Barroso diz que eventuais ‘excessos’ nas conversas da Lava Jato não podem tirar foco de combate à corrupção

Barroso diz que eventuais ‘excessos’ nas conversas da Lava Jato não podem tirar foco de combate à corrupção

Ministro do Supremo Tribunal Federal afirma que troca de mensagens entre integrantes da força-tarefa não pode ser usada para 'destruir tudo o que foi feito' pela operação

Paulo Roberto Netto

15 de fevereiro de 2021 | 19h01

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, afirmou que eventuais ‘excessos’ da Lava Jato revelados nas trocas de mensagens dos integrantes da força-tarefa não podem ser usados para ‘destruir tudo o que foi feito’ pela operação. Em entrevista ao historiador Marco Antonio Villa, exibida no sábado, 13, Barroso afirma que as conversas obtidas por hackers não podem ser usadas para ‘desviar o foco’ do combate à corrupção.

O ministro destacou casos emblemáticos da Lava Jato, como o ‘bunker’ de R$ 51 milhões no apartamento do ex-ministro Geddel Vieira Lima em Salvador e o vídeo do ex-assessor do presidente Michel Temer, Rodrigo Rocha Loures, flagrado correndo com uma mala de propinas pelo bairro de Jardins, em São Paulo.

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal. Foto: Nelson Jr./SCO/STF

“Claro que se tiver havido um excesso ou erro, ele tem que ser objeto de reflexão, mas é preciso não perder o foco. O problema não é ter havido um exagero aqui e ali, o problema é esta corrupção estrutural, sistêmica e institucionalizada que não começou com uma pessoa, um governo ou um partido. Veio num processo acumulativo que um dia transbordou”, afirmou Barroso.

O ministro disse ainda que o que ocorre no Brasil hoje é uma ‘tentativa de sequestrar a narrativa como se isso (corrupção) não tivesse acontecido’. “E um dos problemas, triste como seja, é que no andar de cima do Brasil todo mundo tem um parente, um amigo ou parceiro que esteve envolvido com alguma coisa errada. E aí se forma um enorme arco de alianças”, concluiu.

Lados opostos. A declaração de Barroso contrasta com a do ministro Gilmar Mendes, que classificou a força-tarefa da Lava Jato como um ‘esquadrão da morte’ em entrevista ao UOL na semana passada. Ao ser questionado sobre as informações reveladas nas conversas hackeadas da Operação Spoofing, o ministro afirmou que considera tudo ‘lamentável’.

“Todos nós de alguma forma sofremos uma manipulação disso que operava em Curitiba. Acho que temos que fazer a correções devidas, tenho dito e enfatizado que Lula é digno de um julgamento justo”, afirmou. “Independentemente disso, temos que fazer consertos, reparos, para que isso não mais se repita, não se monte mais esse tipo de esquadrão da morte. Porque o que se instalou em Curitiba era um grupo de esquadrão da morte, totalmente fora dos parâmetros legais”.

As manifestações de Gilmar e Barroso ocorrem dias após a Segunda Turma do Supremo validar por quatro votos a um a liminar do ministro Ricardo Lewandowski que concedeu à defesa do ex-presidente Lula acesso às mensagens hackeadas do ex-coordenador da Lava Jato Deltan Dallagnol, do ex-juiz Sérgio Moro e dos demais integrantes da força-tarefa.

O julgamento foi marcado por duras críticas de Gilmar e Lewandowski, que formam a ala crítica à Lava Jato na Segunda Turma. Nos bastidores do Supremo, a sessão foi vista como uma espécie de ‘prévia’ do julgamento da suspeição de Moro, que deve ocorrer ainda neste semestre.

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