Barroso: ‘Nós vivemos um momento de exaltação de provas ilícitas e da legitimação da profissão de hacker’

Barroso: ‘Nós vivemos um momento de exaltação de provas ilícitas e da legitimação da profissão de hacker’

Ministro do Supremo Tribunal Federal afirmou durante o encerramento da webconferência da Associação Nacional dos Membros do Ministério Público (Conamp) que 'apesar de vivermos uma operação abafa', está cada vez mais difícil um 'picareta sair na rua'

Paulo Roberto Netto

25 de fevereiro de 2021 | 21h50

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, afirmou nesta quinta, 25, que o País vive um momento de ‘exaltação de provas ilícitas’ e de ‘legitimação da profissão de hacker’. A fala foi dita durante o encerramento da webconferência da Associação Nacional dos Membros do Ministério Público (Conamp).

Barroso tem criticado duramente a divulgação de conversas envolvendo o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro e o ex-coordenador da Lava Jato, o procurador Deltan Dallagnol. Na semana passada, o ministro afirmou que eventuais ‘excessos’ cometidos pela força-tarefa no curso da operação não poderiam ‘tirar o foco’ do combate à corrupção.

“Nós vivemos um momento de recuo, nós vivemos um momento de exaltação das provas ilícitas e da legitimação da profissão de hacker. Mas a verdade é que, apesar dos retrocessos que nós vivemos neste momento e, parodiando uma frase famosa do Einstein, quando as pessoas adquirem uma nova ideia, o cérebro não volta ao seu tamanho original”, afirmou Barroso. “E, portanto, apesar dos retrocessos não estamos voltando lá pra trás”.

Para o ministro, está ‘cada vez mais difícil de um vigarista sair na rua’ visto que os ‘riscos jurídicos aumentaram’. “Apesar de vivermos uma operação abafa, nós já mudamos, eu penso, a história do Brasil”, frisou.

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, e presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Foto: Carlos Moura/SCO/STF (04/03/2020)

As declarações de Barroso ocorrem em meio à divulgação de conversas entre integrantes da Lava Jato obtidas pela defesa do ex-presidente Lula. As mensagens foram obtidas por hackers presos na Operação Spoofing e relatam desde ‘sugestão de fonte’ contra o filho do petista a pedidos de movimentação em processos envolvendo o ex-presidente. Recentemente, um diálogo apontou que uma delegada da Polícia Federal teria lavrado o termo de depoimento de uma testemunha sem que ela tivesse sido de fato ouvida.

O Superior Tribunal de Justiça também abriu um inquérito sigiloso para apurar suposta intenção dos procuradores da Lava Jato em investigar, sem autorização, a movimentação financeira e patrimonial dos integrantes da Corte. A apuração está sendo conduzida pelo presidente do tribunal, ministro Humberto Martins.

Barroso tem declarado que as acusações de ‘excessos’ contra a Lava Jato não podem tirar o foco do combate à corrupção. No último dia 13, em entrevista ao historiador Marco Antonio Villa, o ministro destacou casos emblemáticos da Lava Jato, como o ‘bunker’ de R$ 51 milhões no apartamento do ex-ministro Geddel Vieira Lima em Salvador e o vídeo do ex-assessor do presidente Michel Temer, Rodrigo Rocha Loures, flagrado correndo com uma mala de propinas pelo bairro de Jardins, em São Paulo.

“Claro que se tiver havido um excesso ou erro, ele tem que ser objeto de reflexão, mas é preciso não perder o foco. O problema não é ter havido um exagero aqui e ali, o problema é esta corrupção estrutural, sistêmica e institucionalizada que não começou com uma pessoa, um governo ou um partido. Veio num processo acumulativo que um dia transbordou”, afirmou Barroso.

O ministro disse ainda que o que ocorre no Brasil hoje é uma ‘tentativa de sequestrar a narrativa como se isso (corrupção) não tivesse acontecido’. “E um dos problemas, triste como seja, é que no andar de cima do Brasil todo mundo tem um parente, um amigo ou parceiro que esteve envolvido com alguma coisa errada. E aí se forma um enorme arco de alianças”, concluiu.

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