“Barbudinho, tu vai longe”

Airton Marchese, dono da churrascaria Galpão Criolou, que fechou para TRF-4 julgar Lula, em Porto Alegre, também perdeu dedo trabalhando

Ricardo Brandt, enviado especial a Porto Alegre

24 Janeiro 2018 | 05h30

“Barbudinho, tu vai longe.”

Airton João Marchese, dono do Galpão Crioulou, único prejudicado diretamente pelo isolamento do prédio do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, em Porto Alegre, onde Luiz Inácio Lula da Silva será julgado nesta quarta-feira, 24, não lembra ao certo a campanha em que disse a frase acima. O “barbudinho” era o ex-presidente, quando ele ainda não havia passado pelo Planalto.

Aos 65 anos, seo Marchese é dono da churrascaria no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, em frente ao prédio do TRF-4, que abre no almoço e na janta, com público basicamente formado por turistas e tem um história muito peculiar para contar.

Marchese tem em comum um detalhe físico com Lula – ele não tem o dedo mínimo esquerdo.

Nascido em Campinas do Sul, Marchese começou a trabalhar cedo, além de ajudar na roça de trigo e soja, dava expediente à noite na Madeireira Campinas, onde se acidentou.

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Descendente de italianos, Marchese diz que foi morar perto de Nova Brescia, a capital do churrasco, depois em Porto Alegre, onde virou o que é: um dos donos do Galpão Crioulou. O espaço recebe turistas e faz eventos e, em especial, recebe políticos em campanha.

“Aqui passaram Brizola, Fernando Henrique Cardoso, Lula, o Serra”, conta. Foi em um desses eventos, antes de Lula virar presidente, que ele diz ter conhecido o petista, que estava acompanhado do ex-governador do Estado Olívio Dutra (PT). Em seu restaurante, Marchese exibe um boneco de madeira em alusão a Olívio.

Churrascaria fechou para julgamento de Lula. Foto: NILTON FUKUDA/ESTADÃO

“Eu cheguei mostrei a mão que ia cumprimentá-lo (mostra a esquerda, sem o dedo) e disse: ‘perdemos trabalhando’”, conta Marchese, enquanto olha no bloco do repórter e na TV o fim do jogo do Internacional, paixão que divide com o baralho.

Dois anos depois, o petista teria voltado ao Galpão em campanha, desta vez com um candidato a prefeito do PT que ele apoiava. “Aí foi ele que veio com a mão erguida para cumprimentar e me disse: ‘perdemos trabalhando’.”

Marchese conta – mais de uma vez – que foi nesse dia que falou para Lula: “Barbudinho, tu vai longe”.
Para o dono do Galpão Crioulou, essa imagem ficou cravada na memória porque simboliza para ele o valor que vê em Lula: o de político ‘que têm personalidade e sabe seu papel’.

“O político bom sabe quem é o povo, onde vai, com quem fala, lembra das pessoas. Quando vai em um lugar, sabe o que dizer.”

Apesar do prejuízo que amargará nesse dia e meio fechado, Marchese não reclama do companheiro que terá seu recurso de pena julgado nesta quarta-feira, 24, pelos desembargadores da 8.ª Turma Penal da Corte – a segunda instância da Operação Lava Jato.

“Não sei julgar se ele tem culpa ou não, para isso os desembargadores estão aí e são bem pagos para fazer isso”, diz o gaúcho, que se exime de qualquer comentário sobre culpa ou inocência de Lula.
“O que eu penso é que o Lula poderia aproveitar para passar tudo a limpo.”

Desde as 12hs desta terça-feira, 23, Marchese teve que fechar as portas, por ordem da Segurança.
O perímetro está isolado por forças policiais para evitar que manifestantes cheguem ao julgamento histórico de Lula. Até o fim do julgamento, enquanto não se souber o futuro do ex-presidente, aqui não se saboreia mais a tradicional carne gaúcha, nem se assistem as apresentações típicas de dança.