Bendito Paulo Freire!

Bendito Paulo Freire!

José Renato Nalini*

30 de setembro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

A polarização que hoje caracteriza a sociedade brasileira fez exacerbar os ânimos de lado a lado. A demonização do antagonista, convertido em inimigo e não em adversário que deve ser ouvido e respeitado, faz com que em alguns setores sejam banidas figuras com as quais o presente só tem a aprender.

Um dos brasileiros mais respeitados no planeta se chama Paulo Freire. Nasceu no Recife em 19.9.1921 e morreu em São Paulo, em 2.5.1997. Teve de ficar dezesseis anos longe de sua Pátria, onde foi execrado e perseguido. Mas foi muito bem recebido na Bolívia, no Chile, nos Estados Unidos e na Suíça.

Foi no Chile que escreveu uma obra que se tornou clássica no mundo, mas foi praticamente ignorada pelos brasileiros: “Pedagogia dos oprimidos”, considerada sua obra-prima. Nossa Universidade Nove de Julho, a UNINOVE, publicou o texto manuscrito em 2013 e oferecido a um amigo, Jacques Chonchol, e à esposa deste, Maria Edy.

Na primavera de 1968, em Santiago, dirige-se ao casal: “Faz este mês, exatamente, quatro anos que cheguei ao Chile. Deixava Elza (a esposa), deixava os filhos nossos, deixava uma velhinha atônita ante o que lhe parecia impossível compreender. Deixava o Recife, seus rios, suas pontes, suas ruas de nomes gostosos – “Saudades”, “União”, “7 pecados”, rua das “Creoulas”, do “Chora Menino”, rua da Amizade, do Sol, da Aurora. Deixava o mar de água morna, as praias largas, os coqueiros. Deixava os pregões: “Doce de banana e goiaba”. Deixava o cheiro da terra e das gentes do Trópico. Deixava os amigos, as vozes conhecidas. Deixava o Brasil. Trazia o Brasil. Chegava sofrendo a ruptura entre o meu projeto e o projeto do meu País”.

Longe do Brasil por quatro anos, Paulo Freire conseguiu fazer uma análise da questão educacional, a única chave capaz de mudar a realidade brasileira. Detectou um forte e incrível “medo da liberdade”. “Não são raras as vezes em que, participantes destes cursos”, manifestam esse “medo da liberdade” e fazem referência “ao que chamam de “perigo da conscientização”. “A consciência crítica” – dizem – “é anárquica”. “Ao que outros acrescentam: “Não poderá a consciência crítica conduzir à desordem?”. Há, contudo, os que também dizem: “Por que negar? Eu temia a liberdade. Já não a temo!”.

Durante seus encontros, discutiu-se bastante se os seres humanos conscientizados poderiam ser conduzidos a um “fanatismo destrutivo”, ou a “uma sensação de desmoronamento total do mundo em que estavam”.

Para Paulo Freire, esse risco inexistia. “Se a tomada de consciência abre o caminho a expressões de insatisfações sociais, se deve a que estas são componentes reais de uma situação de opressão”. Esta frase é de Francisco Weffort, no prefácio ao livro “Educação como prática da liberdade”, do próprio Paulo Freire, publicado pela Paz e Terra em 1967.

Como considerar subversiva uma proposta de união entre os homens, para que todos sejam espiritualmente livres e ninguém considere inferior um semelhante? Quando Paulo Freire fala em liberdade, está a focar o primeiro dos direitos humanos de primeiríssima dimensão, que tem sede no caput do artigo 5º da Constituição da República. Pois é sustentável afirmar-se que “vida”, o primeiro bem enunciado, seja – tecnicamente – um pressuposto de fruição de qualquer dos bens decorrentes dela. Todos os direitos só são exercitados por um ser vivo. Não há direitos titularizados pelos que já se foram deste planeta.

Paulo Freire acreditava numa coesão entre os racionais. Pois há “opressores” que não se consideram assim. Acreditam, piamente, que são os destinatários da subserviência dos demais. Que todos os outros nasceram para servi-los. Ora, “o opressor só se solidariza com os oprimidos quando o seu gesto deixa de ser um gesto piegas e sentimental de caráter individual, e passa a ser um ato de amor àqueles. Quando, para ele, os oprimidos deixam de ser uma designação abstrata e já são os homens concretos, injustiçados e roubados”. Esse “roubo” é o da dignidade de um ser humano que não consegue para si o mínimo existencial.

Esta pandemia escancarou os milhões de brasileiros excluídos do sistema. Não têm emprego, não têm direito à saúde, não têm moradia, não têm saneamento básico, não têm perspectiva de vida digna, embora a dignidade seja o supraprincípio da Carta Cidadã de 1988.

Não se pode afirmar que foi subtraída a sua dignidade? E se alguém enxergar que tal subtração resultou de uma violência, ainda que não cruenta, mas psicológica, está configurado o tipo penal do roubo: subtração perpetrada com violência contra a pessoa.

A educação de verdade só pode treinar o educando para o exercício da liberdade. “A realidade social objetiva, que não existe por acaso, mas como produto da ação dos homens, também não se transforma por acaso. Se os homens são os produtores desta realidade e se esta, na “inversão da práxis”, se volta sobre eles e os condiciona, transformar a realidade opressora é tarefa histórica, é tarefa dos homens”. Dos homens de boa vontade. Daqueles que pretendem, com sua obra e com seu exemplo, aprimorar o convívio. Não faria mal a todos nós, abeberar-se um pouco no legado de Paulo Freire. Bendito Paulo Freire, lembrado por ocasião do centenário de seu nascimento.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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