Banquete no ‘Serrado’

Aluisio Antonio Maciel Neto*

25 de novembro de 2016 | 04h00

Que a corrupção é mal disseminado, distribuído “irmanamente” em todos os seguimentos e, notadamente, entre os representantes políticos, ninguém questiona.

O que não se imaginava era o tamanho da audácia daqueles que traíram, e continuam a trair, a confiança popular em negociatas espúrias, ilícitas e imorais.

Se até pouco tempo atrás o “mal” estava escondido entre intenções puras da multidão que pedia o fim de um governo marcado pela própria corrupção, hoje, com uma desfaçatez incomum, ele mostrou a sua face.

A face que reflete integrantes de todos os partidos políticos, que se locupletaram dos esquemas fraudulentos para se enriquecerem ilicitamente e que, diante da máscara que cai paulatinamente com o avanço Justiça, agora busca se impor pela força, em nítida luta pela sobrevivência em uma selva onde não mais se admite o ilícito, o ímprobo, como modus vivendi.

Na ausência de uma “saída pela direita”, os “lobos” investem contra aqueles que ousaram enfrentá-los pelo poder das Leis. Não lhes interessa a universalização da Justiça, mas a sua seletividade, a atingir apenas as camadas sociais mais carentes. São os intocáveis, os inatingíveis, os “privilegiados”.

Agora, convictos de que seus poderes não serão contrastados pelos movimentos populares, os “lobos privilegiados” estão prestes a consumar o verdadeiro golpe contra a República.

Com a habilidade própria dos punguistas, escondem sob os carpetes dos salões nobres do Congresso Nacional o principal fator da crise moral e econômica: a corrupção e o enriquecimento ilícito. Os bilhões desviados em esquemas criminosos e que escoaram pelos “ralos de Gérson”, ou em jóias entregues a delivery, enquanto as contas públicas eram surrupiadas e os serviços públicos, sucateados.

Com a retórica vazia de um discurso falacioso, imputam a crise moral do país à atuação da Justiça e doutrinam os incautos com a ideia de que as instituições judiciárias são nababescas e compostas por marajás, a fim de também justificar a existência do colapso financeiro existente.

E, com o cenário montado, sob a luz do dia e das câmeras, utilizam-se de suas prerrogativas legislativas em causa própria a destruir as garantias constitucionais das carreiras jurídicas de Estado, a se anistiarem dos malfeitos cometidos e a imputarem crimes aos que são incumbidos do dever legal de investir contra a corrupção.

Tudo se inverteu.

Do outro lado da esplanada e enquanto os “lobos privilegiados” desfilam rapidamente suas “habilidades”, os Tribunais Superiores e as instâncias maiores do Ministério Público, únicos atores que poderiam resistir a tal investida, permanecem inertes, atônitos, a assistirem o descalabro anunciado nas manchetes jornalísticas.

Com movimentos lentos e apáticos, destoantes da celeridade havida pelos lados de Curitiba, os integrantes das Cortes Superiores e do Parquet sucumbem ao anacronismo do sistema de suas escolhas, das sabatinas e indicações outrora feitas pelas mesmas pessoas que agora são suas presas, e à ausência de impulso eficaz nas demandas que lhes são postas.

E, assim, nós, integrantes do primeiro andar da Justiça, apenas aguardamos o momento do abate e de sermos servidos, como “cordeiros”, no covil no Serrado, em mais um banquete patrocinado pelos tais “lobos privilegiados”.

* Aluisio Antonio Maciel Neto
2.º Promotor de Justiça de Piracicaba

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