BCs devem ajudar, mas dificilmente resolverão

BCs devem ajudar, mas dificilmente resolverão

José Pena*

06 de agosto de 2019 | 07h00

José Pena. FOTO: DIVULGAÇÃO

Após as indicações dadas há pelo menos dois meses pelo Federal Reserve (Fed) e pelo Banco Central Europeu (BCE) no sentido de que começariam em breve um movimento de afrouxamento monetário, um amplo conjunto de autoridades monetárias mundo afora – nosso Copom incluído – seguiu tal direção, dando início a um dos mais relevantes movimentos do gênero desde a crise financeira global do final da década passada.

Razões para tanto não faltam. O processo de desaceleração da economia global iniciado nos primeiros meses de 2018, liderado pelo setor industrial, mas não restrito a ele, tem ganhado força mais recentemente, frustrando as expectativas de grande parte de analistas e autoridades, de que esse processo pudesse ser revertido nos primeiros meses de 2019.

A situação é mais crítica tanto na Europa como numa ampla gama de países asiáticos, onde a indústria tem um peso relativo maior em suas economias, assim como são mercados mais expostos ao comércio exterior, e por isso mesmo, mais afetados pelas tensões comerciais entre EUA e China.

Já os EUA, apesar de serem uma economia relativamente mais fechada do ponto de vista do comércio exterior que aquelas da Ásia e Europa e de ainda mostrarem dados que sugerem um certo vigor (especialmente no que tange ao consumo doméstico), dificilmente conseguirão ficar imunes à desaceleração do restante do planeta, sobretudo porque os efeitos expansionistas das medidas fiscais adotadas nos dois anos anteriores vão, naturalmente, se esgotando.

Daí porque o Fed reduziu a taxa básica de juros ao final de julho, numa tentativa de mitigar esses impactos vindos do exterior sobre a economia local. Contudo, seu compromisso com outros cortes à frente soou menos forte do que esperavam os mercados globais. Ainda assim, é muito provável que o BCE e o Banco do Japão, entre outros, também adotem medidas estimulativas em suas próximas reuniões de política monetária.

Embora significativo e necessário, é temerário apostar que a partir desse movimento simultâneo de várias autoridades monetárias o ritmo de expansão da economia global volte a se acelerar de forma relevante e rápida. A razão para tal cautela é que muito da perda de vigor do crescimento global registrada no último ano e meio deriva das enormes incertezas geradas pela disputa comercial e tecnológica entre EUA e China, que parece longe de ser resolvida.

Uma nova escalada de medidas de ambas as partes reforça a validade dessa hipótese. De um lado, os EUA anunciaram a imposição de sobretaxas de 10% sobre os US$ 300 bilhões de importações provenientes da China que até então passavam incólumes. Como resposta, a China permitiu uma desvalorização mais acentuada de sua moeda.

Assim, juros menores em escala global podem até dar margem a uma nova rodada de valorização dos preços dos principais ativos financeiros no futuro próximo, mas seus efeitos sobre a economia real devem ser bem mais modestos.

Guardadas as devidas proporções, o mesmo deve valer para o caso brasileiro. Embora (i) a manutenção de um elevado grau de ociosidade dos principais fatores de produção, (ii) o avanço da agenda de reformas estruturais (em particular da Reforma da Previdência e (iii) o movimento global de queda dos juros abram espaço para o Copom levar a taxa Selic até o nível de 5,5% (ou ligeiramente abaixo desse patamar) em curto espaço de tempo, eventuais apostas em uma rápida reação da atividade local a essa nova rodada de estímulo monetário devem ser moderadas.

Primeiro, porque a própria fraqueza global limita o potencial de expansão doméstica, sobretudo no tocante à atividade industrial. Vale sempre lembrar que a crise argentina acentua esse impacto negativo da indústria global, à medida em que o país vizinho tem peso relevante nas nossas exportações de manufaturados.

Segundo, porque diante da enorme ociosidade e da crise fiscal nas três esferas de governo, a retomada do investimento seguirá bastante lenta. Privatizações e concessões de serviços públicos devem ajudar a estimular a elevação da taxa de investimento como proporção do PIB, mas dificilmente contribuirão de forma significativa no curto prazo.

Resta então a expectativa de melhora do consumo. Aqui, também, entretanto, há empecilhos a uma expansão acelerada, devido ao ritmo modesto de crescimento da renda real. Por outro lado, a gradual melhora da confiança do consumidor e juros menores devem incentivar uma busca maior por crédito, o que juntamente com a liberação de recursos do FGTS ao longo dos próximos meses podem finalmente quebrar essa estagnação da demanda doméstica por bens e serviços.

Em resumo, a disseminada flexibilização monetária por parte de diversos bancos centrais ao redor do mundo pode promover alguma melhora na economia global no médio prazo, o que juntamente com fatores locais, finalmente deve permitir que em 2020 se rompa o teto de 1% de crescimento anual do PIB local a que estamos presos já há vários anos. Entretanto, essa melhora esperada, aqui e no exterior, deve ser modesta e gradual, ao menos enquanto a enorme nuvem de incerteza gerada pelas tensões envolvendo as duas maiores potências globais pairar sobre nós.

*José Pena é economista-chefe da Porto Seguro Investimentos

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