Bastidores: Eventual demissão de Weintraub não é suficiente para pacificar relação com o STF, avaliam ministros

Bastidores: Eventual demissão de Weintraub não é suficiente para pacificar relação com o STF, avaliam ministros

Rafael Moraes Moura/ BRASÍLIA

15 de junho de 2020 | 19h11

Uma eventual demissão do ministro da Educação, Abraham Weintraub, não será suficiente para pacificar a relação do governo Jair Bolsonaro com o Supremo Tribunal Federal (STF), avaliam ministros e integrantes da Corte ouvidos reservadamente pelo Estadão/Broadcast. Para os grupos político e militar do governo, a demissão de Weintraub é essencial para o Planalto construir uma trégua com o Supremo e o Congresso, mas nos bastidores da Corte a percepção é a de que as relações com o Executivo estão duramente abaladas e será preciso fazer ‘muita coisa’ ainda para ‘zerar o jogo’.

Dentro do Supremo, ministros e auxiliares apontam que o comportamento de Weintraub e a escalada de protestos liderados pela ativista Sara Winter contribuíram para deteriorar ainda mais a relação do tribunal com o governo do presidente Jair Bolsonaro. Nesse sentido, a prisão de Sara Winter, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, serviu para impor um limite diante da gravidade da situação, mostrando que a partir de agora certas atitudes antidemocráticas não serão mais toleradas – e que a liberdade de expressão não é absoluta.

O ministro da Educação Abraham Weintraub durante a reunião ministerial do dia 22 de abril, na qual chamou ministros do STF de ‘vagabundos’. Foto: Marcos Corrêa/PR

Os integrantes do tribunal já haviam ficado chocados e perplexos com as declarações do ministro da Educação na reunião ministerial de 22 de abril, quando Weintraub afirmou que, por ele, ‘botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF’. Em entrevista ao Estadão, o ministro Marco Aurélio Mello chegou a pedir a saída do titular do Ministério da Educação. A demissão de Weintraub é vista com bons olhos pelo tribunal, mas não é considerada uma medida que resolve os conflitos entre Executivo e Judiciário.

Desta vez, o que incomodou a Corte foi a decisão de Weintraub de se reunir com cerca de 15 manifestantes bolsonaristas que desrespeitaram uma ordem do governo do Distrito Federal proibindo atos na Esplanada dos Ministérios. O ministro discursou para o grupo em frente ao Ministério da Agricultura e chegou a oferecer comida aos manifestantes. Em um dos trechos das conversas divulgados nas redes sociais, Weintraub disse ‘eu já falei a minha opinião, o que faria com esses vagabundos‘. Em entrevista à Band News nesta segunda-feira, Bolsonaro disse que Weintraub não foi prudente ao participar do ato e que está ‘tentando solucionar’ a situação do auxiliar, que chamou de ‘problem’.

O Supremo também vê uma escalada nos protestos que atacam a Corte, que saíram da esfera virtual e se materializaram em manifestações cada vez mais expressivas, como os fogos de artifício disparados nas proximidades do tribunal no final de semana passado e as tochas carregadas na Praça dos Três Poderes em maio pelo grupo bolsonarista ‘300 pelo Brasil’, liderado por Sara Winter.

Segundo um integrante da Corte, esses atos são ‘barulhentos’, provocam ruídos na relação com o Palácio do Planalto e incentivam atitudes semelhantes de grupos exaltados. Outro foco de tensão são os sinais que vêm do chefe do Executivo.

Após manifestantes bolsonaristas dispararem fogos de artifício na direção do prédio principal do STF, os ex-presidentes José Sarney, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer repudiaram os ataques, conforme divulgado na página oficial da Corte. Integrantes do STF reprovaram reservadamente a falta de uma nota oficial de Bolsonaro sobre o episódio, um gesto interpretado como omissão na defesa da democracia, ou pior, como endosso velado aos protestos.

Tudo o que sabemos sobre:

Abraham Weintraub

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.