Banqueiro exibiu cópia dos termos da delação de Cerveró em reuniões

André Esteves, do banco BTG Pactual, e o senador Delcídio Amaral (PT-MS) foram presos acusados de atrapalhar investigações da Lava Jato

Valmar Hupsel Filho, Júlia Affonso e Fausto Macedo

25 Novembro 2015 | 14h04

Nas duas reuniões em que foi discutido o apoio (financeiro, político e numa eventual fuga para a Espanha) para garantir o silêncio de Nestor Cerveró, o controlador do Banco BTG Pactual, André Esteves, tinha nas mãos uma cópia dos termos do acordo de delação premiada assinado pelo ex-diretor da Petrobrás. O fato, segundo o ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavaski, ilustra e confirma “grave revelação” sobre a existência de um “canal de vazamento na Operação Lava Jato que municia pessoas em posição de poder com informações do complexo investigatório”.

“Vem à tona a grave revelação de que André Esteves tem consigo cópia de minuta de anexo do acordo de colaboração premiada afinal assinado por Nestor Cerveró, confirmando e ilustrando a existência de canal de vazamento na Operação Lava Jato que municia pessoas em posição de poder com informações do complexo investigatório”, escreveu Zavaski na decisão que determinou, na manhã desta quarta-feira, 25, a prisão de Esteves e do senador Delcídio Amaral (PT-MS), líder do governo no Senado.

O banqueiro e o senador petista são acusados de atrapalhar o andamento das investigações da Lava Jato ao negociarem a compra do silêncio de Cerveró em duas reuniões realizadas em Brasília dias antes de o ex-diretor da Petrobrás assinar acordo de delação premiada com o MPF, na qual faz acusações contra Amaral e Esteves. 

André Esteves e Delcídio do Amaral. Fotos: Estadão

André Esteves e Delcídio do Amaral. Fotos: Estadão

As reuniões aconteceram nos dias 04 e 11 de novembro e foram gravadas pelo filho de Cerveró, Bernardo, que entregou as degravações ao MPF. Nas duas ocasiões, o documento, que continha os termos da delação de Cerveró, foi exibido por Esteves, segundo o ministro do STF.

Segundo relato de Zavaski, “o senador Delcídio Amaral vinha empreendendo esforços para dissuadir Nestor Cerveró de firmar acordo de colaboração com o Ministério Público Federal ou, quando menos, para evitar que ele o delatasse e a André Esteves, controlador do Banco BTG Pactual”.

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O ministro Teori Zavascki relatou que na primeira reunião houve uma promessa de pagamento de R$ 4 milhões para evitar que o ex-diretor da Petrobrás, Nestor Cerveró, firmasse acordo de delação premiada. O senador chegou a oferecer, segundo o relator, auxílio financeiro em R$ 50 mil mensais à família de Cerveró, além de intercessão política em favor de liberdade junto aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e ajuda em fuga para a Espanha.

De acordo com as investigações da Procuradoria-Geral da República, seriam pagas vantagens indevidas à família do ex-diretor da Petrobras através de pagamentos simulados de honorários pelo BTG Pactual ao advogado Edson Ribeiro. Os valores, que segundo promessa do senador chegariam ao montante de R$ 4 milhões, seriam repassados pelo advogado à família de Cerveró aos poucos.

Neste encontro, também fopram discutidas as possibilidades de de se colocar Cerveró em liberdade, por meio de uma atuação descrita por Zavaski como “espúria” do senador Delcídio Amaral junto a ministros do Supremo.

No segundo encontro, Amaral teria oferecido rotas e meios de fuga para Cerveró, para o caso de ele ser beneficiado por um habeas corpus. Segundo o ministro do Supremo, o senador petista teria sugerido uma rota via Paraguai e oferecido uma aeronave Falcon 50, que teria autonomia para chegar sem escalas à Espanha, onde Cerveró tem cidadania.

No acordo de colaboração premiada assinado por Cerveró no dia 18, o ex-diretor da Petrobrás relata, segundo Zavaski, a prática de crimes de corrupção passiva por Delcídio Amaral, no contexto da aquisição de sondas pela Petrobrás e da aquisição da refinaria de Pasadena; e de corrupção ativa por André Esteves, por meio do BTG Pactual, consistente no pagamento de vantagens indevidas ao senador Fernando Collor de Mello no contrato de embandeiramento de 120 postos de combustíveis em São Paulo.