entulho conceitual que soterra os fatos, para assim fazê-los emergir e neles buscar suas condições. Mais que isso, busca princípios nos fatos. Por esse gesto teórico maior, ele incide como referência de peso sobre o século XX francês, de Merleau-Ponty a Deleuze, de Sartre a Canguilhem.

A liberdade não é apenas o problema central do Ensaio, mas atravessa a filosofia de Bergson de uma ponta à outra. E alguns sentidos nela implícitos são desdobrados à medida que os livros avançam na compreensão do tempo; assim, a liberdade implica indeterminação, virtualidade, vontade (ou puro querer), vida e abertura. Sentidos explicitados ao longo do percurso que amplia e aprofunda o conceito de consciência. Sintetizando fielmente a obra, trata-se de compreender, em significações encadeadas, por que somos livres na medida em que somos conscientes. A liberdade, por sua vez, não se define como livre-arbítrio, poder de escolha diante de alternativas previamente dadas. O fato que se revela, a interconexão entre a consciência profunda e a verdadeira liberdade, emerge uma vez desmontadas certas ilusões – incorporadas sem crítica pela filosofia – que são da ordem da psicologia, da física matematizada e da explicação causal dominante em ciência. A grande originalidade do livro, que é também sua maior dificuldade, consiste em vincular a diferença entre sucessão e simultaneidade à recuperação do ato livre. Bergson passa da psicologia à matemática, da física quantitativa à metafísica do movimento e destas ao campo da moral.

De certo modo, Bergson passou o resto da sua obra tratando das condições dessa superação, que tangem à metafísica, para além da psicofisiologia, da física e da biologia. Mas é no Ensaio que a relação do eu com sua própria história é a protagonista, na medida em que a decisão livre “emana da alma inteira”, que nossos atos são tanto mais livres quanto mais se ligam “à série dinâmica de nossas vivências”, ou seja, ao “eu fundamental”, o eu da profundidade que sobe à superfície como “impulso irresistível”. Se nós somos virtualmente livres na medida em que somos seres vivos, potências de indeterminação, essa virtualidade se atualiza a cada momento em que nossos atos prolongam a interpenetração sucessiva a que podemos chamar de “alma”, possuindo com ela a “indefinível semelhança que encontramos por vezes entre a obra e o artista”. Por trás dessas expressões quase literárias, está a reflexão minuciosa sobre o tempo e o espaço, sobre o movimento e a metafísica. A leitura do Ensaio sobre os dados imediatos da consciência nos conduz por uma bela aventura conceitual que pretende explicar como somos livres, em distintos graus, na medida mesma em que somos seres de consciência, o que implica virtualmente uma força de agir no mundo de maneira indeterminada, mesmo que a indeterminação seja sempre limitada, parcial. Enfim, na medida em que somos seres capazes de criar.

*Débora Cristina Morato Pinto é prefaciadora do livro Ensaio sobre os dados imediatos da consciência (Edipro), doutora em Filosofia pela USP, e professora no departamento de Filosofia da UFSC

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