Basta de racismo

Basta de racismo

Mylene Ramos Seidl*

21 de novembro de 2020 | 13h08

Mylene Ramos Seidl. Foto: Divulgação

Em meados dos anos 60, meus pais deixaram nossa casa para visitar uma loja de departamentos recém inaugurada no Centro Velho de São Paulo. A loja, grande e imponente para a época, chamava a atenção pois era uma das primeiras e maiores da cidade. A visita acabou sendo mais rápida do que o esperado. Nos primeiros minutos após adentrar a loja, meus pais foram abordados por seguranças e acusados de furto. A falsa acusação não se sustentou por muito tempo. Meus pais não portavam bolsas e os seguranças verificaram que eles não haviam retirado qualquer objeto da loja. Humilhados, meus pais voltaram para casa. Mal sabiam eles que a abordagem e falsa acusação poderiam não ter sido o pior desfecho. A violência autorizada contra a população negra faz – até os dias de hoje – com que uma simples ida a um estabelecimento comercial possa terminar num incidente fatal.

À exemplo do que acontecia na época do regime escravocrata, negros continuam sendo massacrados. A diferença é que antes não haviam registros fotográficos ou em vídeos. Agora nós sabemos qual era o tratamento dado aos negros escravizados.

A execução sumária de Joao Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos, é mais um capítulo na sangrenta história do Brasil, que desde a chegada dos portugueses, tiveram indígenas e negros como suas maiores vítimas. A retirada do status de seres humanos dos negros sequestrados na África, suprimiu seus direitos mais básicos, inclusive à vida. O fim do regime escravocrata não significou mudanças. Segundo o mais recente Atlas da Violência, negros são 75,7% das vítimas de homicídios no Brasil, no entanto, somam em torno de 56% da população.

O fato de que a delegada do caso João Alberto, Roberta Bertoldo, não consegue ver o racismo como componente decisivo na execução, por si só, já demonstra o quanto o racismo estrutural e institucional está incutido em nossa sociedade. Peças chaves para garantir a segurança e a ordem, estas autoridades muitas vezes demonstram desconhecer o que é o racismo, como ele se manifesta, e suas consequências. Por óbvio a execução não teria ocorrido fosse João Alberto um homem branco.

E quem era João Alberto Silveira Freitas, executado por seguranças do supermercado Carrefour no bairro Passo D`Areia em Porto Alegre, na noite anterior ao Dia da Consciência Negra? Ele era casado, tinha 4 filhos, morava numa comunidade do Município, era visto com simpatia por vizinhos, e já estava passando suas compras no caixa, quando foi retirado do estabelecimento e massacrado por dois seguranças brancos no estacionamento localizado na entrada da Loja . A motivação está sendo investigada, mas por certo, as imagens falam por si só. Assim como George Floyd, João Alberto nao teve chance. Segundo a delegada responsável pela investigação, os seguranças envolvidos – Magno Braz Borges e Giovane Gaspar da Silva, que ficaram calados durante o interrogatório – serão indiciados por homicídio triplamente qualificado: por motivo fútil, meio cruel e que dificultou a defesa da vítima. Magno, que é policial militar da ativa, também poderá sofrer sanções administrativas por parte da corporação.

Esta não é a primeira execução de um homem negro em um supermercado. Somente o ano de 2019 soma mais dois casos. Em agosto Jean Pierre Oliveira morreu esfaqueado por um segurança do supermercado Koch em Camboriú, após um desentendimento. Já em fevereiro de 2019, Pedro Gonzaga, foi asfixiado por um golpe conhecido como mata-leão, desferido por um segurança do supermercado Extra, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.

Na história menos recente de racismo e violência contra clientes negros, ficou bastante conhecido o caso de Januário Alves de Santana, cliente do Carrefour Osasco que ao aguardar pela esposa em seu veículo no estacionamento da loja, foi abordado por seguranças, agredido e acusado de furtar o próprio veículo.

Ainda numa das lojas de Osasco, em novembro de 2018 causou grande indignação a morte por envenenamento e espancamento da cadela Manchinha, que vivia no estacionamento do supermercado. Os crimes foram perpetrados por um segurança do estabelecimento que alegou ter recebido ordens superiores para se “livrar do cachorro”.

Aqui nem se faz menção aos inúmeros casos de agressões e cárcere privado contra clientes negros, que por sorte, não chegaram a morrer.

Infelizmente, ao racismo cotidiano e naturalizado que estrutura a sociedade brasileira desde os seus primórdios, somam-se também a cultura de algumas corporações que mostram descaso e desrespeito com a população negra – a mesma população que lhes gera lucros ao comprar seus produtos e serviços.

E a pergunta de muitos: até quando? Eu respondo, até quando nós não procurarmos entender verdadeiramente a história em andamento no Brasil – sim, a história não acabou em 13 de maio de 1888 – , e a partir daí, nos debruçarmos sobre a criação de uma nova Era. É primordial que exijamos o fim do racismo não apenas dos governos, instituições e empresas, mas também dos que estão mais próximos de nós: famílias, amigos, conhecidos e desconhecidos. Porque racistas também têm famílias e vida social. Quando o racismo deixar de ser tolerado em todos os espaços em que se manifesta, presenciaremos o início de uma nova Era, em que direitos e obrigações serão iguais para todos, e em que viveremos numa verdadeira sociedade livre de racismo, preconceitos e discriminações. Uma Era em que todos nós, independentemente da cor da pele, seremos verdadeiramente livres.

*Mylene Ramos Seidl, Juíza do Trabalho Aposentada, Consultora e Palestrante

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