Barroso vê ‘motivação política’ e aponta articulação de ‘milícias digitais’ em ataques contra TSE

Barroso vê ‘motivação política’ e aponta articulação de ‘milícias digitais’ em ataques contra TSE

Ministro evitou apontar ligações da 'milícia digital' com qualquer grupo político, mas citou que alguns dos responsáveis por usar os episódios para colocar o sistema de votação em xeque já são investigados no inquérito que trata sobre a divulgação de 'fake news'

Vinícius Valfré/BRASÍLIA

16 de novembro de 2020 | 19h57

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso, afirmou nesta segunda-feira, 16, ver ‘motivação política’ nos ataques sofridos pelo sistema da Justiça Eleitoral no domingo, dia de votação, e apontou a ação de ‘milícias digitais’. Segundo ele, houve uma atuação articulada para tentar desacreditar as instituições do País. Barroso, no entanto, afirmou que os ataques foram neutralizados e não tiveram qualquer relação com o atraso de cerca de três horas na divulgação dos resultados na noite de domingo.

“Milícias digitais entraram imediatamente em ação tentando desacreditar o sistema. Há suspeita de articulação de grupos extremistas que se empenham em desacreditar as instituições, clamam pela volta da ditadura e muitos deles são investigados pelo STF”, afirmou Barroso em entrevista na sede do TSE, em Brasília. Segundo ele, as suspeitas citadas por ele serão investigadas pela Polícia Federal.

O ministro evitou rotular os grupos que embarcaram na campanha de desinformação a partir das primeiras notícias de ataques contra o TSE. No entanto, relatório produzido pela SaferNet, que atua em colaboração com o Ministério Público Federal, apontou que perfis bolsonaristas e ligados a movimentos de extrema-direita foram os que mais deram eco às informações falsas e enganosas sobre a lisura do processo.

As análises da SaferNet foram entregues ao MPF e à PF. Um inquérito foi aberto para apurar a autoria dos ataques. Em entrevista nesta segunda-feira, Barroso pediu para que sejam investigados “não apenas o ataque específico, mas a orquestração para desacreditar o sistema e as instituições”.

A apuração da SaferNet apontou que às 9h25 do domingo foram divulgadas informações de servidores e ex-ministros do TSE obtidas em ataque realizado em 23 de outubro. No entanto, os dados eram referentes ao período entre 2001 e 2010, e não tinham qualquer relação com o processo eleitoral. Mesmo assim, o fato foi usado nas redes para colocar em dúvida a segurança das urnas eletrônicas.

“A divulgação foi feita no dia da eleição para trazer impacto e para fazer parecer fragilidade do sistema eleitoral”, afirmou Barroso. Um dos que deram vazão a esta narrativa foi o deputado federal bolsonarista Felipe Barros (PSL-PR), investigado pelo STF no inquérito das fake news. No início da tarde, ele publicou um tuíte que lançava dúvidas sobre a segurança das urnas. O conteúdo foi curtido mais de 31 mil vezes.

Ministro Roberto Barroso durante entrevista coletiva sobre o balanço das eleições municipais. Foto: Dida Sampaio / Estadão

Em seguida, uma série de perfis ligados a movimentos de extrema-direita passaram a ampliar as teorias conspiratórias sobre as urnas e sobre o pleito. O parlamentar é investigado no inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) e apura disseminação de notícias falsas e ameaças a ministros da Suprema Corte. Procurado pela reportagem, ele não atendeu às chamadas. Nas redes, Filipe Barros se diz perseguido e censurado.

Na sequência dos dados sobre servidores, às 10h41, o TSE passou a sofrer um chamado ‘ataque de negação de serviço’, quando há milhares de tentativa de acesso para derrubar o sistema . As tentativas partiram do Brasil, dos Estados Unidos e da Nova Zelândia. Com 436 mil conexões por segundo, os sistemas ficaram lentos, mas resistiram.

Na manhã desta segunda-feira, em conversa com apoiadores no Palácio da Alvorada, o próprio presidente Jair Bolsonaro colocou em dúvida a lisura das eleições. “Nós temos que ter um sistema de apuração que não deixe dúvidas. É só isso. Tem que ser confiável e rápido, não deixar margem para suposições”, disse o presidente, sem apresentar qualquer evidência de irregularidade. Bolsonaro disse, em março, que “brevemente” apresentaria provas de que houve uma ‘fraude’ nas eleições de 2018, mas até agora não mostrou nenhuma evidência.

Atraso. Barroso também deu uma nova versão para o atraso na totalização dos votos, feita apenas 23h55 de ontem, quase três horas depois do resultado em 2018. Segundo ele, a entrega de um “supercomputador” pela empresa Oracle foi atrasada por causa da pandemia. Comprado em março, o equipamento chegou em agosto.

Assim, não houve tempo suficiente para testes prévios e a inteligência artificial do sistema não foi capaz de aprender a tempo a processar o volume de informações que recebeu.

“Imaginar que um atraso de duas horas e meia na contabilização possa repercutir no resultado é não lidar com a realidade. A realidade sai da urna”, disse. “Em nenhum momento a integridade do sistema esteve em risco. O que houve foi um atraso porque o sistema congestionou e travou por incapacidade da inteligência artificial.”

Apesar do atraso na entrega do computador, o presidente do TSE descartou a possibilidade de sanção à companhia por causa das adversidades impostas à realização do serviço durante a pandemia. O contrato com Oracle é de R$ 26 milhões, por 48 meses de serviços.

As 436 mil conexões por segundo, de acordo com os técnicos do TSE, é superior ao dobro de todas as conexões no site da Justiça Eleitoral nas eleições de 2016.

Ainda no domingo, por volta das 21 horas, o ministro havia informado que o atraso era devido à falha em um dos oito processadores do supercomputador. O defeito de fato ocorreu, mas só posteriormente a equipe técnica constatou que não era ele que causava o atraso. A demora se deu exatamente pela dificuldade de adaptação da inteligência artificial.

As eleições de 2020 foram as primeiras em que a contagem dos votos foi centralizada no TSE. Antes, cada um dos 27 tribunais regionais eleitorais fazia as totalizações, de forma independente. A mudança no método seguiu recomendação da Polícia Federal. A ideia foi concentrar em apenas um local a contagem, em vez de manter todos os tribunais passíveis de ataques.

“Quando se tem vinte e sete pontos, em tese você teria vinte e sete oportunidades de atacar. Quando você concentra em apenas um ponto, e nesse ponto se concentram vários requisitos de segurança, como nós temos uma sala cofre com todos os requisitos de segurança, além de vários softwares, gestão e um serviço de vigilância vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, se tem uma possibilidade menor de ataques. Então foi essa a estratégia e recomendação da PF”, afirmou o secretário de Tecnologia de Informação do TSE, Giuseppe Janino.

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