Barreiras do ambiente político também afetam as mulheres que atuam em RIG

Barreiras do ambiente político também afetam as mulheres que atuam em RIG

Francine Moor*

18 de março de 2022 | 09h00

Francine Moor. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em regimes democráticos, as decisões políticas são influenciadas por uma complexa rede de atores e de relações dentro das quais estão inseridas as ações dos grupos de defesa de interesses. A atuação profissional de Relações Institucionais e Governamentais (RIG) se dá nos ambientes gerencial e político e ambos são marcados por uma característica importante: trata-se de espaços com uma expressiva lacuna de representação feminina. Nesse contexto, a forma como as decisões são tomadas e as negociações são realizadas reproduz padrões de comportamento e de cultura tradicionalmente masculino. Ao entrarem nesses ambientes, as mulheres encontram barreiras para se adaptarem aos padrões e para serem aceitas como legítimas participantes dos processos decisórios e negociais.

O retrato não é muito diferente da maioria das atividades e grupos sociais no país. Em geral, quanto mais rentáveis e estratégicas as posições, menos mulheres. E se forem mulheres não brancas, o número cai ainda mais. No entanto, quando pensamos na atividade de defesa de interesse, pensamos na construção de políticas públicas. E quando temos poucas mulheres nas mesas de decisão e na construção das políticas públicas, temos menos representatividade (social, de raça, cultural), menos perspectivas sociais incluídas e, ao final, o impacto se dá no próprio processo democrático.

Compreender a atuação das mulheres no mercado de trabalho de RIG é um caminho importante para compreender a atuação das mulheres no ambiente político como um todo. As mulheres participam do sistema do ponto de vista formal, mas seguem ocupando lugares menos estratégicos no jogo político.

Mulheres que realizam funções de alto impacto e de alto rendimento, como são as atividades de defesa de interesse, tendem a enfrentar ainda mais constrangimentos do que a média. Podemos dizer que elas trabalham em desvantagem numérica, buscam se adaptar ou relativizar o assédio sexual, lutam para compatibilizar família-trabalho e que, apesar de serem muito preparadas tecnicamente, não chegam em número expressivo na parte mais valorizada do tabuleiro: a articulação política direta e a tomada de decisão. Atuam frequentemente constrangidas e com papel coadjuvante.

As barreiras são limitantes, mas não determinantes. As mulheres encontram alternativas e caminhos para se adaptarem e encontrarem sucesso e realização na área. No entanto, é preciso registrar que dispendem muito mais energia para trilhar os mesmos trajetos que os homens nas suas carreiras. Em geral, elas estudam mais, preparam melhor os argumentos, constroem o máximo de proteções para evitar um erro, que ainda custa mais caro para elas do que para eles.

Encontrar apoio entre outras mulheres e construir novas conexões têm sido uma saída para superar as inequidades. Na estrutura da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais, o Comitê Mulher se propõe a ser espaço de acolhida e de construção de ações para ampliar a presença feminina nos espaços políticos e de liderança. Grupos e coletivos, como o Dicas Mulheres em RIG, que atualmente reúne quase mil mulheres, servem como espaço de troca de informações, indicações, contatos e, ainda, para a solução de tarefas da administração doméstica, que elas frequentemente precisam conciliar com o trabalho.

Também na área de RIG, as mulheres mostram que estão dispostas, como sempre, a encontrar saídas e, mais do que nunca, estão determinadas a não mais aceitar modelos e estruturas vencidas, ultrapassadas e vantajosas apenas para um grupo da sociedade. A democracia se faz com todos à mesa. E elas não aceitam mais ficar de fora.

*Francine Moor é mestra em Poder Legislativo (Cefor-Câmara dos Deputados), especialista em Ciência Política (UNB) e graduada em Jornalismo. É coordenadora do Comitê Mulher da Abrig (Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais), cofundadora do coletivo Dicas Mulheres em RIG e empresária da área de RIG (Logos Estratégia) em Brasília, há mais de 10 anos

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