Bandido bom é bandido morto?

Emanuela Carvalho*

21 de julho de 2017 | 04h55

 

As informações sobre a criminalidade no Brasil são assustadoras. A sensação é de que vivemos uma guerra civil não declarada e que seremos as próximas vítimas. O medo nos faz reféns e nos torna além de inseguros, desconfiados de tudo e todos, estressados e em alguns casos, agressivos, sob a ótica de que a melhor defesa é o ataque.

Falar sobre esse tema é difícil e desafiador. Há muito que se discutir. Mas a ideia é, nesse texto, trazer opções de respostas à pergunta que o intitula.

O que as pessoas pensam sobre isso está relacionado às suas experiências e crenças. É possível que uma vítima de violência, depois do trauma, defenda que sim, bandido tem que morrer. Para ela, os criminosos são inúteis, colocam-nos todos em risco diariamente, trazem despesas ao governo, em consequência à sociedade pagadora de tributos, são uns vagabundos que não fazem nada o dia inteiro e saem da penitenciária, quando presos, pior do que entraram.

Também é possível que pensem assim pessoas que nunca foram vítimas de violência, ou se foram, não se sentem traumatizadas.

Por outro lado, há quem, vítima ou não, deseje olhar para a população carcerária como algo além dos números. Vale lembrar que, de acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública, a população carcerária no Brasil é de mais de 622 mil detentos*.

E o que seria pensar nessas pessoas para além dos números? Seria se perguntar, primeiro: quem são elas? De onde elas vêm? Qual a classe social predominante? A cor da pele? Quais crimes mais cometem? Há diferenças entre os crimes cometidos por homens e mulheres?

Se, inicialmente, o objetivo desse texto era trazer respostas, ele nos leva a fazer ainda mais perguntas.
É possível afirmar que a maior parte da população carcerária no Brasil é formada por pobres e negros, ou isso não procede? E se proceder, será coincidência?

O Brasil, tão grande quanto desigual, ainda vestindo a máscara do país das oportunidades, é mesmo uma Pátria Mãe Gentil para todos os seus filhos? E o que justificaria que aqueles que têm acesso quase restrito a uma educação de qualidade, ao saneamento básico, que o nome já diz – básico! – à segurança e às políticas públicas, estejam lotando as penitenciárias, chamadas por tantos de Universidades do Crime?

Sim, é hora de assumir. Não trarei respostas.

Mas os questionamentos que ofereço têm o objetivo de nos fazer refletir. Quantos bandidos por aí já não estão mortos? Não sabemos nem os seus nomes, os seus rostos, a dor das suas famílias. Não sabemos. São bandidos. Não são gente, não têm direitos, não são vítimas.

Enquanto não entendermos que muitos, e arrisco dizer que a maioria daqueles que formam a população carcerária no Brasil são, além de culpados, vítimas, não conseguiremos olhar para o problema da criminalidade de frente. É preciso coragem para encará-lo e resignificá-lo.

É claro que a pobreza não justifica o crime e a desonestidade. Mas e a riqueza? Quantos ricos roubam e se tornam ainda mais ricos, mas continuam à solta estimulando o crime organizado, para que a base da pirâmide social seja punida em seus lugares?

O que resolveria o problema do país em relação à criminalidade? Mais uma pergunta que nos levará a refletir, mas de início, pensar em todas as pessoas, ricos e pobres, como seres humanos, levados tantas vezes ao extremo, à perda da sensibilidade, do amor à vida – própria e do outro – ajudaria. Lembrar que nasceram sob o jugo da pobreza, do abandono, da ausência do Estado, também.

Todas as perguntas acima seriam mais facilmente respondidas se tivéssemos, todos nós, os mesmos direitos. Não só na teoria, nos infinitos documentos que tentam provar a igualdade – que já deveríamos saber que é inexistente – mas na prática, na vida das pessoas que sentem a fome, a exclusão, o abandono, que são invisíveis, até na hora em que devem ser exterminadas, de tão insignificantes que são.

E repetindo a pergunta, você, o que acha? Bandido bom é bandido morto?

*Emanuela Carvalho é professora e autora do livro “Antes Feliz do que Mal Acompanhada”

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